Capítulo 6

1331 Palavras
Aaron Black Enquanto olhava pela janela do carro, vendo as paisagens passarem em borrões, a minha cabeça estava presa naquela noite em Seattle. As imagens vinham em flashes, como se alguém estivesse trocando de canal em uma televisão antiga, com momentos nítidos e outros completamente desfocados. Acordei com uma dor de cabeça que parecia dividir o meu crânio ao meio, uma sensação horrível de algo errado no ar. Quando me virei na cama, lá estava ela: Cassie, dormindo ao meu lado com um sorriso sereno no rosto, completamente alheia ao tumulto que estava acontecendo dentro de mim. Foi aí que vi a mancha de sangue nos lençois. O meu coração parou. Eu tinha feito aquilo. Eu tinha tirado a virgindade dela, e o pior de tudo é que eu não conseguia lembrar como. Meu estômago se revirava só de pensar. Como isso aconteceu? Como eu, que sempre fui tão cuidadoso, me permiti chegar a esse ponto. Cassie acordou sorrindo, o rosto iluminado, como se não houvesse nada de errado. - Bom dia. – ela murmurou, ainda com aquela serenidade que me dava nos nervos. – Você está bem? - Bom dia. – respondi, a minha voz saiu trêmula. Eu não estava bem, e aquilo era visível, porém ela parecia não perceber. A dor de cabeça me matava, mas a culpa era o que me sufocava. Ela continuou falando, mencionando como nunca imaginou que acabaríamos assim, juntos na cama, mas que estava tudo bem para ela. - Eu estou bem com isso, Aaron. Eu não estava. Eu não conseguia. Eu precisava saber, eu precisava entender o que realmente aconteceu. - Cassie… – comecei, tentando organizar os meus pensamentos. – O que realmente aconteceu ontem à noite? Eu… eu não me lembro direito. Ela desviou o olhar, mordendo o lábio, quase como se estivesse envergonhada. - Você ficou estranho depois de umas taças de vinho. Eu te acompanhei até o quarto, e quando chegamos à porta, você me puxou para dentro. Você começou a me beijar, e eu tentei dizer que era errado, mas você insistiu, e também você sempre soube o que eu sinto por você. E quando você disse que era o que nós dois queríamos, eu… eu só me entreguei. Eu não me lembrava de nada disso. Tinha flashes, pedaços desconexos da noite, mas nada que fizesse sentido. - Eu… eu te forcei? – a ideia de que eu poderia ter feito isso me destruía. Ela abaixou os olhos, como se a resposta fosse difícil de dar. - Eu tentei parar você, mas parecia que você não estava no controle, Aaron. Eu sei que você não faria isso conscientemente. eu sei que você não me machucaria de propósito, e quando vi que não tinha mais chance de você parar, eu me entreguei. A cada palavra dela, sentia um peso maior no peito, ela estava ali, dizendo que eu havia feito algo que não me lembrava, porém, que devia ser verdade. Como eu poderia duvidar? - Olha Cassie. – disse finalmente, sentindo a culpa pesando na minha voz. – Se o que você está dizendo é verdade, eu… eu acho que nós deveríamos tentar algo. Eu não posso simplesmente fingir que nada aconteceu. Ela pareceu surpresa, mas depois sorriu, e aquele sorriso me deixou ainda mais desconfortável. - Eu… eu não esperava por isso, Aaron. Mas talvez você esteja certo. Talvez devêssemos tentar. Assenti, mesmo com a confusão das minhas lembranças da noite passada. Eu tinha feito aquilo, e agora estava preso a essa situação com Cassie, uma situação que não entendia completamente, mas que teria que encarar. A realidade me puxou de volta quando o carro parou em frente à mansão do meu pai, Benjamin Black. A mansão era imensa, fria, uma representação perfeita do homem que a habitava. Cada detalhe gritava riqueza, poder, mas para mim, tudo que via era um monumento à frieza e ao distanciamento. Desci do carro, o calor de Los Angeles batendo no meu rosto, trazendo uma paz