Passou um mês da morte da minha mãe, aos poucos eu voltei para a rotina do trabalho, mas ainda não tinha prazer de me arrumar, andava de qualquer forma e não me alimentava bem. Meu pai falava de mim para o bairro coisas horríveis, mas eu o perdoava pela sua dor. Eu, no fundo, sentia orgulho de mim por isso, tentava entender que ele descontava toda a dor em mim, achava que eu iria aguentar segurar a minha dor e a dele, porque enquanto ele estivesse ocupado comigo, não lembraria tanto da morte da minha mãe.
Um dia cheguei na escola e fui fazer meu trabalho. Um pai de uma criança estava lá, ele sujou a blusa e pediu para eu limpar, foi educado, eu ajudei. Uma outra mãe viu e comentou, no mesmo dia eu era o assunto da escola e cidade de novo. O homem explicou a situação, mas acharam que eu estava dando em cima dele e já fizeram toda a situação. Fui julgada e condenada por algo que eu não fiz, a sentença foi a demissão. Fizeram um abaixo-assinado para a diretora me demitir, pois se não, iriam tirar os filhos da escola.
Fui mandada embora, peguei um valor de rescisão e dei para o Dom. Eu ainda iria ganhar o valor por uns meses, já que fui mandada embora. Eu precisava procurar outro emprego, as quimioterapias estavam caras e cansavam muito o Dom. Queria ajudá-lo, eu faria qualquer coisa por ele. Fui até um amigo nosso, médico, expliquei, ele já ajudava o Dom. Ele disse que existia um tratamento que iria ajudar e até a cirurgia, mas era caro e ele não podia pagar ou fazer de graça porque não dependia só dele. Perguntei quanto custaria e pedi para ele me explicar como funcionava. Eu iria ajudar o Dom, mesmo que isso custasse minha felicidade e liberdade, iria retribuir tudo que ele fez por mim, o único homem que me amou e respeitou, não iria perder ele também.
Cada dia que passava a saúde do Dom piorava, ele me tratava com respeito, mesmo que eu não merecesse, mas eu sentia que ele não confiava em mim. Tinha motivos para isso, meus filhos não me tratavam como mãe, eu notava que eles tinham mais a namorada do Dom como a mãe que eles queriam, ela fazia tudo o que eu sempre devia ter feito, mas nunca fiz. Sabe quando estamos já piores, vemos quem é amigo. Eu não tinha muitos, acho que nenhum. Os homens só me usavam, a maioria queria sair comigo escondido, para não ser visto comigo em público e meu pai continuava me tratando como um nada, ou melhor, como alguém que não merecia nada. Eu não tinha vontade de viver, perdi tudo o que tinha, trabalhava fazendo b***s, não tinha mais nem o amor da minha mãe. Então decidi que eu iria dar um jeito de ajudar o Dom a pagar o tratamento dele, iria fazer a única coisa que faço bem, mas dessa vez por um bem maior. Iria atrás do Alexandre, mesmo que isso custasse minha felicidade. Eu só queria minha família feliz, mesmo não fazendo mais parte dela.
Alexandre me ouviu e me olhou com um olhar estranho, como se já soubesse que eu iria até ele. Me doeu pedir ajuda, mas era o certo. Ele não respondeu, disse que voltaria comigo com algumas condições. Eu deixei claro que não o amava, mas seria só dele, que eu tinha passado por situações difíceis, que precisava de ajuda para meus filhos e para o pai deles. Que se ele aceitasse ajudar, eu faria tudo o que ele quisesse. Ele gostava de mim, mas era mais como posse, não era amor. Ele me olhou e disse que voltaria comigo, mas eu teria que ir morar com ele, iria para fora do Brasil. Eu iria como sua mulher e cuidaria da casa e da sua filha. Agora ele estava envolvido com política e várias outras coisas, com certeza erradas. Na hora eu gelei, não iria abandonar meus filhos, mas eu não tinha opção. Eu também não poderia falar a verdade, porque o Dom nunca iria aceitar minha ajuda, ainda mais sendo dinheiro sujo.
Arrumei minhas coisas, ele iria embora na mesma semana. Eu falei com o médico, amigo do Dom, expliquei tudo e peguei o contato e número da conta do melhor hospital do estado. Alexandre iria pagar todo tratamento enquanto eu estivesse ao seu lado, iria dar uma boa pensão aos meus filhos. Ele estava cada vez mais rico, envolvido com coisas erradas. Meu pai soube que eu iria embora, falou que eu era o desgosto da minha mãe. Me doeu, vi seus olhos cheios de lágrima. No fundo, ele pensava que eu estava me vendendo, não sabia o motivo da minha partida. O que ele sabia era que mais uma vez eu iria abrir mão da minha família. Doeu muito contar para meus filhos e o Dom, principalmente o desprezo, como se já soubesse que eu seria capaz disso. Pedi para falar com eles duas vezes por semana, disse que iria a trabalho e que mandaria pensão.
Durante a semana, fui arrumando tudo para ir embora. Alexandre viu meu passaporte e eu voltei para a casa dele. Sua filha fazia minha vida um inferno e deixou bem claro que não seria fácil nossa convivência.
Entrei no avião, estava cansada. No fundo eu via uma chance de ser alguém melhor, mas também sabia que era fazendo as escolhas erradas. Eu só pensava em como fui burra, como não dei valor ao que já tinha. Dizem que só damos valor quando perdemos, né? A saudade da minha mãe apertava, não tinha o abraço ou o amor dos meus filhos e, finalmente, quando descubro que amei um homem, ele está com outra mulher, tomando meu lugar de forma muito melhor do que eu fiz. Ela era bonita, jovem, carinhosa, tratava ele como um rei e não estava com ele por interesse, pois ele gastava muito dinheiro com tratamento e com meus filhos. Entrei nas redes sociais e vi que ela postou que sonhava em ter um filho com ele. Eu só conseguia pensar nisso, que tinha alguém no meu lugar. O avião partiu, Alexandre segurou minha mão forte e contou sobre seus planos e como eu deveria me comportar.