19

1222 Palavras
A porta de madeira da casa fechou-se com um leve estalo atrás de Naila. Diferente do barulho distante da cidade, ali dentro tudo era mais contido, mais íntimo, mais real. A pequena sala estava como sempre — simples, organizada, com aquele toque de cuidado que não vinha de luxo, mas de necessidade. Um sofá gasto, uma mesa pequena, algumas fotografias discretas na parede. Era pouco, mas era o suficiente e sempre foi. Ela encostou-se à porta por alguns segundos. Sem se mexer. Sem falar. Apenas respirando. Como se estivesse a tentar alinhar tudo o que tinha vivido nas últimas horas dentro de si. A música ainda parecia ecoar na memória. As luzes. Os risos. A leveza. E depois… O momento com Tiago. Abriu os olhos lentamente. E afastou-se da porta. Caminhou até ao pequeno espelho que ficava próximo à sala, passando a mão pelos cabelos, agora ligeiramente desalinhados. A maquilhagem já não estava perfeita, mas ainda carregava traços da mulher que ela decidiu ser naquela noite. Parou. Olhou-se. De verdade. Por mais tempo do que o habitual. E dessa vez… não desviou. — Quem és tu agora…? — murmurou, quase num sussurro. Não era dúvida. Era reconhecimento em construção. Porque aquela mulher ali… não era a mesma de dias atrás. Não era a mesma que se via quebrada, vazia, apenas sobrevivendo ao peso das próprias escolhas. Havia algo diferente. Algo que ainda não tinha nome. Mas estava ali. E isso era suficiente por agora. Ela respirou fundo. E então o pensamento voltou. Tiago. A forma como ele segurou a mão dela quando caminharam. Simples. Natural. Mas ainda assim… diferente. E depois… A tentativa. A aproximação. O quase. Naila fechou os olhos por um segundo. Não houve medo. Não houve pânico. Mas houve um bloqueio imediato. Instintivo. Como se o corpo tivesse tomado a decisão antes da mente. — Não… — repetiu, agora em voz baixa. Não para ele. Mas para si mesma. Abriu os olhos. E encarou o próprio reflexo novamente. — Ainda não… Havia firmeza na voz. Mas também havia algo mais. Confusão. Não sobre Tiago. Mas sobre si. Porque antes… antes de tudo aquilo, talvez ela tivesse aceitado. Talvez tivesse deixado acontecer. Talvez tivesse respondido. Mas agora… Ainda preços entender muito coisa, e depois da experiência que teve seu foco não eram homens... Apesar de que Tiago foi completamente gentil e quando ela recusou o beijo, Tiago sequer pensou duas vezes antes de se desculpar, ele não a forçou, não a intimidou, não usou sua mãe doente como forma de conseguir alguma coisa dela. Mas mesmo assim, ainda era prematuro tentar olhar Tiago com outros olhos e como se não bastasse ainda eram colegas de trabalho. --- Ela caminhou lentamente até o quarto. A casa estava silenciosa. A mãe ainda está no hospital, ela esperava ansiosa pela alta dela. Naila parou à porta do quarto por um instante, olhando para dentro. Ai mãe, como essa casa se torna grande e vazia sem você _ pensou e sorriu ao lembrar da mãe, preparando café da manhã com uma alegria contagiante — Valeu a pena… — murmurou, quase inaudível. Mas dessa vez, a frase não veio acompanhada de dor. Veio com… aceitação. Imperfeita. Mas real. --- Mais tarde, já dentro do quarto , Naila trocou de roupa devagar, como se não tivesse pressa de terminar o dia. Sentou-se na cama, cruzando as pernas, o olhar perdido por alguns instantes. Pegou no telemóvel. Várias mensagens do grupo. Risos. Fotos. Vídeos da noite. Ela abriu um. Sara a puxá-la para dançar. Júlia a gritar qualquer coisa no fundo. Inês a rir sem parar. E… ela. Rindo. De verdade. Naila ficou a