reconfortante. Caminhei até a entrada, os sons dos meus passos ecoando pelo chão de mármore enquanto passava pelo grande hall. Sabia que o meu pai me esperava, e não por boas razões. Quando o meu pai me chama para uma conversa, nunca é algo trivial. Benjamin Black não é o tipo que se preocupa com trivialidades, muito menos sentimentos. Ele é um homem de negócios, e negócios são a única coisa que importa para ele. Finalmente, cheguei à porta da sala onde ele me esperava. Parei por um momento, respirei fundo e empurrei a porta, entrando na cova do leão. A batalha estava prestes a começar. O ambiente ao redor refletia a frieza que sempre senti aqui – os móveis impecavelmente polidos, as paredes decoradas com obras de arte caras e impessoais. Era como se tudo ao redor fosse uma extensão do próprio Benjamin Black, ele era um homem que raramente mostrava alguma emoção que não fosse desaprovação. Ele estava sentado em sua poltrona de couro, com uma postura que exalava autoridade. Um jornal estava dobrado ao lado dele, mas os olhos penetrantes estavam fixos em mim. - Pai. – eu disse, forçando uma calma que não sentia. – Para que essa conversa tão urgente? Benjamin fez um leve gesto com a mão, como se qualquer pergunta fosse perda de tempo, e inclinou-se ligeiramente para frente. - Aaron, preciso que você se case. – ele soltou, sem rodeios. Eu franzi o cenho, certo de que tinha ouvido errado. - Desculpe, você disse… se casar? – ele assentiu, o olhar implacável. - Isso mesmo. Preciso que você se case. Uma risada incrédula escapou dos meus lábios antes que eu pudesse contê-la. - Isso só pode ser uma piada, pai. Sou que decido a hora que vou me casar. – a minha voz estava carregada de sarcasmo, como se o que tinha dito fosse uma piada de m*l gosto. - Isso não é um romance, Aaron. São negócios. – ele disse, isso com tanta frieza, como se casar fosse tão simples quanto assinar um contrato. Senti o estômago revirar. - Negócios? O que exatamente você está tentando conseguir com isso? Benjamin se recostou na poltrona, cruzando as mãos sobre o joelho. Através desse casamento, vamos garantir uma parceria que será benéfica para as duas famílias envolvidas. A Black Enterprises ficará ainda mais sólida, com acesso a mercados que antes eram difíceis de penetrar. Revirei os olhos, tentando manter a calma, mas era difícil. - E quem é essa… noiva que você escolheu para mim? – as palavras saíram como veneno, o desprezo evidente. - Sarah Mills, filha de Alexander Mills. – ele falou como se fosse a coisa mais natural do mundo, sem qualquer consideração pelo impacto que teria na minha vida. Sarah Mills. Eu tinha ouvido o nome antes, porém, sabia muito pouco, a última coisa que sei é que ela e o irmão tinham ido embora com a mãe, quando Alexander e a mulher se separaram, depois nunca mais ouvir falar nada dela, e isso tem uns anos já. O que eu sei de fato, é que ela vinha de uma das famílias mais influentes da costa oeste. Mas isso não importava. O que importava era o fato de que meu pai achava que poderia manipular a minha vida pessoal como se eu fosse apenas mais uma peça no tabuleiro de xadrez. - Não vou fazer isso, pai. – eu cruzei os braços, tentando manter a minha posição firme. – Você pode esquecer. Não vou me casar com uma desconhecida só para beneficiar a empresa. Ele não pareceu surpreso com a minha resistência. Na verdade, parecia estar esperando por isso. - Aaron, sei que você gosta da sua posição na empresa. Sei o quanto você trabalhou duro para chegar onde está. – ele fez uma pausa, as palavras escolhidas com precisão. – Mas entenda que se você não concordar com esse casamento, vou ter reconsiderar a sua posição. Poderia nomear outra pessoa para o cargo de CEO.
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