— Então, Bettany, depois de analisar o meu relatório, você ainda considera que o investimento com o Brasil possa ser vantajoso para a empresa?
Mordiscando a tampa da minha caneta — uma mania viciosa que somente me atinge nos momentos de aflição —, mantenho o meu olhar na vastidão do centro de Boston refletido nas janelas do meu escritório, e a atenção na voz deste que se senta do outro lado da minha muito bem organizada escrivaninha.
— Não só considero, como tenho certeza. Benden teve resultados promissores com os testes de Nióbio. E, como você sabe, o Brasil é o país com maior posse deste elemento.
— E quanto aos incentivos fiscais oferecidos pelo Canadá?
— Me diga, Blackmore... — impulsiono minha cadeira girátoria para encará-lo, sombras do crepúsculo em minhas costas oscilando pelo movimento. — Você prefere garantir um contrato tendo 98% de chance de sucesso, ou manter-se à mercê do grupo no Canadá, sabendo que os 2% restantes de chances ainda podem falhar? — arqueio uma sobrancelha e observo-o curvar a cabeça curiosamente. — Apenas lembre-se que reergui esta empresa quando todos pensavam ser um mau negócio, e hoje, pelos lucros desta mesma empresa, sou dona de boa parte dos estabelecimentos comerciais e industriais do estado. Ainda acha que o Brasil possa ser um investimento a ser descartado, baseando-se unicamente em questões políticas?
Anthony Blackmore, diretor de operações de minha empresa e o melhor braço direito que alguém poderia ter, abre um muito largo e brilhante sorriso satisfeito.
— Bom ponto. É uma pena não sermos os primeiros com tanto interesse neste negócio.
— Molhe quantas mãos precisar. Apenas garanta que a nossa oferta será mais atrativa do que a dos Chineses — declaro com voz cadenciada. — Levando em conta o tempo em que estarei disponível apenas para assuntos internos, deixo sob seu comando a tarefa de descobrir quais são os benefícios fiscais que Chicago nos oferece para a instalação da nova Fábrica, e supervisionar as estratégias de convergência.
— Tudo bem — ele fecha a pasta dos nossos clientes repousada em seu colo e se apruma na poltrona aveludada. — Se me permite, tenho uma pergunta pessoal, Bettany.
Com um sorriso complacente, aceno com a mão.
— Tempo é dinheiro, Tony.
Anthony Blackmore é um homem grande e corpulento, de olhos cinza-esverdeados e cabelos calvos, cuja barba espessa e n***a parece duelar com os vãos entre seus fios superiores. Nem de longe pode ser considerado um homem bonito, mas é sem dúvidas a pessoa em quem mais confio em relação ao meu trabalho.
— Você sabe que os boatos dentro da empresa correm mais rápido do que fogo em um rastilho de pólvora — ele afrouxa sua gravata, parecendo desconfortável. — Você e o senhor Rivers... Não é da minha conta, mas, se vocês não estão planejando se casar nas próximas semanas, é realmente necessário que você deixe a empresa em nossas mãos? Não duvido da capacidade de nossos colegas, entretanto, temo que este lugar possa se tornar um caos sem sua líder. As pessoas sentem prazer em trabalhar porque sabem que você estará aqui para retribuir isso, mas se estiver longe...
Dou um sorriso sereno, nitidamente comovida com sua sinceridade. Trabalho há anos para fazer com que homens poderosos e experientes como Blackmore reconheçam o meu valor, e sempre que isto acontece, meu ego infla maravilhosamente.
— Não estarei completamente alheia ao que acontece com a minha empresa, Tony. Mandarei que Natalie transfira todas as minhas reuniões, internas ou não, para videoconferências. Além disso, terei você e o conselho para manter a ordem enquanto eu estiver fora. Sobre o meu noivado... Os boatos são verídicos.
Ele cruza os braços ante o peito e me observa com atenção.
— E você ainda pretende se casar?
— Claro! — recosto em minha cadeira e desvio o olhar do seu. — Não se preocupe com minha vida pessoal, há pessoas demais achando que devem dar uma opinião. Me fale mais uma vez sobre o relatório que o senhor Morgan enviou.
