Edward ensaiou por diversas vezes o que diria naquela noite. Infelizmente, porém, embora tivesse uma memória privilegiada e uma capacidade de aprendizado acima da média, sua inteligência evaporava como fumaça toda vez que estava diante de Âmber.
E ali, em frente a casa dela, ele ia e voltava pelo caminho pavimentado do jardim, tentando recobrar o mínimo possível de sua eloquência.
Ansioso, passava as mãos pela face e alisava o smoking preto que usava. Queria ter um espelho consigo naquele momento para poder verificar se seu cabelo cheio e ondulado, sofridamente arrumado com gel, ainda permanecia no mesmo lugar.
Desejava muito estar mais seguro de si, mas os quilinhos a mais não favoreciam o alinhamento do caro traje que vestia.
Ainda mais, a conversa que teve mais cedo com seu tio Rupert havia destroçado sua já quase inexistente autoestima.
Na tarde daquele dia, ele falava com a cozinheira da casa, animado pela perspectiva de ir ao baile com Âmber. Jamais dividiria aquela empolgação com seu tio, pois sabia que ele sempre desmereceria qualquer coisa boa que lhe acontecesse.
Porém, para seu azar, não notara a chegada sorrateira de Rupert, que se encostou ao batente da porta enquanto observava o diálogo de Edward com a “serviçal” – maneira que ele sempre se referia às suas empregadas.
– Que maravilha Edward! Fico tão feliz por você! – Disse Greta, a responsável pela cozinha desde que ele era um menino.
– Obrigado! Eu estou realmente muito feliz, é a chance que eu esperava para poder finalmente me declarar e...
A conversa foi interrompida pela gargalhada alta do tio.
– Ora, mas vejam só. E eu que pensei que a noção era um acessório de fábrica para um Baudelaire. – Disse ele enquanto secava as lágrimas que escorriam do canto de seus olhos após tanto rir – Francamente, Edward, não seja ridículo.
– Eu não entendo por que estaria sendo ridículo tio.
– Não entende? Então sua falta de senso é pior do que eu pensava. Olhe para você, querido sobrinho. – Rupert percorreu o corpo do rapaz com o olhar– Âmber é uma garota linda e cheia de charme, por qual razão ela se interessaria por uma lata de banha?
A cor deixou o rosto de Edward e ele cerrou os punhos em uma reação instintiva.
Percebendo que a situação ficara pesada demais, Greta tentou intervir.
– Não ligue para o que ele diz meu menino, você é um rapaz lindo e...
Outra gargalhada tomou conta do ambiente.
– Lindo? Não minta para ele, serviçal. Além disso, ele não é seu menino. Um Baudelaire jamais viria de uma linhagem tão medíocre. Ele é um rapaz com idade suficiente para entender que precisa saber qual é o seu lugar. Infelizmente, assim como o senso de ridículo, a beleza não é um fator genético nesta família. Enquanto eu fui agraciado com ela, meu sobrinho puxou o infeliz do pai e possui nada mais que uma figura insignificante, que jamais estaria à altura daquela bela moça.
Para desgosto de Edward, havia duas verdades naquela declaração sórdida.
A primeira: seu tio era inegavelmente um homem bem apessoado. Com seus cinquenta e cinco anos bem vividos, cheios de conforto e todo o luxo que o dinheiro poderia pagar, Rupert mantinha sua bela aparência com maestria.
A linha do maxilar quadrada e perfeitamente alinhada, coberta por uma barba cerrada levemente grisalha e cabelos loiros, cheios e lisos – que não necessitavam de nada além de uma passada de dedos para ficarem impecáveis – combinados a um físico bem desenhado e magro que ele mantinha com intensas sessões de ginástica, faziam dele um homem realmente bonito.
Para completar o conjunto, aficionado por tudo o que o dinheiro podia comprar de melhor, seu guarda-roupa era repleto de roupas importadas, com tecidos de primeira qualidade e caimento perfeito.
A segunda verdade era que Edward não se parecia com o tio. Herdara os cabelos castanhos e rebeldes como os do pai, irmão de Rupert, e também sua tendência a engordar só de olhar para a comida.
Tinha sido uma criança e um adolescente bem rechonchudos e após muito bullying pesado por causa disso, decidira começar a correr aos dezesseis anos. Conseguira diminuir vários números na balança, mas ainda assim, estava acima da média esperada para sua idade.
Durante toda a sua existência, todos enxergaram primeiro o seu peso antes de enxergar sua alma. Menos Âmber.
Para ela, ele sempre foi o suficiente.
Ainda se lembrava com carinho de uma tarde quando conversavam à beira do lago e ele reclamava do quanto seu sobrepeso atrapalhava sua vida.
“Para mim você é perfeito do jeitinho que é!” – Ela afirmara com um sorriso.
