Cicatrizes da Lealdade

986 Palavras
O sol da manhã, pálido e hesitante, penetrava pelas altas janelas do Castelo de Velaris, banhando as paredes de pedra com uma luz dourada e fraca. Evelyne permaneceu perto da janela de seus aposentos, os dedos deslizando pelo parapeito frio, observando o pátio lá embaixo. Servos moviam-se como sombras sobre as pedras de calçamento cobertas de neve, a respiração formando um bafo no ar gélido, mas sua atenção estava em outro lugar. Ela ainda sentia o eco de seu encontro com Feyre — a lembrança do que seu irmão possuía e que ela ainda não podia ter. Seus pensamentos foram interrompidos por uma batida suave na porta. “Princesa Evelyne?” A voz era cautelosa, porém firme. Uma sombra moveu-se pelo chão antes que a porta se abrisse rangendo, revelando a figura alta e imponente de Sir Azriel. Ele se portava com a precisão de um soldado, mas havia uma cautela silenciosa em sua postura que fez Evelyne hesitar. Ela o vira desde sua chegada com o Príncipe, sempre à espreita, silencioso, alerta, mas eles nunca haviam conversado. Não propriamente. "Sim?" perguntou Evelyne, a curiosidade transparecendo por baixo da máscara de polidez que sempre usava. “Fui incumbido de falar com você”, disse Azriel, entrando. “Se você tiver tempo”. Sua voz era firme, controlada — mas havia um indício de algo por trás dela, um peso que ela ainda não conseguia nomear. Evelyne inclinou a cabeça, observando-o. "Você quer dizer, se eu consigo tolerar a sua presença?", disse ela com leveza, embora sentisse o coração acelerar com a intensidade do olhar dele. O maxilar de Azriel se contraiu ligeiramente, mas ele não sorriu. "Estou aqui porque é meu dever para com você, Princesa. E não partirei até cumpri-lo." Ela corou, mais pela tensão não verbalizada do que pelas palavras dele. "Muito bem, então. Sente-se." Eles se aproximaram da lareira, cujo calor contrastava fortemente com o frio cortante que vinha do pátio. Evelyne sentou-se na beirada da poltrona de veludo, enquanto Azriel permaneceu de pé, um sentinela silencioso. Por um instante, apenas observaram as chamas tremeluzirem, sem dizer uma palavra. Finalmente, ele quebrou o silêncio. “Não vou fingir, princesa. Minha vida tem sido… difícil. As cicatrizes não estão apenas na pele. Elas vivem na memória, em cada decisão, em cada caminho errado”. Evelyne franziu a testa. "Você fala em enigmas, Sir Azriel. Por que me diz isso?" “Porque”, disse ele em voz baixa, “você merece saber quem a guarda. Não apenas o corpo, mas o homem por trás dele”. Ela inclinou-se ligeiramente para a frente, com a curiosidade aguçada. "Estou ouvindo". Azriel expirou lentamente, a compostura controlada vacilando por uma fração de segundo. "Eu sou... um bastardo. Minha mãe morreu no parto. Meu pai, um lorde, me descartou assim que pude ficar de pé. Lutei por tudo — respeito, um nome, um lugar. E quando salvei o Príncipe Rhysand em batalha, recebi um propósito... um dever." Seus olhos se voltaram brevemente para os dela e, por um instante, o escudo feroz que carregava escorregou. "E agora... meu dever é você." Evelyne piscou, as palavras pairando pesadamente no ar. Ela esperava que ele fosse uma figura silenciosa e distante, um protetor apenas de nome, mas ali estava um homem que dera tudo para sobreviver, agora encarregado de sua segurança. “Você… você arriscou a sua vida por ele”, disse ela suavemente, pensando no irmão, tantas vezes alheio aos perigos que o cercavam. “E agora você me protege. Mas por quê?” O olhar de Azriel não vacilou. "Porque é meu dever. Porque estou preso à honra. Porque se algo lhe acontecesse..." Ele fez uma pausa, o final não dito pairando no ar. O peito de Evelyne apertou. Ela queria dizer algo — dizer-lhe que entendia, que admirava sua lealdade, mas as palavras lhe faltavam na garganta. Em vez disso, recostou-se, deixando a luz da lareira aquecer seu rosto, e o observou em silêncio. “Você é… diferente do que eu imaginava”, disse ela finalmente. “Não é fria, nem distante. Você é… consciente”. Os olhos de Azriel escureceram, um leve sorriso surgindo em seus lábios. "Estou ciente do meu dever. Não dos seus pensamentos, Princesa. Esse é um luxo que não possuo." Ela esboçou um sorriso irônico, embora fosse um sorriso carregado de algo mais cortante do que mero divertimento. "E, no entanto, suspeito que você observe mais do que admite." Ele não respondeu, mas a inclinação da cabeça, o cerrar dos dentes, diziam mais do que palavras. Evelyne sentiu um calor curioso no peito, uma mistura de desafio e fascínio. Percebeu, com uma mistura de temor e entusiasmo, que aquele homem — tão estoico, tão impenetrável — já começara a conquistar um lugar em seus pensamentos. Eles então falaram de assuntos menos perigosos: o treinamento dos guardas do castelo, o estado do reino sob o comando do rei, as intrigas políticas da corte. No entanto, cada frase era carregada de uma tensão tácita, uma dança de civilidade e distanciamento, cada um avaliando o outro, nenhum cedendo. Com o cair da tarde, Evelyne se arrependeu de ter encerrado a conversa. "Eu preciso ir", disse ela suavemente, levantando-se. "Você vai ficar?" Sempre”, disse Azriel simplesmente. “É meu dever. Você não ficará desprotegido”. Ela parou na porta, olhando para trás, para ele. "Senhor Azriel... obrigada. Por... tudo." Ele inclinou a cabeça uma vez, um gesto sutil, e permaneceu imóvel, um sentinela de sombras e aço, observando-a até que a porta se fechasse atrás dela. E enquanto caminhava pelos corredores rumo ao seu próximo compromisso, Evelyne sentiu os primeiros sinais reais de algo que ainda não ousava nomear. Curiosidade, respeito e uma tênue e perigosa fascinação que sussurrava sobre rebeldia — não apenas contra o mundo exterior, mas contra as regras que ditavam seu coração.
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