A queda

609 Palavras
O silêncio naquela casa nunca foi tão c***l. Antes… havia risadas. Havia perfume de flores frescas pelos corredores. Havia vida. Agora… só restava o eco. Eva estava sentada no chão do quarto da mãe, abraçando um dos vestidos dela contra o peito. O cheiro ainda estava ali. Fraco… mas suficiente pra doer. Um mês. Um mês desde que tudo acabou. Desde que o mundo dela foi enterrado junto com a única pessoa que realmente a amava. — Você precisa sair desse quarto — a voz do pai cortou o ar, fria, impaciente. Eva não respondeu. Ela já não respondia mais. Passos firmes se aproximaram. Ele parou na porta, observando a filha como se fosse um incômodo. — Isso já passou dos limites. Você precisa seguir em frente. Seguir em frente. Como…? Ela levantou o rosto devagar, os olhos vermelhos, sem brilho. — A mamãe morreu — a voz saiu baixa, quebrada. — Não foi um resfriado. Não foi algo simples. Ele suspirou, irritado. — Eu sei muito bem o que aconteceu. Mas a vida continua. A vida continua. Para ele, sim. E foi naquele momento que Eva percebeu: ele não sentia falta. Não como ela. Não de verdade. Mas nada poderia preparar Eva para o que viria a seguir. — O som de um carro chegando na mansão ecoou pela tarde. Eva franziu a testa, limpando o rosto. Não esperava visitas. Não agora. Desceu as escadas lentamente… e então parou. O mundo pareceu inclinar. Uma mulher estava parada no hall. Elegante. Sorriso calculado. Olhos que analisavam tudo com desprezo disfarçado. Ao lado dela… uma garota. Loura. Olhos azuis. Bonita. E com um sorriso… venenoso. — Eva — disse o pai, como se estivesse anunciando algo banal. — Quero que conheça Helena. A amante. O coração de Eva disparou, mas não por emoção — por choque. — E essa é a filha dela, Lídia. Lídia inclinou levemente a cabeça, analisando Eva dos pés à cabeça. — Então você é a filha — disse, com um tom doce demais pra ser verdadeiro. Eva não conseguiu responder. Seu olhar foi direto para o pai. — O que… é isso? Ele passou a mão no relógio, impaciente. — Elas vão morar aqui. As palavras caíram como um golpe seco. — O quê? — Você ouviu. O ar sumiu dos pulmões dela. — A mamãe morreu faz um mês… — E eu não vou viver preso ao passado — ele cortou, duro. Helena sorriu discretamente. Lídia… não disfarçou. Ela gostou daquilo. Eva deu um passo para trás, como se tivesse sido empurrada. — Você… trouxe ela pra dentro da casa da mamãe? Silêncio. Pesado. Frio. — Essa casa é minha — ele respondeu. — E eu faço o que quiser. Algo dentro de Eva quebrou. De verdade, dessa vez. — Os dias seguintes foram um inferno. Helena mexia nas coisas da mãe dela. Mudava a decoração. Apagava cada lembrança. E Lídia… Lídia transformava tudo em um jogo. — Você ainda chora? — perguntou um dia, encostada na porta do quarto. — Já passou, não? Eva ignorou. — Deve ser difícil… perder tudo assim — Lídia continuou, com um sorriso leve. — Ainda bem que algumas pessoas sabem se adaptar. Eva levantou, encarando ela. — Sai do meu quarto. Lídia riu baixo. — Por enquanto. — Mas o pior veio depois. Numa noite silenciosa… tudo explodiu. Eva desceu ao ouvir vozes. Discussão. Alta. Quando chegou na sala, viu Helena chorando — falsa. — Ela me desrespeitou! — Helena dizia. — Eu só tentei ajudar! — Isso é mentira! — Eva rebateu, tremendo. O pai virou-se para ela com os olhos cheios de irritação. — Chega.
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