A terça-feira começou estranhamente calma.
Depois da discussão dentro do carro na noite anterior, Naila esperava qualquer coisa — um olhar mais duro, uma chamada para a sala de Adrian, uma tensão ainda mais sufocante dentro da Castellari Global. Mas nada aconteceu.
E talvez fosse exatamente isso que a estava deixando inquieta.
O silêncio.
Porque Adrian Castellari não parecia o tipo de homem que simplesmente deixava algo passar.
Muito menos aquilo.
Ela ainda conseguia lembrar-se perfeitamente da expressão dele quando saiu do carro. O olhar pesado. A mandíbula travada. O silêncio quase agressivo que ficou preso dentro daquele Mercedes preto.
“Você não manda em mim.”
A frase ainda ecoava na mente dela.
E, apesar da raiva que sentiu naquele momento…
Uma pequena parte sua sabia que aquelas palavras também tinham sido para ela mesma.
Como um lembrete.
Como uma tentativa desesperada de recuperar o controlo da própria vida.
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A manhã passou devagar.
Naila mergulhou no trabalho mais do que o habitual, concentrando-se em relatórios, contratos e revisões com uma intensidade quase exagerada. Era a forma mais fácil de impedir a mente de vaguear para lugares inconvenientes.
Mesmo assim…
De vez em quando, os pensamentos escapavam.
Para Adrian.
Para a forma como ele apareceu no hospital sem aviso.
Para o modo como a mãe imediatamente gostou dele.
E, principalmente…
Para a forma como ele a olhou quando ela disse que nunca mais permitiria que ele a tocasse.
Ela apertou os dedos sobre o teclado.
Irritada consigo mesma.
Porque não queria pensar nele.
Muito menos daquela forma confusa.
— Naila?
A voz de Júlia interrompeu os pensamentos dela.
Naila levantou os olhos rapidamente.
— Hum?
— Você está olhando para a mesma planilha há cinco minutos.
Naila piscou, percebendo que realmente não tinha lido uma linha sequer.
— Estou com fome.
Júlia estreitou ligeiramente os olhos, claramente desconfiada, mas não insistiu.
— Então venha almoçar antes que desmaie em cima da mesa.
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A copa da empresa estava relativamente vazia naquele horário.
O espaço era simples, moderno, organizado demais — como tudo dentro da Castellari Global. Algumas mesas pequenas, armários impecavelmente alinhados, cafeteiras silenciosas e o cheiro leve de comida recém-aquecida misturado ao aroma constante de café.
Naila e Júlia sentaram-se lado a lado numa das mesas próximas da janela.
As duas tinham levado comida de casa.
Algo que acabava por aproximá-las ainda mais no meio daquela rotina corporativa cheia de formalidades.
Júlia abriu a própria tigela enquanto suspirava dramaticamente.
— Se eu tiver de comer comida de restaurante mais uma semana, acho que morro.
Naila riu baixo.
— Você fala isso todo dia.
— Porque é verdade todo dia.
As duas riram juntas.
E, por alguns segundos, tudo pareceu leve novamente.
Naila mexeu distraidamente na comida antes de falar:
— Minha mãe recebe alta nos próximos dias.
Júlia levantou imediatamente o olhar.
— Sério?
Havia felicidade genuína na voz dela.
Naila assentiu, e o sorriso que surgiu dessa vez não foi forçado.
Foi sincero.
Quase emocionado.
— O médico disse que a recuperação dela está indo muito bem.
— Isso é incrível, Naila.
Ela soltou um pequeno suspiro.
— Eu nem consigo explicar o quanto estou feliz.
Os olhos dela baixaram por um instante para a comida.
Depois voltou a falar, mais baixo:
— Eu já não aguentava voltar para casa sozinha todos os dias.
E aquela frase…
Saiu mais carregada do que ela pretendia.
Porque a solidão da casa nos últimos meses tinha sido brutal.
O silêncio.
A ausência da mãe.
Os quartos vazios.
A sensação constante de que algo faltava.
Júlia pareceu perceber imediatamente.
