Capítulo 5

1659 Palavras
O domingo chegou, e com ele um lindo sol de verão que prometia pelo menos uns 40°C. Fomos acordadas dessa vez com muito carinho com minha tia se enfiando nos colchões, nos dando beijos e fazendo um cafuné gostoso e por incrível que pareça falando baixo, nos pedindo para levantar pois meu tio já tinha saído para comprar pães para o nosso desjejum. ‘Que delícia acordar assim!’ Ela levantou nos deixando acordadas e conversando … Após nossa higiene matinal chegamos à cozinha que já tinha uma bela mesa montada com pães, queijos, mortadela defumada, ovos mexidos, café, leite e achocolatado. Meus tios já estavam sentados e como de costume todas nós o beijamos e sentamos. Para minha surpresa minha tia se antecipou me mostrando um copo preparado de achocolatado que ela fez questão de colocar na minha frente com aquele olhar característico que só ela tem para me desafiar a falar algo. Eu sabiamente engoli minhas palavras de protesto e apenas assenti olhando para aquela mesa e por incrível que pareça me deu vontade de comer pão com ovos mexidos, o que aparentemente deixou minha tia feliz pois eu vi um vislumbre de um sorriso em seu rosto. Percebendo o bom humor dela, Ju não perdeu tempo e abordou o assunto que tanto queríamos, afinal, ela sabe que minha tia iria dar a maior força pois quer que as meninas se interessem mais nas coisas da igreja … —Evelyn, que história é essa que a Lisi estava falando ontem sobre retiro de carnaval? — Ela quer que a gente vá fazer amizade com o pessoal da igreja, mas eu não quero ir. —Porque você não quer ir? Parece legal. A pergunta atinge o alvo porque minha tia logo pergunta: —É… porque você não quer ir? —Eu estava pensando em passar o carnaval com a Patrícia e as meninas. —Eu queria ir — Rapidamente Ju respondeu — E você Sol? —Me parece legal, também iria se pudesse. Respondi levantando o rosto e olhando minha tia. —O senhor deixaria a gente ir pai? Ju pergunta fazendo ele responder tranquilamente. —Se Évelynfor, vocês podem ir. —Mas eu não quero ir, pai. Évelyn declara decidida. —Então ninguém vai. Respondeu meu tio. —Mas isso não é justo! Não nascemos colada com ela pai. —Mas ela é a mais velha e vocês duas só vão se ela for. Disse ele com aquela voz que diz que essa é minha palavra final. —Poxa Evelyn… vamos, eu quero saber como é, a Sol também quer ir. A gente nunca te pediu nada. Você nem vai perceber que estamos lá. Disse a Ju com a cara mais cínica de todas. Enfim minha tia resolveu se manifestar e sem olhar para ninguém em particular soltou a bomba que deixou a Évelyn muito irritada naquela manhã. —Se você não for para o retiro da igreja com sua irmã e sua prima, vão ficar todas em casa durante todo o carnaval. Não vai sair pra lugar nenhum. —O quê ? Mas por quê? Isso não é justo? Eu não sou babá.— Nos olhava com muita raiva — Então vamos ficar todas em casa! — Decreta. —Sério que você prefere ficar em casa do que ir com a gente? —Vamos lá Evelyn, você vai gostar e sabe disso. As suas amigas da igreja vão estar lá. Seu pai e eu não iremos, mas confiamos em você para ir e levar as duas mocinhas aqui. Depois de bufar algumas vezes e de vários minutos em silêncio que criou um clima desconfortável enquanto todos nós comíamos em um silêncio angustiante enfim ela resolveu soltar … —Tá bom, mas eu só vou porque não quero ficar dentro dessa casa. Na mesma hora Ju se levantou e abraçou a irmã, beijando seu rosto sem parar e agradecendo entre um beijo e outro. E eu adorei a situação, com a esperança em meu coração de que minha mãe iria me deixar ir com elas. ‘Será que ela iria deixar?’ O restante do dia passou rápido, após o café da manhã nos arrumamos para ir na casa de outra tia que mora próximo porque íamos almoçar por lá. Chegando lá, aproveitamos o calor e passamos horas tomando banho de borracha, brincamos de vôlei, almoçando um churrasco delicioso que dessa vez não teve legumes para eu tentar fugir, o que foi muito bom. Logo eu tive que me arrumar para voltar para a casa, depois de pronta me despedi de todos e segui meu caminho. Consegui chegar tranquilamente antes de anoitecer, fui recebida com beijos e abraços. Me encaminhei direto para o banheiro, tomei um banho bem gostoso, coloquei uma roupa fresca e me joguei no sofá para relaxar e aguardar uma oportunidade para abordar sobre o retiro com a minha mãe. Que veio na hora do jantar enquanto ela perguntou como tinha sido na casa da minha tia. Contei por alto, me sentindo um pouco ansiosa para iniciar o assunto. ‘Porque será?’ Tentei parecer o mais normal possível ao começar o assunto: —Mãe, as meninas vão a um retiro de carnaval da igreja. Eu posso ir com elas? —O que fazem nesse retiro? Onde vai ser? Vai ter adultos lá? —Devem fazer coisas de igreja, vai ser numa casa de praia e com certeza vai ter adultos porque meus tios deixaram elas irem de boa. —Vou falar com sua tia essa semana e te respondo. —Tá bom. Minha esperança só aumentou, afinal ela não negou de imediato então o jantar seguiu normalmente entre vários assuntos diferentes. (...) Alguns dias depois … Estou deitada no quarto, lendo uma revista quando minha mãe coloca o rosto na porta e diz: —Falei com sua tia hoje e você pode ir no retiro de carnaval, mas é para respeitar a Évelyn porque ela será responsável por você. —Claro mãe. Respondi quase sem acreditar e com uma vontade enorme de gritar de alegria, me contentando em sorrir pra ela que me olhava desconfiada. —Depois te passo todas as informações que ela me passou. —Tá bom! E assim ela seguiu seu caminho, me deixando sozinha e com o coração batendo ritmado dentro do meu peito como uma bateria de escola de samba. Eu não entendi o porquê, mas sinto que algo bom vai acontecer e vai mudar a minha vida para sempre. A ansiedade para os preparativos tomou conta de mim e eu contei os dias para o carnaval chegar. (...) Enfim a sexta feira de carnaval chegou e eu estou com minha mala pronta, voltando para a casa das minhas primas, com o meu coração mais agitado que o normal. O combinado era se encontrar na porta da igreja às 20h pois muitas pessoas tinham que chegar dos seus trabalhos, então lá estávamos nós com nossas malas, colchões, ventiladores e muita animação … A frente da igreja está um verdadeiro tumulto, o ônibus já está parado e alguém arruma as malas dentro do bagageiro e uma mulher confirma na lista os nomes das pessoas que já estavam presentes. Nós já tínhamos passado por ela e aguardamos o ok para entrar no ônibus reunidas na calçada quando ouvimos ela pedir nossa atenção e anunciando: —Gente,estamos apenas aguardando 2 jovens que estão chegando do trabalho para partirmos então não saiam daqui porque assim que eles chegarem, saíremos! O pessoal gritou animado em comemoração. Voltamos a conversar na rodinha que estávamos junto com as amigas das minhas primas, mas quando eu olho para o lado e vejo dois caras chegando com suas malas, barraca de camping e ventilador. Porém, um em especial chamou muito a minha atenção. Eu senti meu coração descompassar e lutar para voltar ao ritmo normal, mas ao invés disso, ele acelerou tanto que eu pude sentir ele no meu ouvido. Minha boca secou e automaticamente eu passei a língua nos lábios na tentativa falha de resolver isso, sem falar que eu comecei a sentir uma sensação estranha no meu estômago. Parecia que tinha borboletas voando aqui dentro e por um tempo eu esqueci como respirar. ‘O que está acontecendo comigo?’ Eu não soube o que é, mas simplesmente não conseguia desviar os olhos dele. Ele parece ter uns 18 a 20 anos, é de uma altura mediana, branco, magro, cabelo com um corte baixo nas laterais e o topo mais alto (undercut), fazendo um topete estiloso na cor castanho, uma sobrancelha desenhada que se enquadra perfeitamente com seus olhos pequenos e levemente puxados também castanhos e uma boca rosada e carnuda na medida na minha opinião. Meus olhos buscavam os seus detalhes quando fui tirada do meu transe pela Ju me chamando pois a mulher da lista já estava chamando para entrar no ônibus pois os jovens que faltavam tinham acabado de chegar. Ela me puxou para dentro do ônibus com sua ansiedade de sempre, nos sentamos mais para o fundo e para o meu deleite vi o rapaz que chamou minha atenção entrando e se direcionando ao seu assento um pouco mais a nossa frente do lado direito do ônibus enquanto nós estávamos no esquerdo. O tumulto se instalou dentro do ônibus, só se ouvia vozes de adolescentes e jovens conversando paralelamente, até que o pastor da igreja entrou e pediu silêncio. Todos se calaram em seguida, ele relatou as regras que deveríamos seguir durante aqueles dias e fez uma rápida oração agradecendo a Deus por nossas vidas, pedindo proteção durante nossa viagem e estadia naquela casa de praia durante o carnaval. Ao terminar ele sentou em seu lugar e o motorista saiu com o ônibus, e o que se ouviu em seguida foi a gritaria de todos comemorando o início do nosso carnaval. Mas eu, eu continuava hipnotizada, olhando aquele rapaz que não sabia quem era e que parecia não ter notado a minha presença.
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