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1322 Palavras
A sexta-feira amanheceu diferente. Não porque o mundo tivesse mudado de forma visível, mas porque havia uma espécie de antecipação silenciosa no ar, como se tudo estivesse ligeiramente mais leve, mais solto, como se até mesmo o escritório da Castellari Global tivesse permitido a si mesmo respirar um pouco antes do fim de semana. Para Naila, no entanto, aquela leveza não chegava da mesma forma. O seu corpo estava presente, funcional, eficiente como sempre, mas havia uma energia interna diferente, uma mistura de expectativa e controlo, como se ela estivesse a preparar-se para algo que não queria admitir completamente. E, naquela manhã, ela decidiu. Não por impulso. Mas por escolha. Ela vestiu-se de forma diferente. Não exagerada. Não provocante no sentido vulgar que muitas pessoas poderiam interpretar. Mas… marcante. Um conjunto elegante, bem ajustado ao corpo, que valorizava as suas formas sem as expor de forma excessiva. A cor escolhida tinha um tom profundo, sofisticado, e os detalhes eram discretos, mas cuidadosamente pensados. O cabelo estava mais arrumado do que o habitual, caindo de forma natural, mas com uma leve intenção de presença. A maquilhagem era leve, mas realçava o olhar de forma quase imperceptível. Quando se olhou no espelho antes de sair, ficou alguns segundos em silêncio. Não era uma versão desconhecida de si mesma. Mas também não era a versão que vinha sendo sufocada nos últimos dias. Era algo entre as duas. — Está bem… — murmurou para si mesma, ajustando ligeiramente a postura. — Você está maravilhosa! E saiu. --- O trajeto até à empresa foi o mesmo de sempre, mas a forma como Naila caminhava parecia diferente. Não era pressa. Não era fuga. Era presença. E isso fazia com que as pessoas ao redor não percebessem exatamente o que tinha mudado, mas sentissem que havia algo ali, algo que chamava atenção sem precisar de esforço. Quando entrou no edifício da Castellari Global, os olhares começaram antes mesmo de ela atravessar completamente a receção. Não eram olhares invasivos. Eram olhares de reconhecimento. De surpresa contida. De observação. Ela manteve o foco. Passos firmes. Postura controlada. Sem hesitar. Foi então que ela viu. Adrian e Rafael. Os dois a saírem do elevador principal, conversando algo que ela não conseguiu ouvir de imediato. Adrian estava como sempre — impecável, postura controlada, expressão neutra. Rafael, por outro lado, tinha uma presença mais leve, mais aberta, quase descontraída, mas ainda assim marcante. E quando os olhos deles a encontraram… O tempo não parou. Mas desacelerou. Primeiro foi Rafael. O olhar dele percorreu Naila de cima a baixo num segundo, não de forma invasiva, mas de genuína surpresa. Ele ergueu ligeiramente as sobrancelhas, como se estivesse a tentar confirmar se era mesmo ela. Depois olhou para Adrian, como se quisesse partilhar aquela reação. — Ok… — murmurou ele baixo, com um sorriso leve. Adrian não disse nada de imediato. Mas os olhos dele permaneceram nela por mais tempo do que o necessário. Mais tempo do que o profissional. Mais tempo do que o seguro. E isso… Naila sentiu. Mas não reagiu. Apenas sustentou o olhar por um breve segundo. E depois passou. Como se aquilo não tivesse importância. Como se fosse apenas mais uma sexta-feira. E seguiu o seu caminho. --- Mais tarde, já dentro da sala de reuniões, Adrian e Rafael estavam sozinhos. O ambiente era mais descontraído do que o habitual, sem terceiros a interromper, permitindo um tipo de conversa mais leve, embora ainda carregada daquela natural seriedade entre ambos. Rafael encostou-se à cadeira, com um leve sorriso no rosto. — Não vou mentir… aquilo foi inesperado. Adrian não respondeu de imediato. Apenas folheava alguns documentos, mas o gesto era automático, sem verdadeira atenção. — O quê? — perguntou ele, finalmente. Rafael sorriu. — A Naila. Adrian parou. Quase imperceptível. Mas parou. Rafael continuou, sem perceber completamente o efeito das próprias palavras. — Hoje ela estava… diferente. Não