Os dias passaram.
Lentos… e pesados.
A casa continuava fria, silenciosa ...quase como se o tempo ali não existisse. Mas, para Eva… cada segundo parecia longo demais.
Ela já não estava mais machucada por fora.
Mas por dentro…
cada dia doía mais.
Vinícius Ferraz era um homem impossível de alcançar.
Ele saía cedo.
Voltava tarde.
E quando estava em casa…
era como se não estivesse.
Sempre distante.
Sempre fechado.
Sempre… inalcançável.
E ainda assim…
Eva não conseguia parar.
Na primeira tentativa, foi simples.
— Bom dia…
Ela disse, parada perto da mesa da cozinha, enquanto ele tomava café.
Ele apenas assentiu.
Nem sequer olhou.
Como se ela fosse… nada.
Eva forçou um pequeno sorriso.
— Eu fiz café também… se quiser
— Já tenho .ele cortou, sem emoção.
Fim.
Na segunda vez, ela tentou puxar conversa.
— Você trabalha com o quê, exatamente?
Silêncio.
Ele continuou olhando o celular.
— Vinícius?
— Não é da sua conta.
Direto.
Frio.
Sem espaço.
Na terceira vez…
ela tentou algo diferente.
Apareceu na sala com um vestido simples, mas bonito. Cabelo arrumado. Perfume leve.
Ela sabia que ele estava ali.
Sentado.
Lendo.
Ela passou lentamente na frente dele.
De propósito.
Esperou.
Um olhar.
Um mínimo sinal.
Qualquer coisa.
Nada.
Nem sequer levantou os olhos.
Como se ela… não existisse.
Aquilo começou a machucar.
De verdade.
Mesmo assim…
ela continuou.
Todos os dias.
Tentando.
Insistindo.
Se aproximando.
— Você sempre foi assim? perguntou uma noite, encostada na porta do escritório.
Ele nem levantou o olhar dos papéis.
— Assim como?
— Frio.
Uma pausa.
Pequena.
Quase imperceptível.
— Sim.
A resposta veio simples.
Sem explicação.
Sem a******a.
— Você não gosta de ninguém? — ela tentou de novo.
Dessa vez, ele levantou os olhos.
Devagar.
E aquilo fez o coração dela acelerar.
— Isso é problema meu.
A forma como ele olhou…
fez Eva engolir seco.
Mas, ao mesmo tempo…
prendeu ela ainda mais.
Era como bater em uma parede.
E continuar.
Mesmo sabendo que ia doer.
Com o tempo…
ela começou a mudar.
Sem perceber.
Ou talvez… percebendo, mas não conseguindo parar.
Ela prestava atenção nos horários dele.
Nos passos.
Na forma como ele falava.
No silêncio dele.
Tudo.
Qualquer detalhe.
Qualquer reação mínima.
Virava… algo.
Um dia, ela deixou um bilhete na mesa.
"Obrigada por tudo."
Simples.
Pequeno.
Sincero.
Ele viu.
Leu.
E deixou ali.
Sem resposta.
Naquela noite…
ela chorou.
Baixo.
Sozinha.
Como antes.
Mas diferente.
Porque agora… não era só dor.
Era rejeição.
Mesmo assim…
no dia seguinte…
ela tentou de novo.
— Você vai sair hoje?
— Vou.
— Posso ir com você?
Silêncio.
Ele levantou, pegou as chaves.
— Não.
Simples assim.
E foi embora.
A porta fechou.
E dessa vez…
Eva não segurou.
Ela respirou fundo, tentando se controlar… mas as lágrimas vieram.
— Por que você fez isso comigo…? sussurrou.
Não era justo.
Ele salvou ela.
Trouxe ela pra perto.
Protegeu.
E agora…
tratava como se ela não fosse nada.
Mas o pior não era isso.
O pior…
era que, mesmo assim
ela ainda queria ele.
Naquela mesma noite…
Vinícius voltou mais tarde do que o normal.
A casa estava escura.
Silenciosa.
Como sempre.
Mas algo chamou a atenção dele.
Uma luz acesa.
Fraca.
Na sala.
Ele entrou.
E encontrou Eva.
Dormindo no sofá.
Encolhida.
Pequena.
Vulnerável.
O rosto ainda tinha marcas de choro.
Ele parou.
Imóvel.
Observando.
Por alguns segundos… apenas ficou ali.
Sem expressão.
Sem reação.
Mas os olhos…
entregavam algo.
Algo que ele não queria sentir.
Ele se aproximou devagar.
Muito devagar.
Como se qualquer movimento errado pudesse quebrar aquilo.
Eva respirava leve.
Tranquila.
Finalmente em paz.
Pela primeira vez… desde que chegou.
Vinícius olhou para o rosto dela.
E algo apertou dentro dele.
Incomodando.
Irritando.
Descontrolando.
Ele estendeu a mão.
Parou no meio do caminho.
Hesitou.
E então…
recuou.
Como sempre.
Pegou uma manta e cobriu ela, com cuidado.
Sem fazer barulho.
Sem acordar.
Sem deixar rastros.
Antes de se afastar…
olhou mais uma vez.
E murmurou, baixo:
— Para de insistir…
Mas a voz…
não parecia tão firme quanto antes.
No dia seguinte…
quando Eva acordou…
a manta ainda estava sobre ela.
E, pela primeira vez…
um pequeno sorriso apareceu.
Fraco.
Mas real.
Porque, mesmo sem palavras…
mesmo sem olhar…
mesmo sem nada
ela sentiu.
Ele não era indiferente.
Não completamente.
E isso…
foi o suficiente pra ela continuar.