Capítulo 2

1189 Palavras
Aaron Black A escuridão do meu escritório era confortante. Eu gostava do silêncio, da ausência de pessoas e da tranquilidade que isso trazia. A vida que construí para mim era cuidadosamente projetada, cada detalhe meticulosamente planejado para garantir uma coisa: distância. Distância de pessoas interesseiras, de mulheres que viam o meu sobrenome como um bilhete dourado, de amigos que estavam mais interessados no que eu era. Distância do mundo que só queria me devorar. A imagem que projetei para o mundo não poderia ser mais distante da verdade. Um homem egoísta, frio, com uma aparência desinteressante e preso a uma cadeira de rodas. Os rumores se espalharam rapidamente, alimentados por minha própria equipe, quem sabia a verdade sobre mim eram poucas pessoas, meu pai óbvio, meu melhor amigo e minha secretária. As pessoas adoram falar, e eu sabia que quanto mais feio e desprezível fosse o quadro que pintassem de mim, mais afastado eu estaria de quem realmente era. Era uma máscara que usei para me proteger. A verdade? Bem, a verdade era que eu estava cansado. Cansado da superficialidade, das falsas promessas, dos sorrisos plásticos. Tinha visto o meu pai ser explorado por aqueles que ele chamava de amigos, e assistindo à minha mãe, uma mulher forte, ser destruída por um casamento de aparências. Eu prometi a mim mesmo que nunca seria alvo de pessoas assim. O dinheiro, o poder, era mais maldição do que bênção, e o que eu fiz foi usá-los para criar barreiras, muros que me separassem daqueles que só queriam se aproveitar. Ninguém sabe quem eu realmente sou. Eu construí essa imagem cuidadosamente, com a ajuda de alguns aliados leais. Meu físico? Atlético e bem definido. Minha aparência? Eu poderia dizer que sou mais do que apenas “aceitável”. E quanto a cadeira de rodas? Isso foi a cereja no topo do bolo. O boato mais eficiente que já inventei. Ninguém se aproxima de um homem “quebrado”, especialmente se ele for difícil de se olhar e ainda mais difícil de se lidar. Sorri amargamente enquanto girava o meu copo de uísque na mão, observando o líquido âmbar dançar sob a luz suave da lareira. As chamas refletiam o vidro, um lembrete das paredes que construí ao meu redor. Sempre fui um bom jogador, e neste jogo, fui invencível. Até agora! Meu nome, Aaron Black, tornou-se sinônimo de poder e isolamento. A empresa que herdei do meu pai era um império, e eu a expandi de maneiras que ninguém poderia imaginar. Mesmo assim, não importava o quanto eu construísse ou quão bem-sucedido fosse, havia um vazio constante. Uma parte de mim, embora pequena, desejava que alguém visse através da fachada. Alguém que não estivesse atrás do dinheiro, porém, que se importassem com o homem por trás do mito. Mas o mundo não funciona assim. Não existem contos de fadas. Existem apenas negócios, transações, e acordos vantajosos. Eu me convenci de que isso era tudo o que importava. Então, continuei jogando o meu jogo, permanecendo recluso, permitindo que o mundo acreditasse na mentira que eu mesmo criei. Há quem diga que sou um monstro, que sou frio e calculista. Talvez seja verdade. Talvez a pessoa que fui tenha se perdido entre as linhas que desenhei. A cada ano que passa, sinto que me afasto mais do que um dia fui e aceito cada vez mais o homem que me tornei. Isso me protege, porém, ao mesmo tempo, me condena. Parei um momento, levando o copo aos lábios e sentindo o calor do uísque escorrer pela garganta. O vazio ainda estava lá. Sempre estava. Mas era melhor assim, certo? Essa era a vida que escolhi. A vida que criei. E ninguém, absolutamente ninguém, quebraria essa barreira. Coloquei o copo de volta na mesa e olhei para as luzes da cidade através da janela do meu escritório. A vista era espetacular, contudo, era solitária. Ao longe, vi os prédios que construí e os negócios que conduzi. Esse era o legado que eu deixaria, e talvez fosse o suficiente. Porém, no fundo da minha mente, havia uma voz que sussurrava o que eu evitava admitir: eu não estava apenas protegendo a mim mesmo. Eu estava me escondendo. Talvez um dia eu tenha coragem de encarar a verdade, mas até lá, continuarei sendo Aaron Black, o homem que o mundo teme, despreza, e, ironicamente nunca conheceu. {...} Acordei antes do amanhecer, com o silêncio da casa me envolvendo como uma manta. Os primeiros raios de luz começavam a tocar as paredes do meu quarto, mas eu já estava em pé, pronto para o dia. Hoje era um dia importante; teria uma reunião em Seattle com novos investidores que estavam interessados no nosso mais recente projeto. Um shopping de luxo, localizado estrategicamente para atrair tanto turistas quanto residentes endinheirados. O tipo de empreendimento que poderia se tornar um dos pilares do meu império. Tomei um banho rápido, a água quente ajudando a clarear a minha mente para os desafios que viriam. O meu guarda-roupa estava organizado, com ternos impecavelmente alinhados, todos feitos sob medida. Escolhi um dos meus preferidos: um terno escuro, cortado perfeitamente para o meu corpo. Era elegante, discreto, porém, impunha respeito. Um reflexo exato do homem que eu queria que todos vissem. Após ajustar a gravata, desci as escadas e caminhei pelo hall de entrada da minha casa. Ainda era cedo, e o motorista já estava esperando na porta. Como sempre peguei a cadeira de rodas e me sentei nela, eu não tinha empregados, eu contratava uma firma terceirizada para fazer a limpeza quando eu não estava em casa, não gostava de ninguém na minha casa invadindo a minha privacidade, Marco estava comigo a anos então ele também sabia sobre a minha farsa. O caminho para o aeroporto foi tranquilo, o trânsito ainda começava a se formar nas ruas de Los Angeles. Quando cheguei ao hangar privado, Cassie já estava lá, como sempre pontual e impecável. Ela vestia um vestido justo que abraçava cada curva do seu corpo, destacando a sua figura de maneira óbvia. Cassie sabia como se vestir para chamar a atenção, e ela o fazia com maestria. Não n**o, ela era uma mulher bonita, e houve um momento que eu quase deixei que isso nos levasse a um caminho perigoso. Mas, por mais tentador que fosse, preferi manter as coisas profissionais. Misturar trabalho com prazer nunca foi algo que me agradasse. Ao vê-la percebi o brilho em olhos, aquele brilho que sempre carregava quando queria algo mais do que profissionalismo. Ela nunca foi sutil, mas aprendi a ignorar as suas investidas. Apesar disso, não pude deixar de notar como ela parecia gostar de se exibir para mim. - Bom dia, Cassie. – cumprimentei conduzindo a cadeira até as escadas para entrarmos no avião. - Bom dia, senhor Black. – ela respondeu, me acompanhando. Quando subimos e nos estamos, eu verifiquei a papelada para ver se estava tudo em ordem. Cassie era eficiente, e isso era uma das razões pelas quais ainda estava comigo. O jatinho decolou suavemente, e em poucos minutos já estávamos cortando o céu em direção a Seattle.
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