🍂CAPÍTULO 14 🍂

2252 Palavras
đŸŒ» CLARA đŸŒ» Eu ainda estou tremendo quando Miguel me segura. Meus braços doem onde a corda apertava, mas nada dĂłi mais do que a lembrança do medo. Respiro fundo, tentando organizar as imagens que vĂȘm em flashes, como se meu cĂ©rebro tivesse quebrado no meio do caminho. — Calma. — ele diz baixo, a voz firme demais, mas, nĂŁo me i********e. — Me conta tudo. Prometo que te farei esquecer. — os olhos deles brilham com uma intensidade que nĂŁo sabia que era humanamente capaz, e eles me fazem querer me afundar na segurança que transmite. Engulo em seco e aperto minha testa no peito dele, e o cheiro de Miguel Ă© a Ășnica coisa que me mantĂ©m aqui, no presente. Aqueles desgraçados me ameaçaram de tantas coisas, que, suas mortes foram rĂĄpidas demais para o que mereciam. — Eu estava indo pra escola. — começo, a voz falhando, quando lembro da minha boa rotina quebrada. — De ĂŽnibus, como sempre. Levanto o rosto sĂł o suficiente para encontrar os olhos dele. Miguel nĂŁo pisca. NĂŁo me apressa. E nesse momento, ele Ă© apenas o soldado que estava na guerra e mesmo assim, nunca deixou de me proteger. NĂŁo quero pensar na mĂĄgoa que ainda tenho por ele ter me enganado. Preciso apenas ser cuidada. — Um homem sentou ao meu lado. Normal. Tinha muita gente ainda. — dou de ombros, lembrando do momento. — Quando o ĂŽnibus começou a esvaziar, ele se aproximou mais. Eu achei que fosse sĂł falta de espaço. Minhas mĂŁos tremem. Miguel segura uma delas, firme, colocando ela em seu peito. Eu nĂŁo sabia que um coração poderia bater tĂŁo rĂĄpido, enquanto sua expressĂŁo facial parecia tĂŁo neutra. — Quando descemos. — continuo, tirando minha mĂŁo do seu peito, e colocando sobre minha barriga. — ele desceu comigo. Parecia coincidĂȘncia. AtĂ© ele encostar algo afiado em mim. Minha respiração trava, lembrando do desespero inicial. Eu queria entregar bolsa, celular, e apenas sair viva daquela situação. — Era uma arma. Ele falou baixo, mandou eu nĂŁo reagir. Disse que se eu gritasse, os comparsas dele atiraria para matar na multidĂŁo que estava no ponto. — fechei os olhos, e lembro das crianças indo para a escola, jovens saindo da academia, outros entrando no ĂŽnibus para o trabalho. Eu nĂŁo poderia sacrificar vĂĄrias vidas. O maxilar de Miguel se contrai. Eu sinto o corpo dele endurecer, mas ele nĂŁo diz nada. Estou com medo de olhar para ele. — Tinha um carro parado prĂłximo. Me empurraram pra dentro e saĂ­ram rĂĄpido. Muito rĂĄpido. — Abro os olhos, perdida. — Depois disso Ă© tudo confuso. NĂŁo sei quanto tempo passou. SĂł lembro de acordar amarrada naquele inferno, e aqueles homens me ameaçando. Minha voz quebra de vez. Ele fecha os olhos e encosta a testa na minha. — Me perdoa. — A palavra sai pesada. — Eu prometi que ia te proteger. E falhei. Deixei que passasse por essa situação. — NĂŁo. — balanço a cabeça, fraca com sua proximidade. — VocĂȘ me salvou. — passo minha mĂŁo no seu rosto, a barba macia causando uma sensação boa, que me arranca um pequeno sorriso. — Mesmo assim — ele insiste, sua mĂŁo agora acariciando meu rosto com cuidado. — Isso nunca deveria ter acontecido. Miguel me envolve com mais força, como se pudesse apagar o mundo ao redor. Depois de tudo, o cansaço cai sobre mim de uma vez sĂł. Minhas pernas jĂĄ nĂŁo sustentam. Ele percebe. — Vou te levar pra casa. — diz baixo, me dando um sorriso curto. — VocĂȘ precisa descansar. Eu nĂŁo questiono. Apenas concordo com um aceno lento. No carro, o movimento constante, a segurança do braço dele ao meu redor tudo se mistura. Meus olhos pesam. O medo cede lugar ao esgotamento. Adormeço. Quando acordo, o silĂȘncio Ă© diferente. NĂŁo Ă© o silĂȘncio da minha rua, nem o da minha casa. Abro os olhos devagar e vejo algo grande demais. Janelas altas. Um portĂŁo imenso Ă  frente. — Miguel?! — murmuro, confusa. Ele estĂĄ ao meu lado, atento, como se tivesse passado todo o tempo me observando dormir. Talvez tenha. — Acordou. — diz suave. — Carlos sempre disse que vocĂȘ dorme fĂĄcil. Vem. Vamos entrar. — Onde a gente estĂĄ? — pergunto, sentindo o coração acelerar de novo. Ele segura minha mĂŁo antes que eu possa entrar em pĂąnico. — Em casa. — Essa nĂŁo Ă© a minha casa. — Eu sei. — Miguel respira fundo, como quem decide nĂŁo esconder mais nada. — É a minha. A nossa. Olho ao redor, tentando entender. Uma mansĂŁo. Segurança por todos os lados. Nada ali se parece com a vida simples que eu conheço, e nem parece algo que o Miguel teria. — Miguel, o que estĂĄ acontecendo? Ele se aproxima, baixa o tom da voz. Seu corpo alto Ă© intimidante, mas, a forma que ele me olha. A forma que ele me olha aquece algo no meu coração e me faz querer apenas abraçar. — Depois de hoje, nĂŁo Ă© seguro te deixar em qualquer lugar. — Seus olhos encontram os meus, sĂ©rios. — Aqui, ninguĂ©m chega sem eu permitir. Aqui, eu posso te proteger de verdade. Meu peito aperta. Medo e alĂ­vio se misturam. — VocĂȘ vai ficar comigo. — ele completa. — Pelo tempo que for necessĂĄrio. Eu deveria questionar. Deveria resistir. Mas tudo o que sinto Ă© cansaço e uma estranha paz por estar ali. Seguro a mĂŁo dele com mais força. — TĂĄ. — sussurro. — Eu confio em vocĂȘ. Miguel inclina a cabeça, encosta os lĂĄbios na minha testa, e naquele gesto simples eu me deixo descansar outra vez. NĂŁo em sono, apenas a mente. É claro que eu ainda estou p**a com ele. Muito. NĂŁo Ă© porque fui sequestrada, salva no Ășltimo segundo e acordei em uma mansĂŁo que tudo o que Miguel fez simplesmente deixa de existir. Ele mentiu. Escondeu coisas e me fez se sentir i****a, enquanto brigava comigo mesmo entre o desejo que estava sentindo por meu vizinho e amor que sentia por ele. Isso dĂłi quase tanto quanto o medo que senti horas atrĂĄs. Mas agora. Ágora eu preciso de respostas. Entro na casa com passos lentos, observando tudo sem realmente ver nada. Minha cabeça ainda estĂĄ girando. Miguel fecha a porta atrĂĄs de nĂłs, e o som ecoa pelo espaço enorme. Eu olho para aquele homem grande, o corpo trabalhado como uma escultura. TĂŁo bonito, que temo que um sorriso seu poderia ser fatal. — VocĂȘ vai me explicar. — digo, antes que ele diga qualquer coisa, porque sinto que quanto mais tempo passo prĂłximo a ele, mas fico vulnerĂĄvel aos meus sentimentos. — Tudo. Ele nĂŁo tenta escapar. NĂŁo tenta suavizar. Miguel passa a mĂŁo nos cabelos, como se pensasse por onde começar, e me dĂĄ um sorriso curto, que m*l moveu o cantinho da boca. O que poderia ser tĂŁo terrĂ­vel ao ponto de que eu vire alvo?! — VocĂȘ tem todo o direito. Cruzo os braços, esperando que ele seja sincero e me diga tudo. Tenho medo de suavizar minha expressĂŁo e ele tenha coragem de me enganar mais uma vez. — VocĂȘ se culpou lĂĄ fora. — Ergo o olhar para ele. — Por quĂȘ, Miguel? O que vocĂȘ escondeu de mim a ponto de chegar nisso? Ele passa a mĂŁo pelo rosto, visivelmente pesado e vai se sentar na poltrona, estendendo a mĂŁo para que eu me sente no sofĂĄ ao lado. Eu obedeço, querendo manter a proximidade e tentar ter certeza da sua honestidade com seja lĂĄ qual for a histĂłria que ele vai contar. — Porque o alvo nunca foi vocĂȘ. — começa. — Mas virou por minha causa. Meu estĂŽmago se revira. — Explica. Miguel respira fundo, como se estivesse abrindo uma porta que manteve trancada por tempo demais. — Eu sou herdeiro da empresa da empresa da minha mĂŁe. — Ele faz uma pausa. — Ou melhor, das açÔes que eram da minha mĂŁe. Eu jĂĄ disse a vocĂȘ. Perdi ela muito cedo. Meu peito aperta ao ver o sentimento estampado em seu rosto, como uma nĂ©voa. Ele ainda vive um luto. — Ela morreu quando eu ainda era jovem — continua. — E deixou tudo no meu nome. Meu pai nunca aceitou. Sempre achou que aquilo deveria ser dele. Como eu ainda era menor, ele foi o responsĂĄvel pelas minhas açÔes herdadas. Mas, mesmo depois que cheguei a maior idade, ele manipula a diretoria para nĂŁo permitir que eu assuma. Montou armaçÔes e escĂąndalos, me obrigando a servir todo esse tempo no exĂ©rcito. Ele quer que eu desista das minha herança de uma forma ou de outra. Por isso. — Ele resolveu pressionar vocĂȘ. Usando a mim — concluo, sentindo um gosto amargo na boca. — Sim. O silĂȘncio pesa. — Haroldo sempre jogou sujo. — Miguel prossegue. — Manipula pessoas, compra silĂȘncio, destrĂłi quem entra no caminho. Quando percebeu que eu nĂŁo cederia as açÔes, ele procurou algo que me atingisse de verdade. Ele me olha, e nĂŁo hĂĄ dĂșvida nenhuma no que diz a seguir. — VocĂȘ. Sinto o impacto dessas palavras como um soco, porque eu sei que Ă© verdade sua fala. Eu vi o olhar dele sobre mim, quando me viu amarrada. NĂŁo era apenas Ăłdio pela situação, era algo muito maior. — Clara, vocĂȘ Ă© a Ășnica coisa que importa pra mim. Meu coração falha uma batida. — Por isso eu me sinto culpado. — ele continua, a voz baixa, quase crua. — Porque eu sabia do risco. Eu achei que dava conta. Achei que manter vocĂȘ distante da verdade seria uma forma de te proteger. — E acabou me colocando ainda mais em perigo. — respondo, sem suavizar, porque quero que ele saiba que o quanto ele esconde as coisas, apenas nos prejudica. No caso, me prejudica. — Sim. Ele aceita. NĂŁo se defende. Meu peito aperta, porque sinto que estou sendo dura com ele, mas, lembro que ele me enganou e se ele tivesse falado tudo a mais tempo, teria sido muito mais difĂ­cil de tudo isso acontecer. — Miguel! Ainda tem alguma coisa que eu nĂŁo sei, e que