olhar para a tela por alguns segundos. E um sorriso pequeno, mas genuíno, surgiu. — Eu estava bem… — disse, quase surpresa. Como se fosse uma descoberta. Como se fosse algo raro. E talvez fosse. Deitou-se. Mas o sono não veio imediatamente. Porque, inevitavelmente… Ele apareceu. Adrian. A forma como ele a olhava. O silêncio. A tensão. Aquela conversa na sala. As palavras dele. E as dela. “Você já recebeu o que queria.” O peito apertou ligeiramente. Mas não da mesma forma. Antes… era culpa. Agora… Era outra coisa. Algo mais difícil de definir. Algo que ela não queria explorar. Virou-se na cama. Talvez fosse ódio, muito ódio . E fechou os olhos. Forçando o sono a vir. Porque pensar… não era uma opção naquela noite. --- O motor do carro dele ainda estava ligado. Mas Adrian não se movia. O olhar fixo à frente, mesmo depois de Naila ter desaparecido dentro da casa. Porque aquela imagem não encaixava com o resto. Não com o que ele sabia. Não com o que ele imaginava. Mas não foi isso que o prendeu ali. Foi outra coisa. Tiago. O nome veio com força. Como um incômodo que não pedia permissão para existir. A imagem repetia-se na mente dele. Os dois a caminharem juntos. A proximidade. A forma como ele falou com ela. Mas, acima de tudo… O momento em que Tiago segurou a mão dela. Adrian apertou o volante. Com força. Demasiada. O maxilar travou. Respiração pesada. Lenta. Controlada à força. — Quem ele pensa que é… — murmurou, baixo, carregado. Não era lógico. Não era justificável. Mas também não era controlável. E então veio o pior. O momento em que Tiago tentou beijá-la. Adrian fechou os olhos por um segundo. E viu tudo outra vez. Com mais intensidade. Mais próximo. Mais… pessoal. O corpo dele reagiu antes do pensamento. A mão moveu-se levemente em direção à porta. Quase saiu do carro. Quase. Mas parou. No último segundo. Porque sabia. Sabia exatamente o que isso significaria. Sabia que não podia cruzar aquela linha. Não ainda. Mas o impulso… O impulso de sair, agarrar Tiago, afastá-lo dela, impedir… Era real. Cru. Brutal. E assustador. Ele soltou o ar com força. Passando a mão pelo rosto. — Isto não faz sentido… — disse, mas sem convicção. Porque fazia. Fazia mais do que ele queria admitir. O que o irritava ainda mais. --- O telemóvel vibrou. Rafael. Adrian olhou para o ecrã por alguns segundos antes de atender. — Sim. — Você saiu mesmo — disse Rafael do outro lado, sem rodeios. — Saí. — Nem avisou direito. Silêncio. Rafael suspirou. — Está tudo bem? Adrian demorou um segundo. — Sim. — Não parece. Outro silêncio. Rafael continuou, agora mais direto. — Foi a dor de cabeça? Adrian apoiou a cabeça no banco. — Algo assim. Rafael não insistiu muito. Mas a preocupação estava lá. — Se precisar de alguma coisa, avisa. — Não preciso. — Certo… mas mesmo assim. Adrian não respondeu. E Rafael percebeu. — Descansa. Amanhã falamos. — Sim. A chamada terminou. --- O silêncio voltou. Mas agora parecia mais pesado. Mais cheio. Adrian voltou a olhar para a casa. E uma única coisa ficou clara dentro dele. Não era curiosidade. Não era interesse passageiro. Não era impulso momentâneo. Era algo mais profundo. Mais perigoso. Porque não estava sob controlo. E ele… Nunca lidou bem com coisas que não podia controlar. Especialmente… Quando envolviam outra pessoa. Especialmente… Quando envolviam ela. --- Ligou o carro. Desta vez sem hesitar. E foi embora. Mas a imagem… Aquela imagem… Ficou. Gravada. Como um aviso. Ou talvez… Como o início de algo que ele não conseguiria parar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR