O silêncio naquela casa nunca foi tão c***l.
Antes… havia risadas.
Havia perfume de flores frescas pelos corredores.
Havia vida.
Agora… só restava o eco.
Eva estava sentada no chão do quarto da mãe, abraçando um dos vestidos dela contra o peito. O cheiro ainda estava ali. Fraco… mas suficiente pra doer.
Um mês.
Um mês desde que tudo acabou.
Desde que o mundo dela foi enterrado junto com a única pessoa que realmente a amava.
— Você precisa sair desse quarto — a voz do pai cortou o ar, fria, impaciente.
Eva não respondeu.
Ela já não respondia mais.
Passos firmes se aproximaram. Ele parou na porta, observando a filha como se fosse um incômodo.
— Isso já passou dos limites. Você precisa seguir em frente.
Seguir em frente.
Como…?
Ela levantou o rosto devagar, os olhos vermelhos, sem brilho.
— A mamãe morreu — a voz saiu baixa, quebrada. — Não foi um resfriado. Não foi algo simples.
Ele suspirou, irritado.
— Eu sei muito bem o que aconteceu. Mas a vida continua.
A vida continua.
Para ele, sim.
E foi naquele momento que Eva percebeu: ele não sentia falta.
Não como ela.
Não de verdade.
Mas nada poderia preparar Eva para o que viria a seguir.
—
O som de um carro chegando na mansão ecoou pela tarde.
Eva franziu a testa, limpando o rosto. Não esperava visitas. Não agora.
Desceu as escadas lentamente… e então parou.
O mundo pareceu inclinar.
Uma mulher estava parada no hall.
Elegante. Sorriso calculado. Olhos que analisavam tudo com desprezo disfarçado.
Ao lado dela… uma garota.
Loura. Olhos azuis. Bonita.
E com um sorriso… venenoso.
— Eva — disse o pai, como se estivesse anunciando algo banal. — Quero que conheça Helena.
A amante.
O coração de Eva disparou, mas não por emoção — por choque.
— E essa é a filha dela, Lídia.
Lídia inclinou levemente a cabeça, analisando Eva dos pés à cabeça.
— Então você é a filha — disse, com um tom doce demais pra ser verdadeiro.
Eva não conseguiu responder.
Seu olhar foi direto para o pai.
— O que… é isso?
Ele passou a mão no relógio, impaciente.
— Elas vão morar aqui.
As palavras caíram como um golpe seco.
— O quê?
— Você ouviu.
O ar sumiu dos pulmões dela.
— A mamãe morreu faz um mês…
— E eu não vou viver preso ao passado — ele cortou, duro.
Helena sorriu discretamente.
Lídia… não disfarçou.
Ela gostou daquilo.
Eva deu um passo para trás, como se tivesse sido empurrada.
— Você… trouxe ela pra dentro da casa da mamãe?
Silêncio.
Pesado.
Frio.
— Essa casa é minha — ele respondeu. — E eu faço o que quiser.
Algo dentro de Eva quebrou.
De verdade, dessa vez.
—
Os dias seguintes foram um inferno.
Helena mexia nas coisas da mãe dela.
Mudava a decoração.
Apagava cada lembrança.
E Lídia…
Lídia transformava tudo em um jogo.
— Você ainda chora? — perguntou um dia, encostada na porta do quarto. — Já passou, não?
Eva ignorou.
— Deve ser difícil… perder tudo assim — Lídia continuou, com um sorriso leve. — Ainda bem que algumas pessoas sabem se adaptar.
Eva levantou, encarando ela.
— Sai do meu quarto.
Lídia riu baixo.
— Por enquanto.
—
Mas o pior veio depois.
Numa noite silenciosa… tudo explodiu.
Eva desceu ao ouvir vozes.
Discussão.
Alta.
Quando chegou na sala, viu Helena chorando — falsa.
— Ela me desrespeitou! — Helena dizia. — Eu só tentei ajudar!
— Isso é mentira! — Eva rebateu, tremendo.
O pai virou-se para ela com os olhos cheios de irritação.
— Chega.