é o estilo habitual dela aqui. Adrian fechou o documento lentamente. — E isso interessa-te porquê? Rafael soltou uma leve risada. — Não interessa. Só estou a observar. Talvez ela tenha alguma coisa entre os colegas… uma saída, sei lá. Mulheres às vezes mudam assim do nada quando têm planos fora do trabalho. Adrian olhou-o por um instante. Neutro. Mas o ambiente pareceu ficar ligeiramente mais pesado. Rafael percebeu. E levantou as mãos em rendição leve. — Estou a brincar, calma. O silêncio voltou por um segundo. Depois Rafael inclinou ligeiramente a cabeça, curioso. — E tu? O que achas dela? Adrian não respondeu de imediato. E isso já era uma resposta em si. Mas Rafael insistiu com um sorriso leve. — Vai, diz. Adrian finalmente soltou um suspiro curto. — Não acho nada. Rafael riu. — Mentira. Adrian não reagiu. E isso apenas incentivou mais. Rafael inclinou-se ligeiramente para a frente, agora com um tom mais brincalhão. — Eu acho que ela é inocente demais para um lobo como você. Adrian ergueu o olhar. Por um segundo. Mas não respondeu. Rafael riu mais uma vez, como se aquilo fosse apenas uma provocação leve. E então, com um tom mais sério, mas ainda assim casual, acrescentou: — Sério, Adrian… ela é doce demais para ti. Não te atrevas a meter-te com ela. Só vais acabar por partir o coração dela. Desta vez, Adrian desviou o olhar. Ligeiramente. Mas não respondeu. Não negou. Não confirmou. Só ficou em silêncio. E esse silêncio disse mais do que qualquer palavra. --- Rafael percebeu que tinha ido longe demais e rapidamente mudou de assunto, como se estivesse a fechar uma porta que nem deveria ter aberto. — Enfim… hoje à noite tenho a inauguração do restaurante da minha esposa. Ela vai ficar feliz se eu aparecer. E você também vai. Adrian franziu ligeiramente o sobrolho. — Eu não disse que ia. Rafael sorriu. — Não perguntou, na verdade. Adrian suspirou. — Não gosto desse tipo de eventos. — Eu sei. Mesmo assim, vais. Silêncio. Rafael levantou-se. — Já falei com ela. Está tudo organizado. É importante para ela… e para mim também. Adrian olhou-o por um momento. Longo. Depois, finalmente, cedeu com um leve gesto. — Certo. Rafael sorriu. — Sabia. --- Enquanto isso, Naila já estava completamente imersa no seu próprio dia. As horas passaram mais rápido do que o habitual, talvez pela energia diferente dentro dela, talvez pela decisão silenciosa de não se esconder naquele dia. Os colegas percebiam isso, mesmo que não conseguissem explicar. Ela falava mais. Respondia com mais leveza. Ria mais facilmente, sem forçar. E isso, de alguma forma, mudava a forma como o ambiente reagia a ela. No fim do expediente, Júlia aproximou-se com entusiasmo. — Então você vem, né? Naila hesitou apenas por um segundo. Mas depois assentiu. — Sim… vou. O sorriso de Júlia foi imediato. — Perfeito! --- O lugar escolhido para o encontro não era sofisticado, mas era acolhedor. Um espaço com luzes quentes, música leve ao fundo, mesas dispostas de forma casual, e um ambiente que incentivava conversa e descontração. Nada de formalidades. Nada de pressão. E, aos poucos, Naila começou a se soltar. No início, apenas observava. Depois participou. Depois riu. E então… simplesmente esteve ali. Sem peso. Sem expectativa. Sem o olhar constante de avaliação que parecia acompanhar os seus dias na empresa. Os colegas conversavam entre si, trocavam histórias, faziam piadas, falavam de trabalho e de vida pessoal de forma leve. Em determinado momento, alguém sugeriu uma visita ao hospital na próxima semana. — Vamos ver a mãe da Naila — disse um dos colegas com naturalidade. Ela piscou, surpresa. — Não precisam… Mas Júlia interrompeu. — Precisamos sim. Queremos. Naila ficou em silêncio por um instante. E depois… sorriu. Pequeno. Mas verdadeiro. — Obrigada. --- A noite continuou. Entre conversas. Entre risos. Entre pequenas histórias que não mudavam o mundo, mas mudavam algo dentro dela. E, pela primeira vez em muito tempo… Ela não estava apenas a sobreviver ao dia. Estava a vivê-lo.
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