5

1178 Palavras
Duas semanas podem parecer pouco tempo. Mas para Naila Andrade, aqueles quatorze dias dentro da Castellari Global tinham parecido uma eternidade. Todos os dias ela chegava antes da maioria das pessoas. O elevador ainda silencioso, os corredores ainda vazios, o cheiro do café recém-passado vindo da pequena copa do escritório. Ela gostava daquele momento. O momento em que o prédio ainda não estava cheio de vozes, passos e decisões importantes. Era o único instante em que o peso da responsabilidade parecia um pouco mais leve. Naila ligava o computador, organizava os relatórios do dia e respirava fundo antes de começar. Porque, desde o primeiro dia, ela sabia que estava sendo observada. Não de forma c***l. Mas com curiosidade. Alguns colegas cochichavam discretamente quando ela passava. Outros apenas a analisavam em silêncio. E havia também aqueles que simplesmente ignoravam sua presença. Mas havia uma pessoa cuja atenção parecia diferente. Adrian Castellari. Naila não sabia exatamente por quê. Talvez fosse apenas impressão. Talvez fosse apenas o fato de que ele era o diretor da empresa e naturalmente observava o trabalho de todos. Ainda assim, sempre que ele aparecia no andar, o ambiente mudava. E o olhar dele, por algum motivo, parecia sempre encontrá-la por um segundo a mais do que o necessário. Mesmo assim, Naila nunca deixou que isso a distraísse. Ela trabalhava. E trabalhava duro. Organizava relatórios. Corrigia dados. Revisava planilhas. Ajudava Clara com documentos administrativos. Em poucos dias, muitos funcionários começaram a perceber algo. Naila não apenas trabalhava rápido. Ela trabalhava bem. Era cuidadosa com detalhes, lógica ao organizar informações e tinha uma forma natural de resolver pequenos problemas antes mesmo que alguém pedisse. Júlia percebeu isso primeiro. Numa tarde de sexta-feira, ela girou a cadeira e olhou para Naila com um sorriso divertido. — Você sabe que está arruinando a reputação dos estagiários, não sabe? Naila levantou os olhos do computador. — O quê? — Estagiários deveriam demorar meses para aprender metade das coisas que você já faz. Naila riu suavemente. — Eu só estou tentando fazer bem o meu trabalho. — Está conseguindo. Júlia apoiou o queixo na mão. — Na verdade… acho que alguém lá em cima já percebeu isso. Naila franziu levemente a testa. — O que quer dizer? Mas antes que Júlia respondesse, Clara apareceu ao lado da mesa. — Naila. — Sim? — O senhor Castellari gostaria de vê-la no escritório dele. O coração de Naila deu um pequeno salto. Júlia ergueu lentamente as sobrancelhas. — Interessante — murmurou. Naila levantou-se da cadeira. — Agora? — Agora — respondeu Clara. Ela alisou discretamente a saia antes de caminhar pelo corredor. A porta do escritório de Adrian era grande, feita de vidro fosco que escondia parcialmente o interior da sala. Clara bateu duas vezes. — Entre. A voz grave veio de dentro. Naila entrou. O escritório era amplo, elegante e silencioso. Grandes janelas ocupavam toda a parede do fundo, revelando a vista impressionante da cidade. Adrian estava sentado atrás da mesa. Quando levantou os olhos, o olhar dele pousou diretamente nela. Calmo. Observador. — Senhor Castellari — disse Naila educadamente. — Naila. Ele fechou o documento que estava lendo. Por alguns segundos, apenas a observou. — Sente-se. Ela sentou-se na cadeira diante da mesa. O silêncio durou alguns instantes. Adrian cruzou as mãos sobre a mesa. — Eu revisei alguns relatórios das últimas semanas. Naila manteve a postura profissional. — Certo. — Muitos deles foram organizados por você. — Sim, senhor. Adrian inclinou levemente a cabeça. — Você aprende rápido. Naila não sabia exatamente como responder. — Eu tento prestar atenção. Ele observou o rosto dela por mais alguns segundos. Depois abriu uma pasta. — Seu estágio estava programado para durar três meses. Naila sentiu o estômago apertar. Será que havia feito algo errado? Adrian continuou: — No entanto… depois de analisar seu desempenho, decidimos encerrar o estágio antes do prazo. Por um segundo o coração de Naila parou. Encerrar? Mas antes que o pânico tomasse conta dela, Adrian continuou: — Porque você foi contratada. O silêncio dominou o escritório. Naila piscou. — Contratada? — Sim. Ele deslizou um documento pela mesa. — Funcionária efetiva da Castellari Global. Naila olhou para o papel. Depois voltou os olhos para ele. — Eu… não sei o que dizer. — Pode começar dizendo se aceita. Um sorriso tímido apareceu no rosto dela. — Eu aceito. Adrian assentiu. — Ótimo. Ele pegou uma caneta e indicou o local da assinatura. — Bem-vinda oficialmente à empresa. Naila assinou o documento com as mãos levemente trêmulas. Quando saiu do escritório alguns minutos depois, Júlia praticamente pulou da cadeira. — E então? Naila ainda parecia em choque. — Eu… fui contratada. — O quê?! Júlia levantou-se imediatamente e a abraçou. — Eu sabia! Algumas pessoas do escritório olharam curiosas. Mas naquele momento Naila não se importava. Pela primeira vez em semanas, sentiu uma onda real de felicidade. Ela tinha conseguido. Tinha um emprego. Um salário fixo. Uma oportunidade real. Naquela noite, quando chegou ao hospital, contou a notícia à mãe. Dona Rosa segurou suas mãos com emoção. — Eu sabia que você conseguiria, minha filha. Naila sorriu. — Agora tudo vai melhorar. Mas algumas horas depois, sentada sozinha no corredor do hospital, Naila abriu o aplicativo do banco no celular. Olhou para o valor do salário. Depois pensou no custo da cirurgia. 250 mil dólares. Mesmo trabalhando ali durante anos… ainda demoraria muito para juntar aquele valor. O sorriso desapareceu lentamente. Ela guardou o celular na bolsa. Porque naquele momento compreendeu algo importante. Aquele emprego era uma bênção. Mas não seria suficiente. E foi por isso que, algumas noites depois, Naila estava vestindo um uniforme completamente diferente. Uma camisa preta simples. Um avental. E uma bandeja nas mãos. O bar estava cheio. Luzes baixas. Música suave. Pessoas conversando e rindo em mesas espalhadas pelo salão. Naila caminhava entre elas anotando pedidos e servindo bebidas. Era cansativo. Muito cansativo. Trabalhar o dia inteiro na empresa e depois passar a noite ali. Mas cada gorjeta. Cada turno. Cada dólar. Era um pequeno passo em direção ao mesmo objetivo. Salvar a vida da sua mãe. Júlia foi a primeira pessoa do trabalho a descobrir. Uma noite, por acaso, entrou no bar com alguns amigos e quase deixou cair a bolsa ao ver Naila servindo mesas. — Naila?! Ela se aproximou rapidamente. — O que você está fazendo aqui? Naila sorriu sem graça. — Trabalhando. — Mas você já trabalha o dia inteiro! — Eu sei. Júlia olhou para ela com preocupação. — Isso é por causa da cirurgia, não é? Naila apenas assentiu. Júlia ficou em silêncio por um momento. Depois segurou a mão dela. — Você não precisa enfrentar isso sozinha. Naila sorriu com gratidão. — Eu sei. Mas, naquele momento, ela também sabia de outra coisa. Ela faria o que fosse necessário. Mesmo que significasse trabalhar até a exaustão. Mesmo que significasse viver duas vidas diferentes. Durante o dia… Funcionária dedicada da Castellari Global. Durante a noite… Garçonete em um bar movimentado da cidade. Tudo por uma única razão. Sua mãe.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR