— O carregamento chegou em perfeito estado, Dom. — Estela parece não cansar de falar de trabalho.
— Estamos fora de horário de trabalho, Estela, pelo amor de Deus. — Ergo um braço, mostrando claramente que eu não quero mais falar sobre a Aeterna agora. É sexta a noite.
— O CEO entrou de férias e entrou o...
— Não terminei a frase. — Eu a impeço quando percebo o tom de voz provocativo e irônico nela. — Entrou o ser humano, apenas isso. Somos italianos, Estela, gostamos de aproveitar a vida e a companhia humana.
— Sabe como você me faria aproveitar a vida hoje? — Sua voz se torna suave, do jeito que eu sei que ela faz quando quer me pedir alguma coisa. Sorrio. Estela se aproxima, caminha até mim e senta na mesa em minha frente, com os olhos mais meigos que pode me oferecer. Cruzo os braços, esperando que ela continue, um sorriso nos lábios de quem já sabe que vem um pedido difícil de atender. — Experimentar aquela garrafa do Aeterna Vina.
— Boa tentativa. — Sorrio ainda mais.
Aquela garrafa está na minha família há um século. Foi a última garrafa de vinho que o meu bisavô produziu em nossa vinícola. Há apenas uma restante, e eu não pretendo abri-la. Essa garrafa é especial demais para ser aberta para sanar a curiosidade de alguém.
— Por favor, Dom, podemos morrer amanhã e nunca saberemos o gosto. — Sim, nem eu sei o gosto que ela tem. — Vamos beber e brindar a vida hoje.
— Eu tenho um compromisso importante, Estela. — Desconverso, levantando da mesa e trazendo minha taça de vinho comigo.
— Eu conheço todos seus compromissos, Dominic. — Estela cuida da minha agenda, cuida da minha imagem, dos meus problemas, e as vezes até da minha alimentação. É quase a minha mãe.
— Não é um compromisso dos que estão na minha agenda nem que você precise resolver por mim, pode ficar tranquila. — Aviso.
— Sim, eu sei exatamente de que tipo de compromisso está falando. Um compromisso que está entre as pernas de alguém. E tenho certeza que Henri está no meio disso.
Sorrio para ela e dou de ombros. Qual o problema nisso? Eu sou um homem adulto, solteiro, não há nada que me impeça de aproveitar os prazeres da vida, como um bom vinho e uma bela mulher.
•••
A boate está pegando fogo se posso dizer. As luzes led em um azul embutidas no teto preto coberto por camurça fazem o ambiente ser discreto e sen.sual, não é possível enxergar todos os rostos, em especial da área vip onde Henri e eu observamos as opções. O som é alto, é como se fosse não só ouvido com os ouvidos mas sentido no coração a cada batida.
O cheiro é específico de uma sexta a noite nesse lugar. Couro, álcool e uma mistura de perfumes caros.
As pessoas aqui são selecionadas, mesmo quem não tem acesso a área vip, apenas pessoas que querem se divertir com discrição e tem influência – e dinheiro, é claro. Não há ninguém se empurrando, bagunça ou brigas – normalmente. Os movimentos das mulheres com roupas cada vez menores parecem coreografados.
— Alguma carne nova no pedaço? — Henri parece pensar o mesmo que eu.
— Não. — Respiro fundo, soltando o ar com frustração. — Elas parecem todas iguais. Será que foram no mesmo cirurgião plástico?
— Idi.ota. — Henri gargalha.
Mas não é uma brincadeira, eu falo sério. Todas parecem ter o mesmo nariz, a mesma boca enorme, pei.tos siliconados, vestindo mini saias e top que a deixam exibir as barrigas também feitas em uma mesa de cirurgia. Claro que uma ou outra se salvam desse estereótipo, mas também não me chamam a atenção.
É frustrante.
Os garçons aqui são treinados para passarem despercebidos entre as mesas dos vip, como se fossem invisíveis, até que são procurados. Eu peço mais uma garrafa de whisky envelhecido e puro para nós continuarmos – eu evito vinhos que não sejam da Aeterna, quem está acostumado com o melhor não consegue colocar a boca em nada inferior. Apesar de eu já ter pensado em trazer o meu vinho para cá, não é o tipo de lugar que a maioria das pessoas vem para apreciar um vinho como os Aeterna.
É claro que eu tenho umas garrafas reservadas apenas para mim, e Henri, que gosta de ostentar para as mulheres.
— Ao menos vamos apreciar o show. — Uma das melhores ideias que eu tive para esse lugar foi usar o palco redondo no centro da boate para trazer apresentações.
Sim, a boate é minha. Na verdade eu sou um sócio fantasma, sou o dono no papel, mas só me envolvo de forma anônima e apenas os superiores que tem uma porcentagem menor e cuidam mais ativamente sabem disso. Eu dei a ideia de ao invés de música ao vivo todos os dias, ao menos as sextas termos shows para nos entreter.
A maioria chamaria de show de strip.per, mas eu não considero assim. Eu prefiro chamar de profissionais da dança na área de entretenimento adulto.
Participei na escolha das meninas. Todas que queriam o emprego vieram com comprovação de maior idade, trouxeram suas fotos e um vídeo apresentando sua dança. Eu vi o que elas enviaram e selecionei as melhores. Também fiz com que garantissem que não haveria nenhum tipo de prost.ituição na minha boate, elas iriam dançar e apenas isso, podiam receber gorjetas, mas nada além disso.
As quatro suítes, que são reservadas uma a mim, outra a Henri, e apenas duas ficam disponíveis, podem ser usadas normalmente por casais que estão aproveitando a boate. Porém, nenhuma das dançarinas podem ser levadas as suítes, pelas segurança delas.
— Elas são mesmo maravilhosas, olhe aquelas pernas... — Henri observa as meninas em suas posições em cima do palco, um refletor é ligado na direção delas. A área vip fica no andar do cima, e do balcão, conseguimos ver cada detalhe. — São as melhores que temos na casa hoje.
Dangerous woman começa a soar alto nos altofalantes. As meninas estão vestidas de preto, um terninho e um chapéu preto, meia calça preta por baixo, batom vermelho na boca.
É a primeira noite que eu as vejo em ação, e por.ra, elas são realmente boas. Foram treinadas, os movimentos parecem tão sincronizados que é como se elas fossem o reflexo uma da outra. Sorrio.
— Sim, elas são. Mas tire o olho, elas são intocáveis aqui dentro. — Aviso.
— E lá fora? — Henri sugere, eu o encaro de volta fazendo uma carranca. Mas se uma delas realmente quiser ir com ele, não vejo nenhum problema.
Volto minha atenção ao palco, apreciando mais uma dose do whisky que desce amadeirado e forte por minha garganta. Despejo mais um pouco no copo e brinco com as pedras de gelo dentro dele, balançando o copo em círculos e batendo a ponta do dedo no cristal ao ritmo da música. As meninas tiram os ternos, todas juntas, revelando o que tem por baixo.
Todas vestem preto, mas agora cada uma com um modelo diferente. Umas estão de corset e calc.inha, marcando bem as cinturas e levantando bem os p****s. Outras de cal.cinha e su.tiã, outras com uma lin.gerie transparente estilo maiô. É realmente um lindo show.
— Não há nada mais maravilhoso do que as mulheres, meu amigo. — Ergo meu copo para o alto, um sorriso largo no rosto. Henri me acompanha. — Um brinde a elas.
— A elas. — Bebemos juntos mais uma dose. É quando vejo a expressão no rosto dele mudar, se tornando confuso e só mesmo tempo hipnotizado. — Quem é aquela?
Viro em direção ao palco, me entalando com o pouco do whisky que ainda descia pela minha garganta. Uma outra mulher está no palco.
Ela não está vestida de preto, e sim, um vestido vermelho de cetim que desliza sob a pele branca dela. O tecido reflete na luz e junto com a cor viva faz ela ser o centro das atenções – mas não tenho certeza se é apenas o vestido.
Os cabelos soltos e volumosos parecem tão macios que meu corpo sente como se fosse flutuar até ela a qualquer momento, apenas para toca-los.
Os movimentos dela não são sincronizados com as outras, claro, ela não conhece a coreografia. Eu não a conheço, ela não é uma das contratadas e eu não faço a menor ideia de quem seja ou o que faz no meu palco.
Meu coração não bate mais no ritmo da música, ele se torna descompassado, eufórico. Fico de pé, caminhando até a beirada no balcão numa tentativa de chegar mais perto, de ver melhor. Quem dentre as pessoas que normalmente frequenta essa boate subiria no palco desse jeito?
Ela parece tão leve...
Tão viva e apaixonada...
Os movimentos são suaves, seu corpo tem as curvas mais perfeitas que eu já vi, sua boca é cheia e desenhada como um coração. Ela mexe os quadris enquanto passa as mãos do tornozelo até as ancas, subindo pela barriga, se.ios, e acariciando o próprio pescoço com os olhos fechados. Há tanta alma e sentimento ali que eu não consigo nem piscar, com medo de perder um movimento dela, uma expressão de seu rosto.
— Eu não sei, mas vou descobrir. — Respondo, achando a voz minutos depois.
— Você disse que as dançarinas estavam...
— Cale a boca, Henri. — Eu o interrompo.
Mas se eu achava que ela já tinha usado tudo que podia para prender a minha atenção, quando os últimos toques da música acabam, ela olha para cima, como se sentisse que está sendo assistida de uma forma diferenciada.
Como se me sentisse...
Os olhos grandes parecem duas lindas amêndoas, rodeadas por cílios longos e cheios. Ela parece uma escultura, como muitos definiriam como uma boneca, já eu... não sei defini-la.
E enquanto eu a encaro sério, quase imóvel, ela sorri docemente para mim e é nesse momento que eu percebo... Eu preciso tê-la nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida.