30. Ayla

1289 Palavras
A descida do morro com ele foi diferente daquela da moto no começo. Dessa vez, tinha carro e eu notei que ele tava mais... tenso. Não era nervoso de date. Era outra coisa. Ele parecia atento demais, como se cada rua fosse uma decisão. — Tá tudo bem? — eu perguntei, baixo. Ele me olhou rápido e sorriu. — Tô. Só... — ele fez uma pausa, como se escolhesse as palavras. — Só não gosto muito de ficar rodando por aí. — Por quê? — Eu franzi a testa. Ele deu de ombros, como se fosse "nada". — Não é meu habitat. Eu aceitei. Porque eu não tinha motivo pra desconfiar de mais nada além do que eu já desconfiava do mundo inteiro. Quando a gente chegou no asfalto, eu senti aquela mistura estranha de familiaridade e repulsa. Luz demais, carros demais, gente demais. Era o Rio que eu conhecia por campanhas e editoriais, só que agora eu tava nele sem personagem. E, pela primeira vez, ele não era palco. Ele era cidade. O carro parou num lugar bonito, de vista aberta. A brisa tinha cheiro de mar, e as luzes refletiam na água. Eu não sabia exatamente onde era, só sabia que era lindo. Victor abriu a porta e estendeu a mão pra mim de novo. — Bem-vinda ao Rio que presta. — ele disse, com aquele sorriso malandro. Eu saí do carro e fiquei alguns segundos só olhando. As luzes, a água escura, o recorte das montanhas. — É... muito bonito. — eu falei, quase sem voz. Victor olhou pra mim como se tivesse conseguido uma vitória. — Eu falei. O restaurante era aconchegante, mais reservado do que eu imaginei. Não tinha aquela vibe de lugar "pra ser visto". Tinha música baixa, luz quente, gente conversando sem gritar. Assim que a gente sentou, Victor colocou o boné mais pra frente de novo. Eu achei estranho, mas pensei que era estilo. Ele apoiou o braço na mesa e me olhou. — Tu tá com cara de quem tá esperando alguém te mandar embora. Eu engoli seco. — Eu... só não tô acostumada. — Então acostuma. — ele falou, simples. — Hoje tu é só Ayla. O garçom veio, ele pediu comida como quem sabe exatamente o que quer. Pediu coisa porção de camarão, batata frita e banana frita, além dos peides empanadinhos. Pediu bebida pra ele e um suco pra mim, e eu percebi que ele nem tentou me empurrar álcool, nem fez piada. Só cuidou do jeito dele, discreto. Quando a comida chegou, eu senti uma coisa apertar no peito. Eu tinha comido com gente importante a vida inteira. Mas eu nunca tinha comido com alguém que olhava pra mim como se eu fosse mais importante do que a mesa. Victor pegou o guardanapo e limpou um cantinho de molho no meu dedo sem pensar muito: gesto simples, íntimo. Eu endureci por reflexo, mas não recuei. Ele percebeu. Óbvio. — Foi m*l. — ele murmurou, já tirando a mão. — Não... tá tudo bem. Ele me encarou por um segundo, e aí o sorriso voltou, leve. — A gente é ficante, Loirinha. — disse, baixo, com malícia. — Eu posso limpar tua mão e tu não precisa pedir desculpa por existir. Meu rosto esquentou. — Victor... — Que foi? — ele fingiu inocência. — Tô falando sério. Eu balancei a cabeça, tentando não sorrir. A noite foi indo assim: comida boa, conversa que alternava entre besteira e coisa profunda sem aviso. Ele me contou umas histórias do morro que me fizeram rir alto, rir de verdade e eu contei pequenas coisas do meu passado sem entrar nas partes que ainda me machucavam demais. Em algum momento, ele levou a mão por baixo da mesa e encostou na minha coxa, de leve. Não apertou, não puxou. Só encostou como presença. Meu corpo respondeu com um arrepio instantâneo. Eu não tirei a mão dele. Só respirei mais fundo. Victor olhou pra mim e arqueou a sobrancelha, como quem pergunta sem palavras: tá bom assim? Eu assenti com um micro movimento. Isso, pra mim, era mais erótico do que qualquer coisa explícita: alguém que queria e ainda assim me deixava escolher. Depois da sobremesa, ele pagou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. — Victor, eu— — Nem começa. — ele cortou, e sorriu. — Hoje eu tô bancando a normalidade. Eu ri baixo. Quando a gente saiu, a brisa bateu no meu rosto e eu senti vontade de chorar de novo, essa vontade de chorar que vem quando a vida dá um carinho que você não sabe receber. A gente caminhou um pouco perto da água. Não era lugar vazio, mas também não era tumulto. E mesmo assim, eu notei: Victor olhava ao redor o tempo inteiro. Como se o corpo dele não soubesse relaxar ali. — Você tá inquieto. — eu falei. — Eu sou assim. Eu parei e olhei pra ele. — Você não é "assim". — eu disse, com cuidado. — Você tá... com medo. Ele ficou imóvel por um segundo. O sorriso dele sumiu. Voltou rápido, mas diferente. — Medo eu tenho é de tu achar que isso aqui foi pouco. — ele soltou, tentando desviar. Eu dei um passo mais perto. — Victor. Ele me encarou. O olhar dele tava mais escuro agora. Mais real. — Tu tá feliz? — ele perguntou, do nada. A pergunta me pegou desprevenida. Eu demorei um segundo pra responder, porque "feliz" era uma palavra grande demais. — Eu... tô bem. — eu falei, e dessa vez eu não menti. — Eu tô... aqui. Ele soltou o ar devagar, como se isso fosse suficiente pra justificar qualquer loucura. — Então pronto. E antes que eu pudesse pensar muito, ele puxou minha cintura e me beijou ali mesmo, com o mar perto e a cidade brilhando como se ninguém tivesse direito de ser triste naquele lugar. O beijo foi quente. Urgente. Familiar de um jeito novo. A mão dele subiu pelas minhas costas, me trazendo pra perto, e eu senti o corpo dele tenso e desejando ao mesmo tempo. Eu beijei de volta com fome, porque eu não tava mais tentando controlar tudo. Eu só queria sentir. Quando a gente se afastou, eu fiquei olhando a boca dele, respirando forte. — A gente tá fazendo besteira? — eu perguntei, sem saber exatamente do quê eu tava falando. Victor sorriu de canto, mas os olhos dele não riram. — Tu tá comigo. — ele respondeu. — Isso nunca vai ser besteira. Antes que eu pudesse derreter com isso, o celular dele vibrou. Victor pegou e olhou a tela rápido demais. O corpo dele endureceu na hora. Eu senti. — O que foi? — eu perguntei. Ele guardou o celular como se fosse nada. — Nada. — ele respondeu, rápido demais. Meu estômago apertou. — Victor. Ele passou a mão na nuca, e por um segundo, eu vi o Victor "dono do morro", o Victor que carrega coisa demais. — A gente precisa voltar. — disse, num tom que não admitia discussão. Eu franzi a testa. — Mas... por quê? A noite nem acabou. Ele chegou perto de mim, encostou a testa na minha por um segundo, como se precisasse de força. — Porque eu vou te levar de volta inteira. — ele murmurou. — E porque eu prometi pra mim mesmo que hoje eu não ia pagar caro demais. Meu coração acelerou. — Depois eu te explico, Loirinha. — ele disse, e a voz veio mais baixa. — Só confia em mim agora. A palavra "confia" me deu um frio no estômago, porque eu não confiava em quase ninguém. Mas... nele eu tinha começado a confiar sem perceber. Eu assenti.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR