No caminho de volta, no carro, eu fiquei olhando Victor pelo canto do olho. Ele tava quieto demais. Tenso demais. E o boné ainda cobria parte do rosto como se ele não quisesse ser visto por ninguém.
Quando a gente subiu pro morro de novo e a sensação de território conhecido voltou, ele pareceu respirar melhor. Como se o corpo dele finalmente tivesse entrado em casa.
Na porta da pensão, ele segurou minha mão antes de eu descer.
— Tu gostou? — perguntou.
— Gostei. — eu respondi, sincera. — Muito.
Ele sorriu, mas dessa vez tinha algo triste ali, escondido.
— Então valeu.
— Valeu o quê?
Ele respirou fundo e, finalmente, me encarou com a coragem que ele tinha pra tudo, menos pra se expor.
— Valeu eu ter saído de onde eu não devia. — ele disse, baixo. — Só pra te ver com essa cara.
Meu corpo gelou.
— Como assim "não devia"?
Victor apertou minha mão uma última vez, como se dissesse não some, e soltou.
— Entra, Loirinha. — ele falou, já abrindo a porta do carro. — Amanhã... eu converso contigo direito.
Eu fiquei parada por um segundo, sentindo o vento da subida bater no meu rosto e aquela sensação incômoda de coisa m*l explicada se espalhar pelo peito.
Victor já tinha dado dois passos pra frente quando percebeu que eu não tinha entrado.
— Que foi, Loirinha? — ele perguntou, virando o rosto.
Eu respirei fundo. Se eu tinha aprendido alguma coisa naquele dia, era que engolir vontade sempre me levava pro mesmo lugar: silêncio, culpa e arrependimento.
— Eu não quero subir sozinha. — falei, antes que a coragem desistisse.
— Ué? — Ele franziu a testa de leve. Eu cheguei mais perto, o coração batendo alto demais pra uma frase tão simples.
— Eu quero ir com você. — fiz uma pausa curta. — Quero ir pra sua casa.
O ar entre a gente mudou.
Victor não sorriu. Não fez piada. Não falou gracinha. Ele só me olhou, daquele jeito atento, como se estivesse medindo não meu desejo, mas o peso daquilo.
— Tem certeza? — perguntou, baixo.
— Tenho. — respondi, firme. — Hoje eu já enfrentei coisa demais pra voltar pra um quarto vazio agora.
Ele passou a mão pelo rosto devagar, como quem tenta organizar pensamento.
Victor soltou o ar, assentiu uma vez e abriu a porta do carro de novo.
— Então vem. — falou. — Mas sem fantasia. Sem achar que isso aqui é conto de fadas.
— Eu já perdi a fé em conto de fadas faz tempo. — respondi, entrando.
O trajeto até a casa dele foi curto, mas suficiente pra eu perceber como o morro mudava de cara conforme a gente subia. As ruas iam ficando mais silenciosas, as casas mais espaçadas, menos improviso, mais estrutura. Ainda era morro - gente na rua, música distante, luzes irregulares - mas tinha outra energia ali.
O carro parou diante de um portão grande, discreto, de metal escuro. Nada espalhafatoso. Nada chamativo demais. Só... sólido.
Victor desceu primeiro, digitou um código rápido, e o portão se abriu deslizando com suavidade. Eu engoli seco.
— Você mora aqui? — perguntei, sem conseguir esconder a surpresa.
Ele deu um meio sorriso. O carro entrou, o portão fechou atrás da gente, e quando eu saí... eu precisei de um segundo pra processar.
A casa era grande. Não grande de ostentação vazia. Grande de projeto pensado. Moderna, linhas retas, concreto aparente misturado com vidro, iluminação quente embutida. Um jardim bem cuidado na frente, com plantas altas e um caminho de pedras claras levando até a porta principal.
E, atrás... atrás tinha vista.
O Rio inteiro parecia se abrir ali. Luzes espalhadas como constelação torta, o recorte das montanhas, o brilho distante da água refletindo a cidade.
— Victor... — minha voz saiu baixa, quase sem querer.
Ele ficou do meu lado, mãos nos bolsos.
— Antes que tu pergunte: sim, eu tenho dinheiro. — disse. — Muito. Mas eu nunca quis sair daqui.
Eu virei pra ele.
— Por quê?
Ele demorou um segundo.
— Porque isso aqui é meu lugar. — respondeu. — E porque poder de verdade não é fugir de onde você veio.
A gente entrou.
Por dentro, a casa continuava surpreendendo: ampla, silenciosa, cheirando a coisa limpa e organizada. Piso de madeira escura, móveis modernos sem exagero, quadros grandes nas paredes, nada de ostentação óbvia, mas tudo caro, bem escolhido. A sala se abria inteira pra uma parede de vidro que dava direto pra vista da cidade.
Era uma casa de rico. Sem dúvida.
Mas era uma casa viva.
— Você... mora sozinho? — perguntei, tirando o sapato sem nem pensar.
— Moro. — ele respondeu. — De vez em quando aparece gente demais, mas dormir... sou só eu.
Eu caminhei devagar, passando a mão de leve pelo encosto do sofá, observando os detalhes. Era estranho ver aquele contraste: o homem que andava de moto sem capacete, que comia na casa da tia e levava bronca... vivendo ali.
— Isso aqui quebra completamente minha imagem de você. — confessei.
Ele riu baixo.
— A maioria das pessoas tem imagem errada de mim. — me olhou de canto. — Tu inclusa.
Eu parei perto da parede de vidro, olhando a vista.
— É bonito demais. — falei. — Parece outro mundo.
Victor chegou atrás de mim, sem tocar de imediato.
— É o mesmo mundo. — disse. — Só visto de cima.
Eu senti a presença dele, o calor, a proximidade. Meu corpo respondeu antes da cabeça.
— Você ficou diferente no asfalto. — eu disse, ainda olhando pra frente. — Mais tenso.
Ele ficou quieto por um segundo.
— Porque lá eu não mando em nada. — respondeu. — Aqui... eu sei onde piso.
Eu virei o rosto pra ele.
— Você correu algum risco hoje?
Ele me encarou. Não desviou.
— Corri.
— Por mim?
— Por você. — confirmou. — E porque eu quis.
Aquilo me deu um misto de culpa e algo mais quente, mais perigoso.
— Você não devia ter feito isso. — falei, mas minha voz não tinha bronca nenhuma.
— Eu sei. — respondeu. — Mas eu faria de novo.
— Victor... — Eu respirei fundo, sentindo o coração acelerar.
— Ayla. — ele me chamou pelo nome, e isso sempre mudava tudo.
Eu dei um passo mais perto.
— Eu não quero que você se machuque por minha causa.
Ele levantou a mão devagar e tocou meu rosto, sem pedir permissão, mas também sem pressa. O polegar passou de leve pela minha bochecha, gesto íntimo, seguro.
— Tu não é causa de problema. — disse, firme. — Tu é escolha.
Meu corpo inteiro arrepiou.
O beijo veio diferente dos outros. Mais lento. Mais carregado. Menos urgência, mais intenção. A mão dele foi pra minha cintura, firme, me puxando pra perto, e eu senti o chão sumir um pouco sob os pés.
Eu subi as mãos pelo peito dele, sentindo o tecido da camisa, o calor por baixo, a solidez daquele corpo que parecia carregar metade do mundo nas costas.
A gente se afastou só o suficiente pra respirar.