talvez seja necessĂĄrio saber para minha proteção? — pergunto, dando a chance para que ele esclareça qualquer outra coisa, para evitar problemas futuros. — NĂŁo. — Miguel sai da poltrona e senta ao meu lado, pegando minha mĂŁo e levando pra sua perna. — Agora eu te conto toda verdade e te peço para ficar sob minha proteção. Conto qualquer coisa que quiser saber. — Pedir? — arqueio a sobrancelha, porque apesar de ele estĂĄ “oferecendo”, ainda sou seu ponto fraco e nĂŁo tem a mĂ­nima chance de sair por aĂ­, correndo o risco de voltar a reviver aquele momento terrĂ­vel. — Pedir — confirma. — Porque eu nĂŁo vou te obrigar. Mas preciso ser honesto: atĂ© eu eliminar o Haroldo, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ segura. Meu corpo se arrepia. — Eliminar? — sussurro. — Tirar o poder dele. Definitivamente. — Seus olhos escurecem. — Ele cruzou uma linha que nĂŁo tem volta. Penso em tudo. Na arma encostada em mim. No medo. No sorriso frio que quase vejo refletido no rosto do pai dele, mesmo sem tĂȘ-lo conhecido. AlguĂ©m totalmente sem escrĂșpulos, Ă© admirĂĄvel que Miguel seja o oposto dele, sendo criado assim. O quanto deve ter sofrido?! — Eu confio em vocĂȘ. — digo, por fim, sabendo que apesar de tudo, Miguel Ă© alguĂ©m que estĂĄ aqui ao meu lado, por causa do meu irmĂŁo, e ele merece que eu confie. — NĂŁo porque foi perfeito. Mas porque, quando tudo deu errado, foi vocĂȘ quem veio. Miguel fecha os olhos por um segundo, como se aquilo fosse a coisa mais pesada e mais preciosa que alguĂ©m jĂĄ lhe deu. O fato Ă© que, se ele nĂŁo me amasse, apenas teria deixado seu pai fazer o que quisesse comigo, e pronto. Mostraria que sua herança era mais importante que minha vida. — Carlos confiava em vocĂȘ. — acrescento, pensando no meu loiro. — E isso significa alguma coisa pra mim. Carlos jamais deixaria vocĂȘ prĂłximo a mim, se vocĂȘ nĂŁo fosse confiĂĄvel. Ele me encara, surpreso. — Obrigado por isso. Ele se aproxima mais de mim, e eu me afasto. Vejo sua expressĂŁo contrariada, mas, isso nĂŁo importa. — Isso nĂŁo apaga o que vocĂȘ fez. — deixo claro, apontando sua face. — Eu ainda me sinto traĂ­da. Ainda estou machucada. — Declaro, fazendo um pouco de bico, porque nĂŁo vou perdoar tĂŁo fĂĄcil. — Eu sei. — Ele responde, triste.. — Mas, agora eu preciso sobreviver. — Ergo o queixo. — E, gostando ou nĂŁo, vocĂȘ Ă© a pessoa mais segura pra estar ao meu lado. Miguel estende a mĂŁo, devagar, como quem sabe que nĂŁo pode exigir nada. Eu o amo, e odeio sentir que nĂŁo posso magoar esse i****a, mesmo querendo bater nele. Estou uma confusĂŁo tĂŁo grande em mim, que agora eu sĂł queria me esconder embaixo de um edredom e esperar toda a confusĂŁo acabar. — EntĂŁo fica. Pelo menos atĂ© isso acabar. Olho para aquela mĂŁo. Depois, para ele. Coloco a minha sobre a dele, porque preciso do seu toque. SĂł hoje, eu apenas quero ser cuidada. — Eu fico. — Pauso. — Mas dessa vez, sem segredos. O aperto que ele devolve Ă© firme. TambĂ©m Ă© firme quando me puxa pro seu colo, e murmura no meu ouvido. — Nunca mais. Sem segredos. đŸŒ»đŸŒ»đŸŒ»đŸŒ»đŸŒ»
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