40. Ayla

1383 Palavras
O dia amanheceu quente demais pro horário. O tipo de calor que não deixa a gente fingir normalidade, que cola a roupa na pele e faz o corpo pedir alguma coisa, movimento, toque, distração. Eu acordei com essa sensação inquieta, como se algo estivesse prestes a acontecer antes mesmo de acontecer. A pensão ainda tava meio silenciosa. Dona Tereza tinha saído cedo pra resolver coisa na rua, e a casa parecia suspensa naquele intervalo raro entre o barulho da noite e o caos do almoço. Eu fui pro corredor de chinelo, cabelo preso de qualquer jeito, indo buscar água. Foi quando ouvi passos na escada. Passos que eu já reconhecia sem precisar ver. Meu corpo reagiu antes da cabeça. Um alerta quente, imediato. Eu parei no meio do corredor, segurando o copo, o coração acelerando sem pedir licença. Victor apareceu como se fosse dono daquele espaço, e era, de certo modo. Camisa preta, expressão fechada que suavizou no segundo em que me viu. — Bom dia, Loirinha. — a voz veio baixa, carregada. Meu estômago deu um nó. — Bom dia. — respondi, tentando soar normal, falhando miseravelmente. Ele parou a poucos centímetros de mim, perto demais pro corredor estreito da pensão. — Tu sumiu ontem. — comentou, mas não tinha acusação nenhuma ali. Só constatação. — Eu disse que a gente ia conversar depois. — rebati, levantando o queixo. — Eu sei. — respondeu. — E eu respeitei. O jeito como ele disse respeitei mexeu comigo mais do que qualquer cobrança. O corredor parecia menor. Ou talvez fosse só o espaço entre nós que tivesse desaparecido. — Então... — eu comecei, mas perdi a frase quando senti a mão dele encostar na parede atrás de mim, apoiando o braço, me cercando sem tocar. — Então nada. — ele murmurou. — Eu só vim te ver. Meu corpo inteiro ficou em alerta. Não de medo. De antecipação. — Victor... — eu falei, num tom que era meio aviso, meio pedido. — Ayla. — ele respondeu meu nome do jeito que sempre desmontava minha tentativa de controle. Foi rápido. Não deu tempo de ensaio. Eu subi a mão pela camisa dele e puxei de leve. Só o suficiente pra acabar com qualquer distância. Ele entendeu na hora. A boca dele encontrou a minha com fome contida, como se tivesse segurado aquilo desde o café da manhã do dia anterior. O beijo não foi calmo. Foi urgente, quente, cheio de coisa não dita. Victor segurou minha cintura com firmeza, me prensando de leve contra a parede do corredor. Não tinha delicadeza ensaiada, tinha necessidade. O beijo aprofundou, lento e intenso ao mesmo tempo, como se a gente estivesse tentando resolver tudo ali, com a boca. Eu gemi baixo sem perceber, as mãos agarrando a camisa dele, sentindo o corpo forte, presente. Ele passou a mão pelo meu pescoço, subiu pro meu cabelo, segurou sem puxar, controle absoluto, consciência total do limite. Quando a gente se separou, foi por falta de ar, não de vontade. Ele encostou a testa na minha, respirando pesado. — Isso... — ele murmurou — ...era pra ser só um "bom dia". Eu ri, ainda sem fôlego. — Você aparece aqui assim e espera o quê? Ele sorriu de canto, aquele sorriso perigoso. — Esperava exatamente isso. Eu ainda sentia o beijo dele na boca, o corpo vibrando, a cabeça girando. — A gente precisa conversar. — eu disse de novo, agora com mais firmeza. Ele assentiu, sem soltar minha cintura. — Eu sei. — respondeu. — Mas depois desse beijo. Eu mordi o lábio, tentando não sorrir. — Você sempre bagunça tudo. — Não. — ele corrigiu, sério de repente. — Eu só mexo no que já tá bagunçado. Passos ecoaram no fim do corredor. Alguém entrando na pensão. Victor se afastou um pouco, mas não completamente. A mão dele ainda encostava na minha, como promessa silenciosa. — Mais tarde. — ele disse, baixo. — Mais tarde. — eu confirmei. Eu fiquei alguns segundos parada no corredor depois que ele foi embora, encarando o nada como se tivesse resposta escrita no ar. Meu corpo ainda tava quente, a boca formigando, o coração batendo rápido demais pra