Dois

1046 Palavras
No entanto, a vida — ou melhor, a minha vida — era mesmo uma merda e por causa disso, meu lindo vizinho teve que cobrir a sua nudez perfeita e sumir atrás da sua janela. E eu, a contragosto, tive que fazer o mesmo. Fui atender o chamado em minha porta. Provavelmente, era apenas o meu pai que queria falar alguma besteira qualquer, mas se ele visse o que estava acontecendo ali dentro, eu era um cara morto. Aquele era o meu maior segredo por um motivo bem clichê. Meus pais ou amigos, nenhum deles sabiam que eu era gay. Jungkook era o único e, sinceramente, ele também era o único que precisava saber, já que era a pessoa que eu estava interessado, no momento. Respirei fundo, tentando pensar em qualquer coisa que não fosse Jungkook e o seu belo físico que ainda estava me aquecendo inteiro por dentro. Eu precisava acalmar o meu corpo antes de abrir a porta. — Yoongi, você está dormindo ainda? — insistiu. — Eu já estou indo, pai. Só espera eu terminar de me vestir. — usei a melhor desculpa que eu conhecia para manter os pais longe do quarto de um filho. — Não é nada demais. — sabia. Era como se ele tivesse um radar para estragar meus bons momentos, apenas. — Aquele seu amigo, o Jung — falou com desprezo. — está te esperando lá embaixo. — Tudo bem, obrigado. Que droga, no fim das contas, o velho só queria avisar que tinha alguém querendo falar comigo. Porque infernos o Hoseok tinha que ter vindo tão cedo? Por sua causa eu tive que encerrar o meu primeiro contato com o Jungkook mais cedo do que eu queria. Ao menos isso tinha servido como chateação o suficiente para acabar com toda a minha excitação lá embaixo. Desci e quando cheguei na sala, vi o meu amigo sentado no sofá. Ele sempre tinha uma cara engraçada quando estava perto dos meus pais, mas o mais engraçado era como o clima naquela casa se transformava na presença de alguém. Quem visse de fora, acreditaria fácil, fácil, que não havia um lar mais perfeito do que aquele. O que os meus pais não sabiam é que toda aquela encenação era inútil, já que esse tipo de coisa não era um segredo para aquele amigo. — Vem aqui. — o chamei, ainda das escadas, apreciando o belo silêncio que dominou a casa de repente. Ele levantou-se um pouco travado e, com um sorriso nervoso, pediu licença aos meus pais. Eu não pude evitar de querer rir da cara do meu amigo, mas eu me controlei para não fazê-lo agora. — Não faz essa cara, seus pais ainda me assustam. — cochichou assim que chegou perto de mim e já estava longe o suficiente deles. — E você vem dizer isso logo a mim que tenho que conviver com eles? — revidei, o levando de vez para o meu quarto. Ao entrarmos, o meu amigo foi direto para junto da minha janela, reclamando do lugar estar abafado e aquilo lhe incomodar. Meus olhos vacilaram para além dela, pensando se Jungkook estaria por ali ainda, mas a sua vizinha estava trancada. — E então... — o incentivei a falar o motivo da sua visita, já que era um dia de folga. Ele se encostou na varanda e olhou na minha direção com um sorriso traquina. — Os pais do Jin hyung vão viajar hoje e ele pediu pra eu te levar para lá. Levar ou arrastar, uma dessas coisas… — se dispersou, dando de ombros. — O que importa é que ele me fez garantir que você iria. Acho que vai rolar alguma festa. Ta a fim? — perguntou, como se tivesse realmente me dado alguma opção. — Não sei. Os meus pais sempre pegam no meu pé quando vocês resolvem aprontar alguma coisa. — Qual é, Yoongi, vai perder a diversão da sua juventude por causa deles? — fez uma careta. — Hm… — mordi o meu lábio pensativo e em segundos a resposta pareceu óbvia demais. — Okay, eu vou. Afinal de contas, a quem eu queria enganar? Eu odiava ficar preso naquela casa com os dois, assim como adorava testar a paciência de ambos. Com todo o inferno particular ao qual eles me lançavam todos os dias, não era justo que eu retribuísse de vez em quando? Nem que fosse apenas tendo um comportamento corriqueiro de qualquer adolescente um pouco rebelde. Sem contar que ir à festas, sempre fazia os meus pais pensarem que eu havia passado a noite com alguma garota e se não fosse isso, meus castigos por estar vagabundeando por aí não seriam tão leves quanto os que eu acabava recebendo por ter consumido bebida alcoólica. Se eles soubessem o quão impossível isso era... Bem, eu estaria fodido. Talvez eu até fosse trancado dentro de casa e impedido de ver a luz do dia. m*l sabiam eles que o meu suposto príncipe estava na janela de frente a minha, pronto para acalentar meus desejos mais vis. Porém, a questão agora não era Jungkook e nem os meus pais homofóbicos. Eu ainda não estava pronto para lidar com esse tipo de problema e a cada ano que se passava eu me questionava quando estaria. Afinal de contas, eu não ia poder viver o resto da minha vida mentindo para mim e para as pessoas próximas a mim. Suspirei profundamente e Hoseok me encarou, me m*l interpretando. — Não faz essa cara, Yoongi, vai ser divertido. Eu juro. Encarei o meu amigo, pensando que ele era o mais próximo que eu tinha. Mais próximo até que Namjoon e Seokjin hyung. Ainda assim eu estava constantemente mentindo para ele — ou melhor, omitindo — sobre quem eu realmente era. Seria bom se eu pudesse desabafar ao menos com uma pessoa, mas a minha vida era tão fodida que eu temia que nem mesmo os meus amigos me compreendessem. Isso era tão estranho, que a única pessoa que sabia sobre a minha sexualidade era alguém de quem eu havia acabado de descobrir o primeiro nome. — É, eu sei. — forcei um sorriso, porque na realidade eu nunca me animava muito com festas e o motivo disso ficaria claro muito em breve.
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