Porque o olhar dela suavizou.
— Eu acredito.
Naila respirou fundo.
— Parece que finalmente alguma coisa boa está acontecendo.
Júlia sorriu de leve.
— E está mesmo.
O silêncio entre elas não foi desconfortável.
Foi tranquilo.
Maduro.
Até que Júlia apoiou os cotovelos na mesa e soltou uma pequena risada.
— Mas falando em coisas inesperadas… ninguém supera o Adrian aparecendo no hospital ontem.
Naila levantou o olhar lentamente.
E, pela primeira vez…
Prestou verdadeira atenção naquele assunto.
— Vocês ficaram assustados.
Não foi pergunta.
Foi constatação.
Júlia soltou uma risada curta.
— Claro que ficamos.
Naila inclinou ligeiramente a cabeça.
— Por quê?
Júlia pareceu surpresa com o interesse dela.
— Você realmente não percebe?
Naila hesitou.
Porque, honestamente…
Não.
Ela não percebia completamente.
Sabia que Adrian intimidava as pessoas.
Sabia que era exigente.
Frio.
Controlador.
Mas o medo que os funcionários sentiam parecia ir além disso.
Júlia observou-a por alguns segundos antes de responder.
— Nem sempre ele foi assim.
A frase fez Naila franzir levemente o sobrolho.
— Assim como?
— Frio. Distante. Rígido desse jeito.
Naila permaneceu em silêncio.
E Júlia continuou.
A voz mais baixa agora.
Mais séria.
— Dizem que antes ele era completamente diferente.
Naila sentiu algo estranho apertar levemente dentro do peito.
— Diferente como?
Júlia mexeu distraidamente no garfo antes de responder.
— Mais leve. Mais sociável. Mais humano, talvez.
Aquela descrição parecia absurda.
Porque o Adrian que Naila conhecia parecia incapaz de ser qualquer uma dessas coisas.
Júlia apoiou-se melhor na cadeira.
— Isso foi antes do acidente.
O ambiente pareceu mudar ligeiramente.
Naila percebeu imediatamente.
— Acidente?
Júlia assentiu devagar.
— A noiva dele morreu num acidente de carro há alguns anos.
Naila ficou imóvel.
O garfo parou entre os dedos dela.
E Júlia continuou, sem perceber completamente o impacto daquilo.
— Ela estava grávida.
Silêncio.
Completo.
O barulho distante da copa pareceu desaparecer por alguns segundos.
Porque aquela informação atingiu Naila de forma inesperada.
Forte demais.
Ela não sabia exatamente o que esperava ouvir sobre Adrian Castellari.
Mas não aquilo.
Nunca aquilo.
— Meu Deus… — murmurou baixo.
Júlia suspirou.
— Pois é.
Naila desviou lentamente o olhar para a janela.
E, sem querer…
Imaginou.
Adrian recebendo aquela notícia.
Adrian perdendo alguém que amava.
Adrian perdendo uma família inteira num único instante.
E algo dentro dela…
Mudou ligeiramente.
Não apagou nada.
Não justificou nada.
Mas pela primeira vez…
Ela sentiu pena dele.
Pena verdadeira.
Júlia continuou falando enquanto comia.
— Depois disso ele mudou completamente.
Naila voltou a olhar para ela em silêncio.
— Dizem que ele praticamente se enterrou no trabalho.
— Ninguém consegue se aproximar dele direito. Nem conversar normalmente.
Ela soltou uma pequena risada.
— A única pessoa que o suporta há anos é o senhor Rafael.
Naila sorriu de leve sem perceber.
— Eles parecem próximos.
— Muito. Rafael praticamente nasceu com paciência infinita.
As duas riram baixinho.
Mas a mente de Naila continuava presa em outro lugar.
Naquela imagem impossível de ignorar agora.
Adrian… sorrindo.
Amando alguém.
Sendo amado.
Parecia estranho.
Quase irreal.
— E a família dele? — perguntou ela antes mesmo de pensar.
Júlia piscou surpresa.
