Narrado por Hellen**
"Eu só posso estar ficando louca. Onde já se viu uma secretária falar daquele jeito com seu chefe?"
Pensei enquanto caminhava de volta para minha sala, depois de deixar o café para ele. Ainda nervosa pela interação, sentia que mesmo na sua presença muitas vezes me atrapalhava. A verdade era que eu nunca consegui controlar meu jeito de ser. Sempre fui assim, e, apesar das tentativas de melhorar, essa parte de mim não mudará tão facilmente. Minha mãe sempre dizia que eu deveria ser mais discreta, mas sinceramente, eu simplesmente não consigo.
"Vou parar de pensar besteiras, ou melhor dizendo, de falar, e me concentrar no meu trabalho".
murmurei para mim mesma enquanto entrava na sala. Sentei-me na cadeira da minha mesa e mergulhei nas minhas tarefas novamente. O dia a dia era uma correria, entre atender telefonemas de clientes, organizar documentos, preparar planilhas e agendar compromissos.
Quando finalmente o relógio marcou 18h30, organizei todas as minhas coisas para o dia seguinte. Uma vez tudo pronto, levantei-me da mesa e fui em direção ao escritório do meu chefe. Bati na porta e ouvi um "entre!" ecoar.
"Estou passando para avisar que já estou indo embora," disse, assim que entrei.
"Tudo bem, pode ir," ele respondeu rapidamente, parecendo alheio ao barulho do trabalho que ainda o cercava.
"Certo," falei, me virando para sair da sala.
"Espere, senhorita Martinez."
"Pois não?" perguntei, tentando ocultar a surpresa na minha voz.
"Procure aproveitar o fim de semana e compre algumas roupas adequadas, já que a partir de agora você vai estar em reuniões e eventos comigo. Não quero andar com alguém m*l vestida."
Fiquei em silêncio, apenas sorri forçadamente enquanto saía da sala. "Esse i****a acabou de me chamar de m*l vestida!" pensei, indignada.
Passei pela minha mesa, peguei as coisas que já havia organizado e fui em direção ao elevador. Assim que as portas se abriram, entrei, e, poucos minutos depois, já estava na recepção, despedi-me da recepcionista e segui em direção à saída da empresa.
"Finalmente livre," murmurei ao caminhar pelas ruas da cidade em direção ao ponto de ônibus. "Hora de ir para casa."
Na manhã seguinte, acordei com alguém me sacudindo.
"Para de me deixar dormir!" eu resmunguei.
"Para nada, filha! Levanta, que já é hora!"
Assim que ouvi essa voz, soube exatamente de quem se tratava. Abri os olhos e constatei que a pessoa à minha frente era minha mãe.
"Mãe, o que a senhora está fazendo aqui?" perguntas se misturando à confusão.
Levantei-me e a abracei.
"Como assim, o que estou fazendo aqui? Vim te ajudar."
"Me ajudar com quê exatamente?"
"Ora, a se vestir! Você não reclamou ontem que o seu chefe disse que você está m*l vestida?"
"Mas mãe, também não é para tanto. Eu ia fazer compras, mas não hoje, só no final do mês."
"Oxi, nada disso! Vamos fazer isso hoje e agora. É melhor você começar a se arrumar para a gente sair daqui a pouco. Vamos provar ao seu chefe que você não é m*l vestida."
"Está bem, já sei que a senhora não vai desistir tão fácil," respondi, resignada.
Poucos minutos depois, estávamos paradas em frente ao shopping.
"Mãe, a senhora sabe que não precisa fazer isso," eu disse, mas ela parecia decidida.
"Mas é claro que preciso! Você é minha única filha. Agora larga de falar e vamos às compras!"
Com certeza, ninguém ia mudar a ideia dela.
"E aí, filha, como está sendo trabalhar na empresa Montenegro?" ela perguntou enquanto subíamos a escada rolante.
"Ah, apenas um chefe autoritário, chato e mandão. Fora isso, tá tudo bem," eu respondi, observando seu sorriso.
