🍂 CAPÍTULO 1 🍂

821 Palavras
đŸ„€ CLARA đŸ„€ O telefone toca quando a casa estĂĄ silenciosa demais. Esse tipo de silĂȘncio que machuca os ouvidos. Estou sentada Ă  mesa da cozinha, uma xĂ­cara de cafĂ© frio esquecida entre as mĂŁos, olhando para nada. Desde que recebi a notĂ­cia da morte do meu irmĂŁo, o tempo parece ter parado em algum lugar que eu nĂŁo consigo alcançar. Atendo sem pensar. — AlĂŽ? Do outro lado, hĂĄ uma respiração pesada. Contida. Masculina. Por um segundo, meu coração se agarra Ă  esperança mais c***l de todas. Eu sei que Ă© bobagem da minha parte, mas, tudo o que quero no momento Ă© ouvir a risada do meu irmĂŁo, me chamando de coelhinha. — Clara, aqui Ă© o Miguel. A voz Ă© grave, baixa, como se cada palavra precisasse de permissĂŁo para sair. Miguel Ă© amigo do meu irmĂŁo, na base onde estavam servindo. Os dois eram lĂ­deres de equipes, e Carlos sempre falava do amigo me deixando curiosa sobre ele. — Eu. Eu servia com o Carlos. — ele continua apĂłs meu silĂȘncio. — Ele falava muito de vocĂȘ. — Miguel continua. — Eu sinto muito. NĂŁo hĂĄ palavras que. Ele se cala. E esse silĂȘncio diz mais do que qualquer frase pronta. — Eu tambĂ©m jĂĄ nĂŁo tenho palavras. — sou sincera. — obrigado por ligar. Eu vou receber as cinzas e, — ele vai ser enterrado com honras. — Miguel diz sĂ©rio. — Carlos nĂŁo queria que sofresse. Deslizo devagar atĂ© a cadeira e me sento. O telefone treme levemente na minha mĂŁo. Imagino meu irmĂŁo sorrindo, dizendo que Miguel Ă© sĂ©rio demais, chato demais. Queria ouvir isso outra vez, e tambĂ©m, ele me chamando de bobinha e que devo sempre ser feliz. — Obrigada por estĂĄ com ele. — digo, a voz estranhamente firme. — Ele precisava de alguĂ©m com ele. Do outro lado, Miguel solta o ar, como se eu tivesse lhe dado permissĂŁo para existir ali. — Ele me pediu para cuidar de vocĂȘ. Abro os olhos. A cozinha parece menor. Mais apertada. — E eu vou cumprir. NĂŁo sei por quĂȘ, mas acredito. Talvez seja a forma como ele diz. Talvez seja o jeito como, mesmo longe, essa voz consegue me alcançar em meio aos escombros. Seguro o telefone com mais força. — JĂĄ sou uma mulher adulta. Tudo bem, eu livro vocĂȘ dessa promessa. — declaro de coração, porque por mais que seja tentador ter alguĂ©m, agora que perdi Carlos, sei que tenho que seguir assim. Ele nĂŁo responde de imediato. — Eu cuidaria de vocĂȘ, mesmo que nĂŁo tivesse prometido. — diz, por fim. E, naquele instante, em meio ao luto, algo silencioso se acomoda no meu peito. NĂŁo Ă© conforto. NĂŁo ainda. É presença. E isso, naquele momento, Ă© tudo. 🍂🍂🍂 Os dias seguintes passam estranhos, como se eu estivesse vivendo dentro de uma casa que nĂŁo Ă© mais minha. Volto ao trabalho, sorrio para os alunos, explico conteĂșdos que sei de cor, mas tudo acontece no automĂĄtico. É Ă  noite que o peso chega. Quando o mundo silencia e a ausĂȘncia do meu irmĂŁo grita. É sempre nesse horĂĄrio que o telefone vibra. Às vezes Ă© uma mensagem curta. Estou em serviço. Pensei em vocĂȘ. Outras, uma ligação rĂĄpida, quase roubada do tempo dele. A voz de Miguel atravessa a linha com a mesma firmeza contida da primeira vez. Nunca fala demais. Nunca pergunta coisas vazias. Ele escuta. E, de algum jeito, isso me faz falar. Caminho pela sala enquanto conversamos, passando os dedos pelos mĂłveis, pelo porta-retratos do Carlos. Conto sobre meus alunos, sobre a saudade que aperta sem aviso, sobre como ainda espero ouvir a chave girando na porta. — Ele tinha orgulho de vocĂȘ. — Miguel diz certa vez. — Falava como se vocĂȘ fosse indestrutĂ­vel. Sorrio com tristeza. Me sento no sofĂĄ, abraçando as pernas. — Ele exagerava. Se ele me visse nesse momento, provavelmente me daria um banho a força e me faria rir, dizendo que sou linda demais para estar parecendo abandonada. — comento, conhecendo bem como meu irmĂŁo agia. — NĂŁo. Provavelmente ele iria paparicar vocĂȘ. — Miguel responde. — Ele conhecia vocĂȘ pela voz. Espero um dia chegar a esse nĂ­vel. Gosto disso. Do jeito como Miguel parece ver o mundo em silĂȘncio. Como se prestasse atenção em detalhes que ninguĂ©m mais nota. As cartas começam a chegar algumas semanas depois. A letra Ă© firme, econĂŽmica, mas cada palavra parece pensada. Leio sentada na cama, relendo trechos como quem guarda algo precioso. Às vezes respondo no mesmo dia. Outras, demoro, com medo de dizer demais. Nunca vi o rosto dele. NĂŁo sei como sorri, como se move, como olha. Ainda assim, quando o telefone toca, meu corpo reconhece antes da mente. E, sem perceber quando, começo a esperar por Miguel do mesmo jeito que esperava pelo meu irmĂŁo. Com cuidado. Com saudade. Com o coração aberto demais para voltar atrĂĄs. 🍂🍂🍂
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