Claramente não esperava aquele interesse.
— Família?
Naila percebeu tarde demais que talvez tivesse perguntado demais.
Mas Júlia já ia responder quando olhou rapidamente para o relógio.
Os olhos arregalaram-se imediatamente.
— Meu Deus.
Naila assustou-se.
— O quê?
— Estamos atrasadas.
As duas olharam para o horário ao mesmo tempo.
E realmente estavam.
— Droga — murmurou Júlia levantando-se rapidamente.
Naila riu baixo.
— Certo, você tem razão.
As duas começaram imediatamente a arrumar as tigelas, lavar os recipientes e organizar tudo às pressas.
Mas, enquanto fazia aquilo…
A mente de Naila continuava distante.
Presa naquela conversa.
Presa nele.
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O resto do dia passou sem que ela visse Adrian sequer uma vez.
E isso…
Foi estranho.
Estranhamente decepcionante.
Ela percebeu isso no instante em que o pensamento surgiu.
E imediatamente irritou-se consigo mesma.
Porque aquilo era absurdo.
Mas ainda assim…
De vez em quando os olhos dela procuravam involuntariamente pela presença dele nos corredores.
Na sala de reuniões.
No escritório.
E ele simplesmente… não aparecia.
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Quando chegou em casa naquela noite, o céu já estava escuro.
A casa permanecia silenciosa sem a mãe ali, mas dessa vez o silêncio parecia menos pesado.
Talvez porque agora existisse uma data para o fim daquela solidão.
Depois de um banho demorado, Naila vestiu roupas confortáveis e preparou algo simples para jantar.
Sentou-se à mesa pequena da cozinha.
Mas não conseguiu desligar a mente.
Porque a conversa com Júlia continuava voltando.
A noiva.
O acidente.
O bebê.
E aquela frase:
“Nem sempre ele foi assim.”
Ela ficou olhando para o prato por alguns segundos antes de pegar no telemóvel.
E, quase sem pensar…
Abriu o navegador.
Os dedos hesitaram ligeiramente sobre o teclado.
Mas acabaram digitando:
Adrian Castellari.
Várias notícias apareceram imediatamente.
Empresário.
Herdeiro.
CEO.
Eventos.
Entrevistas.
Fotos.
Ela abriu uma das primeiras imagens.
E ficou imóvel.
Porque aquele homem da fotografia…
Parecia outra pessoa.
Adrian estava sorrindo.
De verdade.
Não aquele sorriso discreto e controlado que às vezes surgia rapidamente no trabalho.
Não.
Era um sorriso aberto.
Leve.
Humano.
Ao lado dele estava uma mulher incrivelmente bonita.
Cabelos escuros.
Olhar delicado.
Mão apoiada no peito dele.
Feliz.
Naila aproximou ligeiramente o telemóvel.
Lendo o nome abaixo da foto.
Gizele Cooper.
As próximas imagens mostravam os dois em eventos, viagens, jantares.
E em todas elas…
Ele parecia vivo.
Completamente diferente do homem frio que ela conhecia.
O peito dela apertou sem aviso.
Porque agora conseguia ver.
A mudança.
A dor.
A perda.
Continuou descendo.
E encontrou fotos da família.
Uma mulher elegante de postura impecável — provavelmente a mãe dele.
O pai, sério mas sofisticado.
E duas irmãs muito bonitas, sorrindo em fotos formais.
Uma família perfeita.
Quase inalcançável.
Naila ficou olhando por alguns segundos.
— Será que eles vivem aqui na cidade…? — murmurou.
Mas logo percebeu o absurdo daquilo.
Por que queria saber?
Por que estava interessada nisso?
Ela bloqueou o telemóvel imediatamente.
Irritada consigo mesma.
— Isso é ridículo.
Levantou-se.
Lavou o prato.
E tentou ignorar a sensação estranha que permanecia dentro dela.
Porque quanto mais descobria sobre Adrian Castellari…
Mais difícil ele se tornava de entender.
E talvez…
Esse fosse exatamente o problema.