"E a sua boca, aprendeu a controlar ela?"
"Isso é um caso à parte," eu disse, rindo.
"Significa que você ainda não controla!"
"Exato!"
"Você é uma boa filha, mas eu queria ser uma mosquinha para ver toda vez que você o responde."
"Eu não sou sempre assim. Ontem ele me chamou de m*l vestida e eu não falei nada, apenas sorri e saí da sala."
"Às vezes acontece. Medo de perder o emprego falou mais alto?"
"Pode ser."
"Vamos primeiro naquela loja."
"Uau, essa loja tem cara de chique, luxo estampado até na porta," eu comentei, admirando o exterior.
"O que você disse?"
"Eu disse que não temos dinheiro para comprar nada aqui," mencionei, meio hesitante.
"Isso pode até ser verdade, mas olhar não custa nada."
"Então qual a necessidade de estarmos aqui, olhando algo que não vamos comprar?"
"Oxe, não vamos comprar, mas vamos admirar o que é bonito e ver se vale a pena comprar."
"Desnecessário isso."
"Para de reclamar e vamos logo, antes que a vendedora perceba que não tenho dinheiro para comprar nada aqui!" Ela saiu me puxando em direção à sessão de vestidos formais.
Enquanto olhava alguns vestidos que custavam mais do que o meu salário, percebi que meu chefe estava parado na entrada, conversando com a vendedora. Num impulso, peguei a mão da minha mãe e a puxei para trás de algumas roupas.
"Qual foi? Por que estamos escondidas aqui?" ela perguntou, confusa.
"Olha ali! Aquele é o meu chefe!" apontei, e ela seguiu o gesto, seu olhar rapidamente se iluminou.
"Uau, filha. Aquele ali é o seu chefe!"
"Sim! E agora fala baixo, daqui a pouco a loja toda vai escutar você!"
"O quê? Eu só ia dizer que seu chefe é muito bonito! Assim de longe, ele parece o seu tipo!”
"Para de falar besteira, ele não é tipo de ninguém," eu retruquei, sem jeito.
"Você é quem pensa. Mas eu queria olhar ele de mais perto, só para confirmar se ele não é tipo de ninguém mesmo."
"Vamos, mãe, vamos esperar ele se distanciar da porta e a gente sai daqui."
"Aliás, por que a gente tá se escondendo aqui? E por que temos que esperar seu chefe se distanciar da porta para a gente poder ir embora?"
Olhei para ela, perplexa.
"Mãe, você não sabe quem ele é. O Yan Montenegro é um milionário, sei lá o quê! O que ele vai pensar de mim saindo de uma loja assim sem comprar nada?”
"Oxe, você pode simplesmente dizer que estava dando uma olhadinha!”
"Claro que não! Não vou passar por essa vergonha. Você me trouxe aqui, então agora você tem que me ajudar a sair."
"Você e seu drama! Não precisa ter vergonha disso, mas já que você está pedindo, vou te ajudar."
Enquanto esperava meu chefe sair, não percebi a atendente se aproximando.
"Oi! Posso ajudar vocês em alguma coisa?"
"Claro, apenas estávamos olhando os preços aqui. Baratinhos, né?" eu disse de maneira descontraída, pegando qualquer vestido da sessão e olhando o preço.
"Caramba, filha, se 30 mil é baratinho, então seu salário tá abaixo disso!"
"O quê? Claro que não! Meu celular não chega nem a 30 mil, mesmo que chegasse, eu não pagaria isso num vestido!" Falei, esquecendo completamente da presença da atendente.
"Acho que a minha filha está olhando demais. Vamos indo!" minha mãe disse, puxando minha mão.
"Mãe, espera."
"Esperar o quê, filha?"
" Estamos nos escondendo do meu chefe!"
"Ah, é mesmo, tinha esquecido!"
Olhei para minha mãe e percebi que parecia preocupada, então ela olhou para mim.
"Filha, acho que não tem mais necessidade."
"Por quê não?"
"É só você olhar para o chão," ela mandou.