Anthony prontamente me ocupa com suas opiniões acerca do email recebido, e o assunto "vida pessoal e frustrada de Bettany Wilson" é deixado de lado.
Uma semana se arrasta mais depressa do que se pode imaginar. Reuniões com o conselho, análise de contratos, supervisão de uma secretária em treinamento, e uma melhor amiga que esconde segredos, podem levar qualquer um há um misto de ocupação e desespero.
Somando como preocupação primária ter sob seu controle mais do que vinte mil funcionários, e depender de assistentes pessoais para lembrar e aguentar as tarefas do dia, é compreensível que no final destes sete dias eu já não esteja mais com ânimo o suficiente para dar atenção aos preparativos de um casamento fantasma.
Sete dias antes, Marjorie me deixou em casa antes de levar o sujeito chamado Oliver Hollis para qualquer outro lugar que não se deu o trabalho de me informar. Eu não insisti tanto para saber dele. Tinha mais problemas para lidar do que um desconhecido que usava o seu corpo para sobreviver, só que isso não me impediu de encher o celular de Marjorie com mensagens e tentar ameaçá-la pessoalmente para me responder. Não sou hipócrita de dizer que a profissão do estranho não tenha causado uma leve curiosidade de minha parte.
Acompanhantes de Luxo, em sua maioria, são perigosos, e muitos já foram presos por estelionato. Em um delírio c***l, até me ocupei com suposições em que a sua agressão e quase morte haviam sido um recado de algum cliente que não aceitava chantagens. Mas afastei a ideia com um pequeno incômodo se formando em meu estômago.
Pensando melhor, pouco me importa a vida deste homem e as razões que o levaram a ser a vítima chave de um assassinato televisionado por todo o país. Tenho a consciência limpa de que fiz mais do que o necessário para ajudá-lo. O problema não é mais meu. Eu não devo me preocupar com ele. Quem é Oliver Hollis, afinal?
Em vez disso, posso focar em minha árdua tarefa de levar ao mundo tecnologia suficiente para que a economia prospere e mais oportunidades de trabalho sejam abertas. Desde que tenho concluído minhas quatro graduações e garantido um cargo importante na primeira empresa que me abriu suas portas, foi um longo trajeto para chegar onde estou agora. Muitos homens foram — e ainda são — obrigados a reconhecer que ser uma mulher não me desfavorece naquilo que eles se consideram capazes.
Tenho o dinheiro, a confiança e a disposição de muitos investidores que aceitam ter uma mulher representando-os, desde o momento em que comprei as minhas primeiras ações e me tornei Presidente da companhia. Mas ainda há aqueles que apenas enxergam a sulista sem sotaque que chegou na cidade grande com sonhos fabulosos e conquistou uma realidade invejável.
Aos trinta e dois anos de idade, sou uma das únicas mulheres no conselho desta empresa que tem o poder de empregar e alimentar os sonhos daqueles que não desfrutam de um começo fácil.
A segunda e última mulher dedicada às atividades ligadas ao crescimento da estrutura executiva é Marjorie Morgan. Minha melhor amiga, filha do fundador e ainda m****o da diretoria, Jon Morgan, e responsável pelo RH da empresa.
Não há limites para o que o dinheiro e o poder podem fazer na vida de uma pessoa. Com exceção dos relacionamentos, é claro. Infelizmente, ainda não existe um aplicativo que obrigue pessoas a amarem outras por toda a eternidade, e profissionais como eu nunca encontram tempo para relacionamentos convencionais. Estamos fadados ao fracasso sentimental pelo resto de nossas monótonas vidas.
A expectativa de mais uma noite solitária em casa é deprimente, e estou pensando sobre isso enquanto respondo vagamente sobre o assunto de Blackmore, quando o telefone em minha mesa e o celular no bolso do casaco em minha cadeira tocam ao mesmo tempo.
— Sim? — digo ao telefone, um segundo depois de pedir um tempo para Anthony.
Minha secretária novata pigarreia e sua voz treme antes que consiga me responder.
— O senhor Rivers está aqui, senhorita Wilson.
Samuel... Não o tenho visto desde aquela maldita sexta-feira, embora já presumisse que este encontro fosse acontecer. Querendo ou não, ele é o diretor do setor de Tecnologia da Informação, e eu ainda preciso da sua mente genial para mover os projetos virtuais em minha empresa. Suspirando, peço para que Natalie mande-o entrar.
Com um olhar de relance para a grande porta de madeira escura sendo aberta, abro a mensagem de Marjorie.
"Só porque eu me sinto boazinha hoje, vou sanar a sua curiosidade... O Deus Grego está "hospedado" na clínica da minha mãe. Foi o melhor lugar que encontrei. Só estou dizendo isso porque o i****a implorou para ter notícias da sua salvadora... E se você quiser ir até lá, chegue antes das 18h. Ainda tenho que resolver um problema sobre aquela minha "ideia". Conto os detalhes essa noite, quando encontrar vocês.
- M."
Curiosidade atiça os meus nervos instantaneamente. Confiro o relógio na barra de notificações. 17:35. Oh, merda!
— Boa tarde, senhor Blackmore, senhorita Wilson. O projeto repassado ao TI foi finalizado e aguarda aprovação.
Apressadamente, puxo a apostila que Samuel oferece e folheio as páginas. Não deixo de retribuir o seu cauteloso olhar antes disto. Aprecio a sensação de ter o seu trabalho em mãos e poder massacrá-lo ao meu bel prazer. Só que eu quase sou tomada pela irritação com o perfeccionismo com que o projeto de contratação online foi criado, mas então, o primeiro erro me chama a atenção, e uma sequência de regras descumpridas saltam diante dos meus olhos.
Após meros segundos de leitura, termino arremeçando o projeto com um baque de folhas e grampos na mesa, e emito um ruidoso estalar de língua para o choque que enche o rosto bonito de meu ex-noivo.
— Isso está uma porcaria e extrapolou os limites de custos. Você tem até o final da próxima semana para refazê-lo.
— Como é? — pergunta Samuel, seus olhos azuis arregalados e brilhantes.
— Eu gaguejei? — retruco em voz baixa, completamente desprovida de suavidade. — Eu mandei você refazer essa porcaria de projeto. Precisa de um desenho, senhor Rivers?
Eu me levanto, guardo o celular, e exijo a presença de minha secretária. Puxando o casaco para os meus ombros, encontro o olhar surpreso de Anthony. Ele puxa a apostila para o colo, e tão rápido quanto um sorriso pode emergir em seus lábios na minha companhia, todo o seu semblante se resume a uma carranca. Abismado com os altíssimos valores exigidos por Samuel, e por tantos outros erros em seu relatório de testes, ele se prepara para esbravejar.
Natalie entra aos tropeços e se assusta com a voz estrondosa de Anthony, encolhendo-se no canto.
— C-chamou, Senhorita Wilson?
Ela m*l consegue olhar em meus olhos. Pobre Natalie.
— Preciso saber se ainda há algum compromisso importante marcado, querida. — Ela se surpreende com o meu tom calmo e gagueja ainda mais.
— Não, senhorita. Os emails pertinentes já foram enviados, assim como o Fax que a senhorita pediu mais cedo, e os contratos necessários imprimidos e arquivados nas pastas referentes aos clientes. Só estou um pouco confusa com a viagem que a senhorita deve fazer na próxima semana... Devo remarcá-la?
Minha viagem de casamento. Não me admira que até mesmo a minha desastrada e estranha secretária nova esteja sabendo sobre o fim do meu noivado.
Eu afasto os longos cabelos que se acumulam nos meus ombros, incomodada com o repentino formigamento em minha nuca, e me fecho em torno do tecido suave do meu casaco.
— Não, querida. A viagem acontecerá. Eu não voltarei para a empresa hoje, então, quero que procure Marjorie Morgan no setor do RH e pergunte se ela tem alguma instrução para o seu treinamento. Estarei no celular e disponível para qualquer ligação de urgência, espero o mesmo de sua parte.
Natalie assente nervosamente e murmura agradecimentos antes de voltar para a sua mesa, distante da minha sala por um extenso corredor e praticamente colada ao elevador.
Eu me viro para Anthony, ignorando o olhar de esguelha de Samuel.
— Ligue se precisar de alguma coisa, Tony. Estarei ocupada visitando um amigo.