🍂 CAPÍTULO 3 🍂

745 Palavras
🥀 CLARA 🥀 A primeira vez que Miguel passa uma quinzena sem dar notícias, eu tento não dar importância. Digo a mim mesma que ele está ocupado, que o trabalho dele exige silêncio, ausência, paciência. Repito isso como um mantra enquanto preparo o jantar para uma pessoa só e deixo a televisão ligada sem realmente assistir. Durante os dias começo a notar o relógio com mais atenção. O telefone parece pesado demais na minha mão. Não há mensagens. Nenhuma ligação. Apenas o vazio insistente de quem aprendeu a esperar. No trabalho, erro explicações simples. Meus alunos percebem. Perguntam se estou bem. Respondo que sim, sorrindo, como sempre faço quando não estou. No intervalo, vou ao banheiro e encosto a testa no espelho frio, respirando fundo. Odeio depender assim. Odeio sentir medo por alguém que nunca vi. Quando finalmente o telefone toca, estou sentada no sofá, abraçando uma almofada. Atendo rápido demais. — Clara. A voz de Miguel soa diferente. Mais contida. Como se estivesse segurando algo. — Eu vou demorar mais do que pensei — ele diz. — Algumas coisas mudaram. Me levanto, começo a andar pela sala sem rumo. Tenho medo de perder Miguel, como perdi Carlos. Sei que ele não me dirá de exato que está mudando na guerra, mas, algo mudou. — Quanto tempo? — pergunto, tentando manter a voz firme. Há um silêncio breve. — Seis meses. Talvez mais. Paro no meio do caminho. O ar parece escapar dos meus pulmões. — Eu entendo — respondo, mesmo que não entenda nada. — Você tem obrigações. Do outro lado, ele solta um suspiro baixo, pesado. Miguel já cumpriu seu tempo obrigatório. Duas vezes pra ser exata. Um como médico de base, e outro como soldado de campo. — Me desculpe por isso. — disse culpado, e isso me deixa pior. Depois que a ligação termina, me sento no chão da sala. Abraço os joelhos e deixo as lágrimas caírem sem resistência. Não é raiva. Não é decepção. É o medo simples e cru de perder alguém que ainda nem chegou. E, ainda assim, escolho esperar. Porque algumas ausências já aprenderam a morar em mim. 🍂🍂🍂 Os meses seguintes se arrastam como dias longos demais. Miguel continua presente, mas de um jeito diferente. As mensagens chegam mais espaçadas. As ligações, mais curtas. Não há frieza — há cuidado excessivo, como se ele escolhesse cada palavra para não tocar em algo sensível demais. Digo a mim mesma que é o serviço. Sempre é o serviço. Conto tudo à minha melhor amiga, sentadas no banco do pátio da escola, dividindo um café morno entre uma aula e outra. Ela me observa em silêncio, do jeito que fazia quando meu irmão ainda estava vivo. — Você está com medo — ela diz. — Estou cansada — respondo. — De esperar algo que não posso controlar. Erica me dá um sorriso calmo, e me abraça pelos ombros. Ela também sofreu o luto por Carlos, porque eram amigos desde sempre e acho que existia uma paixão entre os dois que não levaram em conta. Agora ela também sofre, e por isso não me apoiei nela, porque seria egoísmo com sua própria dor. À noite, arrumo a casa sem necessidade. Abro a gaveta do criado-mudo, releio cartas antigas, passo os dedos pela letra de Miguel como se pudesse encontrar respostas ali. Pergunto quando ele vem. Ele responde que em breve. Sempre em breve. Começo a ir à praça nos dias de chegada dos militares. Não anuncio a ninguém. É um ritual silencioso. Sento no banco de sempre, observo famílias se abraçando, crianças correndo, choros que misturam alívio e saudade. Meu coração aperta todas as vezes. Não espero só por Miguel. Espero por Carlos. Por algo que sei que não vai acontecer, mas que meu corpo insiste em desejar. Meu irmão era aquele tipo de pessoa que qualquer um gostaria de ter por perto. Leal e animado, sempre querendo ver as pessoas ao seu redor feliz. Carlos era mecânico, e quando foi chamado para servir, foi de bom grado, porque queria que eu fosse protegida. Em um desses dias, as lágrimas vêm sem aviso. Escorrem quentes, teimosas. Levo a mão ao rosto, respirando fundo, tentando me recompor. Sinto falta do sorriso do meu irmão. Sinto falta da voz de Miguel. Sinto falta de algo que ainda não vivi. E não percebo que, enquanto choro, alguém me observa do outro lado da praça. Alguém que sabe exatamente quem eu sou. 🍂🍂🍂
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