Fiz o que ela disse, abaixei o olhar e vi que além dos nossos pés havia um terceiro... um sapato social. Olhei para cima e vi que a bota pertencia ao meu chefe, que estava me olhando com uma expressão que eu não conseguia decifrar, mas parecia que ele queria sorrir.
"Oi, chefe," eu disse, tentando disfarçar o nervosismo.
"Dando um passeio no shopping?" ele perguntou, com um sorriso de canto.
"É o que parece, não é mesmo?"
Respondi, tentando manter a calma.
"E essa aqui é a minha mãe," acrescentei, puxando-a para o meu lado.
"Oi, chefe da Alana. Eu sou Jéssica, a mãe dela," minha mãe se apresentou, estendendo a mão.
"Prazer, sou Yan Montenegro."
"O prazer é todo meu! Agora, me diga: qual academia você está fazendo? Porque você está em forma!" ela disse, passando o braço em volta do dele. Eu não conseguia acreditar que ela tinha acabado de dizer isso!
"Adorei sua mãe, Alana!" ele disse, rindo.
"Obrigada, eu acho," respondi, um tanto envergonhada.
"Mas me diz o endereço dessa academia, quero mandar meu marido ir lá pra ver se fica em forma também," ela disse, andando com ele em direção a entrada da loja.
"Não, mãe! Espera!" disse, puxando-a para longe dele.
"Ela estava só brincando," eu murmurei, tentando afastá-la ainda mais longe dele.
"Nada disso! Deixa eu pegar logo o endereço da academia," minha mãe insistiu.
"Mãe, você não precisa dessas coisas! Seu marido não tá em forma!"
"Tá, mas melhorar ajudava mais," ela completou.
"Chega de conversa e vamos embora!" disse, puxando-a em direção à saída da loja.
"Tchau, chefe da Alana," minha mãe se despediu, acenando.
"Espere aí, senhorita Martinez!"
Parecendo um vento gelado, eu me virei, nervosa.
"O que foi? Não está vendo que já estamos indo embora?"
"Você não deveria falar assim com seu chefe. Não foi essa educação que eu te dei," ele disse, com um olhar sério.
"Desculpa, chefinho, deseja alguma coisa," falei, tentando manter a leveza.
"Claro que preciso não, mas você precisa."
"Preciso de quê?"
"Você não pode sair da loja sem comprar nada!"
Disse.
" Nada aqui me agradou," rebati.
"Não se agradou de nada? Tem certeza?"
"Claro que sim! Onde já se viu dar 30 mil num vestido só para trabalhar na sua empresa?"
"Filha..."
"O que?"
"Eu desisto de você."
"Você não viu o que eu te disse sexta-feira?"
"Sim, eu vi, e vou fazer isso, mas não aqui. Agora, tchau," respondi, parecendo decidida.
"Não mesmo! Fique parada aí. Como sou um bom chefe, ou melhor, estou tentando ser, vou fazer isso por você."
"Fazer o quê?" perguntei, sem entender.
"Como você não tem condição de comprar, vou fazer isso por você."
"Não, não quero isso não! O que eu quero de você é só o meu salário!"
"Não estou perguntando se você quer ou não. Estou dizendo que vou fazer," ele insistiu, cruzando os braços.
"Gostei de você, ele é autoritário!" murmurou minha mãe.
"Mãe, não dá palpites! Aliás, por que você vai fazer isso por mim? Você fez pelas outras funcionárias também?" eu incrementei.
"Não, claro que não! Mas resolvi abrir uma sessão para você, já que você é minha secretária particular!"
"Não obrigado! Não quero nada que venha de você, a não ser o meu salário!"
" Claro que ela quer"
" Não quero mãe "
" Claro que quer. Agora pode ficar tranquila, querida. Você vai aceitar e agradecer. Agora, vamos fazer as compras!"
Finalmente, percebi que, apesar de todo esse drama, talvez essa situação não fosse tão r**m assim. Uma oportunidade para mostrar o meu valor e, quem sabe, fortalecer não só minha autoestima, mas também a minha confiança no trabalho.