uma manhã comum. E o pior, ou talvez o mais constrangedor, era a sensação ridícula de estar... boba. Boba de um jeito adolescente. Eu mordi o lábio inferior sem perceber, aquele gesto automático de quem tenta segurar um sorriso que insiste em nascer. A mente ia e voltava na cena: o jeito que ele apareceu, a forma como falou meu nome, a mão firme na minha cintura. Tudo simples. Tudo intenso demais pra caber em mim direito. — Para, Ayla. — murmurei sozinha, como se fosse possível mandar no próprio coração. Não era. Eu fui pra cozinha ainda meio desligada, peguei uma caneca, coloquei café e fiquei olhando o líquido escuro como se fosse profundo. Dei o primeiro gole e quase fiz careta, forte demais. Café de Dona Tereza nunca perdoava. Sentei à mesa e apoiei o queixo na mão, olhando pro vazio com aquela cara clássica de quem não tá presente em lugar nenhum. — Ridícula. — eu sussurrei, pra mim mesma. Tomei mais um gole de café, respirei fundo e tentei me puxar de volta pro agora. Hoje tinha coisa pra fazer. Vida real. ONG. Gente contando comigo, e isso era importante demais pra ser deixado de lado por causa de homem. Mesmo um homem como Victor. Quando terminei o café, subi pro quarto e comecei a me arrumar pra ajudar as meninas. Escolhi uma roupa confortável, simples, cabelo preso de um jeito prático. Passei um hidratante no rosto, um pouco de protetor solar, nada além disso. Mas, mesmo assim, fiquei alguns segundos a mais em frente ao espelho. Não me olhando como produto. Me olhando como alguém que tinha acordado... diferente. Mais leve. Mais aberta. Mais vulnerável e, estranhamente, menos quebrada. Eu desci as escadas com a bolsa no ombro e aquele sorriso discreto que insistia em aparecer. No caminho até a ONG, eu cumprimentava as pessoas e, em alguns momentos, me pegava olhando pro nada de novo, viajando sem querer. Era isso. Eu tava apaixonada. Na ONG, o clima já tava diferente. Rita tava andando de um lado pro outro com uma lista na mão, Josi organizava cadeiras, Carla separava caixas com produtos de beleza: escovas, cremes, esmaltes, maquiagem simples. O tal dia de beleza das mulheres do morro finalmente ia acontecer. — Olha ela. — Rita anunciou assim que me viu. — Chegou com cara de quem dormiu abraçada com pensamento bonito. Eu revirei os olhos, mas não consegui evitar o sorriso. — Bom dia pra você também. — Não disfarça, não. — Josi riu. — Tá com brilho de novela das seis. — Gente, foco. — Carla chamou, prática. — Hoje tem mulher que nunca sentou numa cadeira só pra cuidar de si. Vamos fazer direito. Aquilo me puxou de volta pra realidade de um jeito bom. Eu larguei a bolsa, arregaçei as mangas e comecei a ajudar. Organizei as mesas, alinhei os espelhos, separei toalhas limpas. Cada detalhe importava. Cada gesto tinha peso. Enquanto eu trabalhava, observava o espaço ganhar outra energia. Não era sobre vaidade. Era sobre pausa. Sobre cuidado. Sobre permitir que aquelas mulheres fossem vistas, nem que fosse por elas mesmas, por algumas horas. Uma senhora passou a mão nos cremes com cuidado exagerado, como se tivesse medo de gastar. — Pode usar, dona. — eu falei, sorrindo. — É pra isso mesmo. Ela me olhou surpresa. — Pra mim? — Pra senhora. — corrigi. — Só pra senhora. O sorriso que ela deu foi pequeno, tímido, mas sincero. E aquilo me tocou num lugar fundo. Em algum momento, enquanto eu ajudava a organizar as cadeiras, eu me peguei mordendo o lábio de novo, distraída, olhando pro nada. Rita apareceu do meu lado como se tivesse radar. — Pensando nele de novo? — Talvez. — eu admiti, sem energia pra negar. Ela sorriu, mais suave dessa vez. — Aproveita. — disse. — Paixão assim não aparece todo dia. Eu respirei fundo, olhando em volta: mulheres chegando, risadas tímidas, expectativa no ar. Eu não sabia onde aquilo com o Victor ia dar. Não sabia quanto ia durar. Não sabia quantas conversas difíceis ainda vinham pela frente.
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