Capítulo 5

1483 Palavras
Fernando Mendez Estou com minha cabeça apoiada em minha escrivaninha no meu escritório, olhando para Ana que está dormindo no bebê conforto. O dia de ontem foi muito louco, dei de cara com Bruno, aquele dançarino gostoso e talentoso. Mas não posso me deixar levar pelos meus desejos, não agora. Me sinto tão quebrado para começar algo com alguém. Me sinto...na verdade não sei como me sinto. Seria nesse momento que eu correria para a casa do meu irmão e pediria seu colo e seus conselhos. Mas ele não vai poder me ajudar agora. Nem nunca mais. Estou sozinho. Ele me deixou sozinho. Sinto as lágrimas descerem. Sei que tenho que superar isso, afinal já se passou um mês desde sua morte. Mas eu não consigo, eu perdi minha família, na verdade Felipe escolheu me deixar sozinho, eu não fui o suficiente para que ele ficasse. Dói tanto. Meu Deus como dói. E imaginar que eu tenho uma parcela de culpa me deixa doente. Eu acho que poderia tê-lo impedido, não podia ter deixado ele sair da minha casa. - Felipe. Seja lá onde você esteja irmão. Me perdoa. - Apoio minhas mãos na mesa e colo minha testa ali, encarando a madeira escura, vendo as lágrimas formarem uma pequena poça. - Eu sinto muito, sinto muito. Mas...o que eu devia ter feito para fazer você ficar? Você não tinha esse direito, não tinha...- Não sei por quanto tempo fico ali chorando. Mas sinto meu nariz entupido, e quero morrer pela dor forte que ainda está presente em meu peito. - Me perdoa. - Minha voz não passa de um pequeno sussurro. Meus olhos se fecham e tudo fica escuro, e me deixo afundar por uns minutos. Acordo meio atordoado, sinto minha barriga doer, e sei que é de fome, não comi nada o dia todo. Levanto minha cabeça e vejo o escritório todo escuro, a não ser pelo pequeno abajur em cima da mesa. Olho ao redor e vejo que Ana ainda está presa no lugar, mas está balbuciando algo enquanto brinca com os brinquedos que está preso no aro do bebê conforto. Solto um suspiro e enxugo meus olhos que ainda tinham algumas lágrimas. - Papa. Olho para Ana e seus intensos olhos azuis estão presos em mim. Me levanto e sigo até ela, que está apenas um pouco afastada de mim. - Oi meu bebê, está com fome? - Solto o cinto que a prendia e a coloco no chão, lhe dando um beijo em seus cabelos. Olho o relógio em meu pulso e vejo ser quase 19 da noite. - Fome, Papa. - Eu também meu amor. Vem, vamos comer. Sigo na frente e seus passos vacilantes me seguem. Antes que eu possa chegar à porta acabo pisando num bloquinho de lego. -c*****o. - Xingo alto enquanto caio sentado de b***a no chão pegando meu pé que dói feito um inferno. Ana Júlia rir da minha desgraça, a menina rir tanto que chega a cair sentada ao meu lado. - Então é pra isso que eu sirvo Ana Júlia, sirvo de palhaço para você? - Ela rir ainda mais de minhas palavras. Filhos! Rir da miséria dos pais, eu vou dizer viu, faço uma careta e seus olhos estão em mim, sua risada se acalmando. - Caralo. - Ela volta a rir de novo, sua risada inocente me fazendo arregalar os olhos, acho que vou ter um infarto. Merda, tenho que pensar direito antes de proferir palavrões agora. - Não bebê, não pode chamar isso. É feio. - Digo sério, esquecendo minha dor no pé e a pegando no colo. - Nã, caralo. - Fala fazendo um bico enorme. Meu Deus, o que fiz? - Não Ana, não pode! - Caralo. - Mordo meus lábios. Merda. O que faço agora? - Filha, não pode dizer isso. É muito feio. - Falo mais sério. Ela me olha por alguns segundos e começa a chorar, seus soluços ficando forte. Que Deus me ajude. Minha nossa senhora, dos pais desesperados e sem saber o que fazer. Alguns minutos depois consigo fazer ela se acalmar quando lhe dou um biscoito que ela ama. Acho que comida funciona com todos, até com um bebê. A que ponto eu cheguei? Comprando minha filha com comida. Ai Deus! Deus deve estar sem saber o que fazer, do tanto que já chamei ele nesse pouco tempo. Só por Deus! Preparo meu jantar, quase desmaiando pela fome. Faço algo simples, uma pizza que eu amo e a única coisa que eu sei fazer direito sem ter que tá olhando a receita mil vezes. Para Ana, alguns legumes cozidos que ela ama. Nos alimentamos e fomos assistir essas musiquinhas chatas de bebê que faz Ana ficar rodopiando pela sala balbuciando coisas incoerentes, que para ela, é cantando. Dez horas visto seu pijama, mas ela ainda está elétrica, desço para a sala e procuro por músicas mais calmas e para dormi. Ana fica olhando para a tela e me deito com ela em meu peito no sofá, fico olhando para a tv, a música começando a me embalar também. Acordo assustado, e ia me levantar com tudo do sofá, mas meus braços estão firmes ao redor de um corpinho pequeno, fazendo eu permanecer no lugar, olho para meu peito e Ana está ali dormindo, meu celular toca alto e o procuro para desligar antes que Ana acorde. O acho ao meu lado no chão, vendo que é o alarme das onze da noite. Me levanto com cuidado, e subo as escadas, deixando minha menina em seu berço, coloco um pequeno coberto em sua cintura e desço para a cozinha, esquento a água e misturo o leite com o Mucilon na mamadeira. Chego no quarto e minha pequena não está mais coberta, não faz nem dez minutos que desci. Ela toma todo seu leite e deixo um beijo em sua testa, deixando o quarto tendo a certeza que ela só acorda amanhã, deito em minha cama e coloco a babá eletrônica no móvel na cabeceira da cama ao meu lado. Olho meu celular e vejo ter um e-mail. Mais um trabalho para depois de amanhã, dessa vez, um casamento que vai me custar toda a minha tarde e uma parte da noite. Mordo meus lábios, é uma boa grana, vão me pagar bem. Não tenho como recusar. Bruno me vem à mente. Acho que vou ter que falar com ele mais rápido quanto gostaria. Estou confuso. Não queria ter que vê-lo logo, pois na presença dele, sinto como se eu não conseguisse pensar direito. Mas não posso fazer nada, eu realmente preciso dele agora. Não tenho escolhas ou saídas. Afundo minha cabeça no travesseiro e pego o outro que está ao meu lado para tampar meu rosto. Quem eu quero enganar? Estou louco para ver o homem de novo. Mas o medo está me dominando, o que ele poderia querer comigo? Apesar de que ele deixou claro que queria sair comigo. Mas aquilo pode não ter passado apenas de uma brincadeira. Deve ser isso, não é? Ele apenas pode estar brincando. Mas porque ele brincaria com algo assim? Tiro o travesseiro do meu rosto e alcanço o celular largado na cama. Procuro por seu nome nos contatos e encaro os números ali. Isso é muita loucura. Como posso está assim com o homem que conheci a um dia atrás? Porque sinto tudo isso? Porque isso tinha que acontecer agora? Não estou preparado para nada que possa vir desse homem. Sei que achei ele bonito e gostoso. Mas isso é totalmente diferente de fazer algo a respeito. Quem não iria querer um homem daqueles? Porque eu quero. Mas não posso! Tenho que focar apenas em meu trabalho e em Ana. Ela precisa de mim. Não posso me deixar levar por desejos do momento. Não posso deixar esse homem entrar na minha vida da noite para o dia. Não posso me envolver dessa maneira. Mas porque lá no fundo sinto como se já tivesse perdido essa batalha? Lágrimas caem por meu rosto sem que eu possa segurar. Estou me tornando um chorão. São tantas coisas apenas de uma vez. Porque eu tenho que passar por isso tudo? Porque meu irmão me deixou? Por que eu? Porque assim? São tantas perguntas, mas nenhuma resposta. E acho que nunca vou tê-las. Só posso me conformar que minha vida é isso, uma constante perda. Pois eu perco tudo. Porque seria diferente com Bruno? Respiro fundo e vou em seu perfil. Lhe envio uma mensagem nada mais do que profissional. “Oi, está livre depois de amanhã? Tenho trabalho, e preciso que cuide de Ana. Claro, se ainda quiser o trabalho.” Apago a tela do celular e o jogo ao meu lado, me enrolo no cobertor quente e deixo que meus pensamentos sejam esquecidos por algumas horas, me permitindo pelo menos uma noite boa de sono.
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