Capitulo 02

1056 Palavras
Metralha narrando — Que p***a tá acontecendo aí, Borges? Minha voz saiu dura no rádio, já sentindo que a resposta não vinha boa. O chiado cortou o silêncio por um segundo… e quando ele falou, confirmou tudo que eu já tava prevendo. — A polícia tá na cola, Metralha… os caras fizeram merda, esses filhos da p**a. Meu maxilar travou. — Que merda, p***a? O plano não tinha erro, c*****o? — Pegaram uma refém. Os caras cercaram eles… e eles pegaram a p***a de uma refém. Silêncio. Mas não aquele silêncio calmo… era o tipo que vem antes da explosão. — CÊS TÃO MALUCO, c*****o?! ESSA p***a NÃO FAZIA PARTE DO PLANO, BORGES! Bati a mão no volante com força, sentindo o sangue ferver nas veias. Aquilo não tava no plano. Em momento nenhum foi cogitado refém. Assalto era pra ser rápido, limpo, sem chamar atenção. Agora esses arrombados me vêm com uma refém no meio da missão. — Esses filhos da p**a querem levar a polícia pro morro?! — rosnei, passando a mão no rosto, tentando controlar o ódio. Mas já era tarde. As sirenes começaram a ecoar atrás de mim, cortando a noite como um aviso de que a merda já tava feita. Respirei fundo, firmei as mãos no volante… e pisei. O carro respondeu na hora, arrancando com força enquanto eu tentava abrir caminho. O motor gritou alto, acompanhando o ritmo acelerado do meu coração. Cada segundo ali era uma decisão… e qualquer erro custava caro. — Escuta aqui — falei no rádio, a voz firme. — Manda todo mundo subir pro morro. Agora. Se ficar aí, vão rodar. — Pode pá… tamo voltando — ele respondeu, e eu senti na voz dele que o clima também tava pesado do outro lado. Não tinha mais opção. Ou a gente recuava e segurava dentro do nosso território… ou ia todo mundo parar na mão da polícia. E eu não ia deixar isso acontecer. Olhei pelo retrovisor. Viatura colada. Outra vindo mais atrás. E como se não bastasse… o barulho pesado começou a cortar o céu. Helicóptero. Soltei um riso sem humor. — Ah, que maravilha… A luz forte começou a varrer a rua, focando direto em mim, como se eu fosse o único alvo no mundo. O som das hélices batendo no ar só deixava tudo mais caótico, mais tenso. — Atenção! Encoste o veículo! Mãos à vista! A voz do policial ecoava lá de cima, firme, autoritária… como se eu fosse obedecer. Dei um sorriso torto. — Vai sonhando. Tu só me pega morto, arrombado. Apertei mais o pé no acelerador, desviando por entre os carros, subindo calçada, cortando esquina fechada sem nem pensar duas vezes. Gente gritando, buzina estourando… mas pra mim era tudo ruído. Meu foco era um só: chegar. Cada curva era no limite. Cada freada, calculada no instinto. Eu já tava perto. Já conseguia ver a entrada do morro lá na frente. Só precisava chegar. Só mais um pouco. Mas a polícia não tava pra brincadeira. O primeiro disparo veio seco, estourando o ar ao meu lado. Depois outro. E mais um. — Filho da p**a… Me abaixei no volante, tentando diminuir o alvo, enquanto o vidro vibrava com o impacto. O som dos tiros misturado com o helicóptero deixava tudo ainda mais confuso, mais sufocante. Peguei o rádio de novo, com uma mão só, mantendo o carro firme com a outra. — Atenção geral — falei rápido. — Deu merda grande. Quero todo mundo em alerta. Tão vindo pesado atrás de mim. Prepara a contenção porque nós tá subindo daquele jeito. Do outro lado, movimentação. Gente falando, arma sendo engatilhada, passos apressados. E então a voz do Borges veio, firme como sempre. — Já tô no morro. Tô com os moleque aqui na contenção. Assenti, mesmo sabendo que ele não podia ver. Se tinha alguém que eu confiava pra segurar a linha… era ele. — E o refém? Teve um segundo de silêncio antes da resposta. — Levaram pra salinha. Fechei os olhos por um instante, sentindo a pressão aumentar dentro do peito. Mais um problema. Como se já não tivesse o suficiente. Refém era risco. Refém era problema. Refém era coisa que chamava atenção… e atenção era tudo que a gente não precisava agora. Passei a língua pelos lábios, sentindo o gosto amargo da tensão. — Tô chegando — falei, firme. — Segura essa p***a aí que os botas tão na minha cola. Outro disparo. Dessa vez mais perto. E aí eu senti. A queimação rasgando meu braço como fogo vivo. — Ahh, c*****o! O impacto veio forte, fazendo o volante quase escapar da minha mão. O carro deu uma leve desviada, e por um segundo eu achei que ia perder o controle. Mas não. Não ali. Não daquele jeito. Apertei o volante com força, ignorando a dor que pulsava no braço. O sangue começou a escorrer quente, descendo até o cotovelo, molhando minha mão. Respirei fundo, travando os dentes. A dor tava ali… mas eu já senti coisa pior. Muito pior. Minha mente puxou lembranças que eu preferia esquecer. O enterro dos meus pais. O olhar da minha irmã, perdida, sem entender nada. O peso que caiu nas minhas costas naquele dia. Aquilo sim doeu. Aquilo sim quase me derrubou. Um tiro? Isso aqui não era nada. — Não é hoje… — murmurei pra mim mesmo, acelerando mais. A entrada do morro tava logo ali. Mais alguns metros. Só mais um pouco. O rádio chiou de novo. — Tá quase, menor. Tamo pronto aqui. A voz do Borges veio firme, me dando ainda mais certeza de que eu ia conseguir. E eu sabia. Sabia que, assim que eu cruzasse aquela entrada… o jogo virava. Porque lá dentro… quem mandava era eu. Mais um disparo passou raspando. O helicóptero ainda em cima. As viaturas coladas. Mas eu não tirei o pé. Não pensei em parar. Não pensei em desistir. Porque cair ali fora… era morrer. E eu ainda tinha contas pra acertar. Tinha um tenente pra derrubar. Tinha uma irmã pra proteger. Tinha um morro inteiro que dependia de mim. E agora… tinha uma refém que eu nem conhecia… mas que já tava prestes a virar problema na minha vida. Cruzei a entrada do morro com o carro cantando pneu. E ali… a guerra tava só começando.
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