E se ela o considerava perfeito, não precisava da opinião de mais ninguém.
Acontece que, o excesso de gordura em seu corpo começou a causar-lhe problemas físicos precoces e após uma visita ao médico ele foi fortemente orientado a adquirir hábitos saudáveis.
Desde então corria e se alimentava melhor, isso ajudara a ficar consideravelmente mais magro, o que era visível para todos ao seu redor, menos para Rupert.
Para ele, não bastava pisotear suas emoções com as constantes surras que lhe deu a vida toda. Tinha que destruir também a forma como enxergava sua própria imagem.
Por isso, ser chamado de “lata de banha”, “rolha de poço” e “baleia encalhada” por ele tornou-se algo absolutamente corriqueiro em sua vida. Na verdade nem se irritava mais, exceto naquele dia.
Justo quando mais precisava confiar em sua capacidade de ter a atenção de sua amiga da forma que tanto sonhava, seu tio cuidara de destruir sua autoconfiança.
Ele ainda pensava nas cortantes palavras de Rupert, andando de um lado para o outro no pavimento do jardim quando a porta da casa se abriu.
Edward já tinha lido inúmeros livros em sua vida, inclusive dicionários. Era fluente em três idiomas e por isso já tinha devorado a literatura de diversos países.
Mesmo assim, faltaram-lhe palavras para descrever a visão de Âmber parada junto à soleira.
Ela era a mais completa materialização da perfeição.
Com seus longos cabelos cor de cobre cobrindo seus ombros como um véu e um vestido dourado que lhe marcava a cintura e descia como ondas sedosas até seus pés, ela parecia saída de um conto de fada.
Aquilo foi demais para ele, que sentiu as lágrimas se acumularem em suas pálpebras.
Sua v*****e era chorar compulsivamente enquanto agradecia por ter encontrado sua rainha, de quem seria súdito eternamente.
Ela correu ao seu encontro e pendurou-se em seus ombros ao mesmo tempo em que ele a girava no ar.
Estava tudo absolutamente perfeito, mágico, surreal...
Até que uma buzina apertada freneticamente interrompeu o momento.
***
Edward queria gritar. Não, queria mesmo era se arremessar de encontro ao conversível vermelho parado em frente à casa de Âmber e moer seu condutor na pancada.
– Francamente Edward, meu querido. – Rupert falou enquanto batia a porta do carro – Sério mesmo que você pretendia levar essa princesa ao baile de táxi?
O rapaz cerrou os punhos pela segunda vez naquele dia. Uma gota de suor escorreu por sua testa. Seus dentes travaram e sua respiração ficou pesada.
– Sabe que não dirijo. – Ele respondeu após uma fazer uma força imensa para não perder o controle.
– Sei. Mas poderia ter pedido ao meu motorista para levá-los. – Seu tio provocou com um sorriso cínico enquanto frisava a palavra “meu”.
Sim, poderia ter pedido ao motorista dele.
Acontece que Edward se recusava a macular seu momento perfeito com Âmber com qualquer coisa que pertencesse a seu tio. Qualquer coisa.
E agora, para seu total desalento, ele próprio em pessoa estava ali, esfregando em sua cara mais um de seus carros de luxo, humilhando o modesto esforço que o rapaz havia feito para fazer daquele, um dia especial.
– Eu faço questão de levá-los até o baile. Que tipo de tutor eu seria se deixasse a pequena Âmber ir de taxi a um dos eventos mais memoráveis de sua vida?
– É muita gentileza sua, Senhor Baudelaire. Na verdade eu não me importaria de ir de táxi.
– Tenho certeza que não, chérie[1]. – Ele respondeu enquanto Edward assistia irritado àquela cena – Mas uma moça tão linda merece o melhor. Além disso, não me chame de senhor, não sou assim tão velho. Para você, eu sempre serei Rupert.
Ali, diante do olhar raivoso do sobrinho, o homem inclinou-se, tomou a mão de Âmber e depositou um casto beijo sobre seu dorso.
Ela sorriu.
Seu tio correspondeu.
E o que restava da dignidade de Edward se desfez em um milhão de cacos.
– Obrigada Rupert. – Ele a ouviu agradecer com a voz distante.
Já fazia tempo que, na milésima surra levada, ele descobriu que deixava de ouvir nitidamente as pessoas quando estava no ápice do nervosismo.
Após ser espectador daquela cena ridícula, caminhou lentamente até o outro lado do carro, enquanto seu tio abria a porta para sua amiga entrar.
– Está tudo bem? – Ela lhe perguntou quando ele se sentou ao seu lado.
– Está sim. – Ed respondeu com um sorriso f*****o, tentando não estragar a beleza do momento.
E como imaginara, aquela seria mesmo uma noite inesquecível para ele, mas não pelo motivo que tanto sonhara.
[1] Querida – Em francês.