Capítulo IV

1499 Palavras
Genevieve, com a voz ainda embargada, perguntou: — Como vocês souberam? Cerise interrompeu brevemente o gesto reconfortante de acariciar o cabelo de Genevieve, antes de retomar com uma calma serena. — Talvez você já tenha ouvido falar, Genevieve, que eu possuo o dom da visão. — Eu dormia quando tive uma visão de Kairon exigindo que você removesse o vestido. Sinto muito por não chegar antes, mas tive que acordar o Ren. Eu não teria conseguido impedi-lo sozinha; não sou tão forte. Genevieve ergueu a cabeça e sentou-se na cama, envolvendo Cerise num abraço apertado. — Não diga besteiras. Você salvou-me! Se não fosse por você e pelo Ren, ele teria... Ela não conseguiu completar a frase, desviando o olhar num gesto de fraqueza e desamparo. — Tente me distrair, por favor... Fale-me sobre as suas visões. Genevieve pediu com uma voz suave e suplicante. Cerise, compreensiva, assentiu e se acomodou ao lado de Genevieve na cama. — Minhas visões são fragmentos do futuro, do presente e do passado, e costumam surgir de forma inesperada em qualquer momento do meu dia. No banho, nos meus sonhos... — E a visão sobre mim foi...? — Do presente, sim. — Você consegue se ver nas suas visões? Sabia que iria me encontrar? Cerise olhou para Genevieve com um olhar introspectivo antes de responder. — Às vezes, consigo vislumbrar os próprios reflexos nas visões, mas nem sempre com clareza. O que vi de você foi um vislumbre breve e inquietante, uma cena de angústia e vulnerabilidade. Não sabia que te encontraria da maneira como aconteceu. A morena passou a mão carinhosamente pelo cabelo de Genevieve, oferecendo um toque de conforto e esperança em meio à tormenta. — Sim, Genevieve, eu te via nas minhas visões antes mesmo de saber que iria-te conhecer. As visões futuras são como escolhas que fazemos... Elas são fluidas, sujeitas a mudanças, ao contrário das visões do presente e do passado, que são fatos. É estranho ver a mim mesma. Genevieve perguntou, curiosa: "Você viu-se no futuro?" Cerise fitou os olhos de Genevieve, uma profunda tristeza refletida neles. — Minha linhagem é de videntes. Todas as mulheres da minha família têm esse dom, mas muitas enlouqueceram ao ver o seu próprio futuro. Eu vi o meu. É por isso que sou apaixonada por Ren. Genevieve franziu a testa, confusa. — Como assim? — Tive a minha primeira visão aos 14 anos. Era do meu futuro. Eu via a cachoeira sagrada da Terra Solar, com Ren deitado no meu colo. Estávamos a rir, nos beijando. Os nossos filhos brincavam ao redor. Parecíamos profundamente apaixonados. — Isso soa maravilhoso, Cerise! Você vai se casar com ele! — Eu pensava o mesmo, Genevieve. Mas às vezes me pergunto se o amo pelo que vi ou pelo que ele é de verdade. Será que não são ilusões que a minha mente cria? A minha linhagem têm uma tendência à loucura. Talvez eu seja a próxima a enlouquecer. Genevieve tremia com a ideia. Cerise era a pessoa mais lúcida que ela conhecia. Seria possível que um poder tão divino como o dela pudesse levá-la à ruína? Ao acordar, Genevieve percebeu que Cerise não estava mais ao seu lado. Ela permaneceu deitada sozinha, lembrando-se vagamente de Cerise conversando com ela até adormecer. O amanhecer já despontava, indicando que Genevieve tinha dormido apenas algumas horas. Ficou um tempo na cama antes de finalmente se levantar. Genevieve estava receosa de encontrar Kairon novamente. Apesar do medo, atravessou os corredores e desceu as escadas em direção à cozinha. Após um café da manhã substancial, dirigiu-se ao quarto de Samantha para ajudá-la. Porém, encontrou Samantha já de pé, completamente vestida e impecável, com Cerise ao seu lado. Genevieve correu até Samantha e a abraçou com força. — Samantha? Você já está acordada e vestida? — Deixe disso. Cerise arrumou o meu cabelo e me ajudou a vestir-me. O que você está a fazer acordada? Depois de tudo o que aconteceu, você deveria saber que está dispensada dos seus serviços. Conte-me o que aconteceu. Samantha falou rapidamente, de uma só vez. Cerise observava a cena com um sorriso doce, encorajando Genevieve. A loira então contou tudo a Samantha, desde o momento em que o encontrou na biblioteca até quando Ren e Cerise as salvaram. — Não posso acreditar que ele teve coragem de machucá-la debaixo do teto de Elion. — Você sabe o que vai acontecer com ele? Cerise, que permanecera em silêncio até aquele momento, quebrou o silêncio após minha pergunta. — Genevieve, Kairon é completamente incivilizado. Eu sei que não justifica, mas no submundo as coisas são impulsionadas por compulsões. Ele há muito tempo esqueceu como ser sociável e educado. Ele vai levar uma reprimenda de Elion e Ren, mas é só isso. Genevieve piscou várias vezes e desviou o olhar para a janela. — Desculpe, Genevieve. Vou fazer o possível para garantir que ele não tenha nenhum contato com você. Samantha cumpriu a sua promessa. Ela pediu a Elion que colocasse dois guardas como guarda-costas de Genevieve para evitar qualquer aproximação de Kairon. Dois dias passaram-se sem incidentes. Apesar do início conturbado ter a deixado abalada, Genevieve não queria permanecer assim por muito tempo. Era sua responsabilidade preparar chá e levá-lo ao escritório de Elion, onde Ren e Kairon passavam a maior parte do tempo. O chá de Kairon nunca estava adoçado, e as ervas na sua infusão eram medicinais, destinadas a idosos com problemas de ereção Sempre que Genevieve estava no jardim com Elion e Ren, ela divertia-se fazendo Kairon tropeçar numa raiz de árvore que brotava repentinamente na grama. Eram vinganças infantis, mas que lhe traziam algum alívio. Ela concentrava toda a sua frustração no jardim: regava as plantas, preparava cremes e venenos com plantas tóxicas e medicinais. Enquanto trabalhava, repetia um mantra mental para não cometer erros nas fórmulas: "Descascar apenas a raiz do Confrei, nunca o caule. Nem as pétalas são venenosas. Venenosas como…" — Genevieve O'Hara. Uma voz grave e rude interrompeu os seus pensamentos. A loira deu um pulo, surpresa; ninguém entrava na estufa além dela. Kairon estava ali, a poucos metros de distância. A sua mão estava no bolso da calças n***a, os seus olhos opacos e sem vida, os traços do rosto bonitos, mas aprisionados por uma máscara de gelo. Ele irradiava uma aura de glória e crueldade. Genevieve não se intimidou e o encarou com indiferença, embora fosse evidente a discrepância social entre eles pela maneira como estavam vestidos. Ela estava suja de barro e terra, apesar de usar um avental. A raiz da planta Confrei ainda estava em sua mão esquerda, enluvada, enquanto segurava um facão na direita. Em contraste, ele estava impecável, sem um fio de cabelo fora do lugar. — O que você quer? — Vim pedir desculpas pelo que fiz dois dias atrás. Não estava no meu juízo perfeito e acabei descontando as minhas frustrações em você. Já faz muito tempo desde que estive na superfície e perdi as minhas maneiras. Ele falou com firmeza e rapidez, mas Genevieve percebeu que não havia um pingo de arrependimento. Os seus intensos olhos verdes permaneciam inexpressivos. — Está desculpado. Agora, por favor, saia da minha estufa. Virando as costas, a loira voltou ao seu trabalho, descascando cuidadosamente a flor. No entanto, ela ainda sentia a presença dele ali. Ao olhar para trás, viu que Kairon ainda estava parado no mesmo lugar, imóvel. Ele começou a caminhar pela estufa, observando tudo ao seu redor. Quando finalmente falou, sua voz saiu baixa e ameaçadora: — Não pense que não sei das suas tentativas fúteis de vingança. O chá, a raiz da árvore... Genevieve deixou o facão sobre a mesa e se apoiou nela. Sabia que algo sério estava por vir. — Você pode-me culpar por querer vingança? Você tentou me estuprar. — Não posso culpá-la. Mas saiba que, se eu realmente quisesse machucá-la, acredite em mim, já o teria feito. — Deveria eu agradecer por você não ter-me machucado ainda? Genevieve estava a desafiar o perigo. Silêncio, Genevieve. Silêncio. Kairon a encarou por um momento e avançou na sua direção, aproximando-se perigosamente. Muito próximo. O nariz da loira quase tocava o peito do ruivo; ela teve que inclinar a cabeça para olhá-lo nos olhos. — Já fiz a minha parte ao desculpar-me. Nunca precisei usar compulsão na superfície para conseguir companhia. Mas estou aqui para avisar que, da próxima vez que você colocar aquelas ervas no meu chá, será um alguém que irá cuidar das consequências. E não será por compulsão, mas porque implorará por me querer. Ele saiu rápido e silencioso, tão abruptamente como havia entrado. Genevieve ficou imóvel, encostada na mesa, sem reação. Aquele homem era como um demônio. Desprezível. Mas incrivelmente atraente. Desde aquele dia, Genevieve e Kairon não se falaram mais. Ignoravam-se mutuamente ou trocavam olhares hostis. Nos dias que se seguiram, Genevieve e Samantha contaram apenas uma com a outra, já que Cerise agora participava das reuniões com Elion, Kairon e Ren.
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