37. Ayla

1109 Palavras
A gente desceu em silêncio. Não aquele silêncio pesado que machuca, era um silêncio meio constrangido, meio risonho, como quando algo bom é interrompido e você ainda não sabe se guarda ou se reclama. Victor caminhou do meu lado, uma mão no bolso, a outra coçando a nuca, claramente incomodado. Eu observava o jeito dele mudar quando a casa ficava pra trás, como se o corpo entrasse de novo em modo alerta. Quando a gente chegou perto do carro, ele soltou o ar de uma vez só, exagerado. — Foi m*l. — ele disse, abrindo a porta pra mim. — Minha mãe acordou num dia r**m. — Dia r**m tipo... — eu comecei, sentando — ...tempestade nível Dona Tereza? Ele riu, curto. — Pior. Porque a Tereza xinga e depois faz café. Minha mãe xinga e depois faz relatório mental de tudo que eu fiz errado desde 2003. — Ela parece... intensa. — Eu não consegui segurar o sorriso. — Ela é. — entrou, ligando o motor. — E hoje claramente resolveu fiscalizar minha felicidade. Victor fechou a porta e deu a volta no carro. O carro começou a descer o morro devagar. Eu encostei a cabeça no vidro por um segundo, sentindo aquela mistura estranha de querer ficar e precisar ir. — Ela não me odiou. — eu comentei, mais pra mim do que pra ele. — Não odiou, não. — ele respondeu rápido demais. — Se tivesse odiado, tinha sido pior. Aquilo ali foi ela avaliando se tu presta. — E eu passo? — perguntei, meio brincando. Victor olhou pra mim de lado, sério agora. — Passa. — disse. — Se não passasse, eu já tava ouvindo sermão até agora. Eu ri baixo, mas algo dentro de mim ficou quente com aquela certeza simples. O carro seguiu em silêncio por alguns minutos, até ele quebrar com aquela voz meio chateada, meio provocadora: — Mas atrapalhou nosso lovizinho, né. Eu virei o rosto pra ele. — Lovizinho? — É. — ele deu de ombros. — Aquele momento bonito, vista linda, abraço... aí entra minha mãe parecendo fiscal do Procon. Eu gargalhei de verdade. — Você ficou ofendido. — Fiquei. — ele admitiu, sem vergonha nenhuma. — Eu tava curtindo. O jeito que ele falou curtindo não tinha nada de s****l. Tinha... presença. Isso mexeu comigo. — Eu também tava. — eu confessei, olhando pra frente. Ele diminuiu um pouco a velocidade. — Então deixa eu te falar uma coisa. — disse, num tom mais baixo. — Aquilo ali não acabou, não. Eu engoli seco. — Não? — Não. — ele confirmou. — Só foi interrompido. O carro parou perto da pensão. A rua ainda tinha movimento, gente conversando, vida acontecendo. Ele desligou o motor, mas não abriu a porta. — Se tu quiser — ele começou, escolhendo as palavras — ...pode ir lá buscar de novo. Meu coração deu um pulo pequeno e traidor. — Buscar o quê? — fingi não entender. Ele sorriu de canto, daquele jeito que sempre desmontava minha tentativa de controle. — Eu. — disse. — A casa. A vista. O abraço no mirante. O café sem graça, mas comigo. Eu mordi o lábio, tentando não sorrir grande demais. — Mesmo com sua mãe lá? — Principalmente com ela lá. — ele respondeu. — Porque aí tu vê que eu não te escondo de nada. Aquilo me atravessou fundo. — Você não tem medo de misturar as coisas? — perguntei, sincera. — Eu... você... sua vida aqui. Victor inclinou um pouco o corpo na minha direção, apoiando o braço no banco. — Ayla, minha vida já é toda misturada. — disse. — Poder, morro, família, perigo... o que eu escolho ou não é quem eu deixo entrar nisso tudo. Ele estendeu a mão e tocou meus dedos de leve, sem entrelaçar, só encostando. — E contigo eu tô deixando. Eu senti o velho impulso de recuar, de dizer vai devagar, não promete, não cria coisa. Mas também senti outra coisa, nova, quase assustadora: vontade de tentar. — Eu não sei quando. — eu disse. — Mas... talvez. O sorriso dele foi lento, satisfeito, sem cobrança. — Tá ótimo. — respondeu. — Eu não corro atrás de talvez. Eu só fico pronto. Ele abriu a porta pra mim. Antes de sair, eu me inclinei e dei um beijo rápido na bochecha dele. Um beijo simples. Cotidiano. Quase tímido. — Obrigada pelo café. — eu falei. Ele segurou meu pulso de leve antes que eu saísse de vez. — Da próxima vez — murmurou — a gente termina sem interrupção. Meu rosto esquentou. — Veremos, Victor. — Veremos. — repetiu, soltando minha mão. Quando eu subi as escadas da pensão, sentindo o cheiro conhecido de casa e ouvindo a voz da Dona Tereza em algum lugar, eu percebi uma coisa com clareza assustadora: eu não tava sendo puxada. Eu tava escolhendo voltar. (…) A ONG tava naquele ritmo bonito de caos organizado: criança correndo com papel na mão, tinta em mesa, gente carregando caixa, alguém chamando "Rita!" como se fosse sirene. Eu tava no canto da sala maior, separando uns materiais, tentando parecer concentrada, e falhando miseravelmente, porque minha cabeça não parava de voltar pro cheiro de café na casa dele, pra vista do mirante, pra forma como ele me abraçou como se eu fosse coisa dele sem me prender. E, pior, eu tinha voltado pra pensão com uma sensação ridícula de falta. Como se meu corpo tivesse aprendido um lugar novo e agora estranhasse o antigo. Rita apareceu do meu lado com uma prancheta na mão e aquele olhar de quem fareja segredos. — Tu tá com cara de quem fez merda. — ela anunciou, sem bom dia, sem nada. Eu soltei o ar devagar e continuei alinhando os lápis de cor como se aquilo fosse salvar minha dignidade. — Eu não fiz merda nenhuma. — Fez sim. — ela cantou, já virando pra chamar as outras. — Josi! Carla! Vem cá. A loira tá com cara de apaixonada. — Rita! — Eu levantei o rosto na hora, desesperada. Josi veio rindo, limpando a mão na calça, e Carla veio atrás com uma caixa. — Ih... — Josi fez a cara de quem gosta de fofoca como se fosse esporte. — Que foi? Ela tá diferente mesmo. Carla me olhou de cima a baixo, com aquele sorriso que parecia julgamento. — Tá com brilho. — ela decretou. — Brilho de mulher que tá vivendo. Eu senti o rosto esquentar. — Eu só... — eu tentei achar palavra, mas minha boca travou. A verdade tava grande demais pra caber. — Eu acho que eu me apaixonei.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR