A descida do morro com ele foi diferente daquela da moto no começo.
Dessa vez, tinha carro e eu notei que ele tava mais... tenso. Não era nervoso de date. Era outra coisa. Ele parecia atento demais, como se cada rua fosse uma decisão.
— Tá tudo bem? — eu perguntei, baixo.
Ele me olhou rápido e sorriu.
— Tô. Só... — ele fez uma pausa, como se escolhesse as palavras. — Só não gosto muito de ficar rodando por aí.
— Por quê? — Eu franzi a testa.
Ele deu de ombros, como se fosse "nada".
— Não é meu habitat.
Eu aceitei. Porque eu não tinha motivo pra desconfiar de mais nada além do que eu já desconfiava do mundo inteiro.
Quando a gente chegou no asfalto, eu senti aquela mistura estranha de familiaridade e repulsa. Luz demais, carros demais, gente demais. Era o Rio que eu conhecia por campanhas e editoriais, só que agora eu tava nele sem personagem.
E, pela primeira vez, ele não era palco. Ele era cidade.
O carro parou num lugar bonito, de vista aberta. A brisa tinha cheiro de mar, e as luzes refletiam na água. Eu não sabia exatamente onde era, só sabia que era lindo.
Victor abriu a porta e estendeu a mão pra mim de novo.
— Bem-vinda ao Rio que presta. — ele disse, com aquele sorriso malandro.
Eu saí do carro e fiquei alguns segundos só olhando. As luzes, a água escura, o recorte das montanhas.
— É... muito bonito. — eu falei, quase sem voz.
Victor olhou pra mim como se tivesse conseguido uma vitória.
— Eu falei.
O restaurante era aconchegante, mais reservado do que eu imaginei. Não tinha aquela vibe de lugar "pra ser visto". Tinha música baixa, luz quente, gente conversando sem gritar.
Assim que a gente sentou, Victor colocou o boné mais pra frente de novo. Eu achei estranho, mas pensei que era estilo.
Ele apoiou o braço na mesa e me olhou.
— Tu tá com cara de quem tá esperando alguém te mandar embora.
Eu engoli seco.
— Eu... só não tô acostumada.
— Então acostuma. — ele falou, simples. — Hoje tu é só Ayla.
O garçom veio, ele pediu comida como quem sabe exatamente o que quer. Pediu coisa porção de camarão, batata frita e banana frita, além dos peides empanadinhos. Pediu bebida pra ele e um suco pra mim, e eu percebi que ele nem tentou me empurrar álcool, nem fez piada. Só cuidou do jeito dele, discreto.
Quando a comida chegou, eu senti uma coisa apertar no peito. Eu tinha comido com gente importante a vida inteira. Mas eu nunca tinha comido com alguém que olhava pra mim como se eu fosse mais importante do que a mesa.
Victor pegou o guardanapo e limpou um cantinho de molho no meu dedo sem pensar muito: gesto simples, íntimo. Eu endureci por reflexo, mas não recuei.
Ele percebeu. Óbvio.
— Foi m*l. — ele murmurou, já tirando a mão.
— Não... tá tudo bem.
Ele me encarou por um segundo, e aí o sorriso voltou, leve.
— A gente é ficante, Loirinha. — disse, baixo, com malícia. — Eu posso limpar tua mão e tu não precisa pedir desculpa por existir.
Meu rosto esquentou.
— Victor...
— Que foi? — ele fingiu inocência. — Tô falando sério.
Eu balancei a cabeça, tentando não sorrir.
A noite foi indo assim: comida boa, conversa que alternava entre besteira e coisa profunda sem aviso. Ele me contou umas histórias do morro que me fizeram rir alto, rir de verdade e eu contei pequenas coisas do meu passado sem entrar nas partes que ainda me machucavam demais.
Em algum momento, ele levou a mão por baixo da mesa e encostou na minha coxa, de leve. Não apertou, não puxou. Só encostou como presença.
Meu corpo respondeu com um arrepio instantâneo. Eu não tirei a mão dele. Só respirei mais fundo. Victor olhou pra mim e arqueou a sobrancelha, como quem pergunta sem palavras: tá bom assim?
Eu assenti com um micro movimento.
Isso, pra mim, era mais erótico do que qualquer coisa explícita: alguém que queria e ainda assim me deixava escolher. Depois da sobremesa, ele pagou antes que eu pudesse falar qualquer coisa.
— Victor, eu—
— Nem começa. — ele cortou, e sorriu. — Hoje eu tô bancando a normalidade.
Eu ri baixo.
Quando a gente saiu, a brisa bateu no meu rosto e eu senti vontade de chorar de novo, essa vontade de chorar que vem quando a vida dá um carinho que você não sabe receber.
A gente caminhou um pouco perto da água. Não era lugar vazio, mas também não era tumulto. E mesmo assim, eu notei: Victor olhava ao redor o tempo inteiro. Como se o corpo dele não soubesse relaxar ali.
— Você tá inquieto. — eu falei.
— Eu sou assim.
Eu parei e olhei pra ele.
— Você não é "assim". — eu disse, com cuidado. — Você tá... com medo.
Ele ficou imóvel por um segundo. O sorriso dele sumiu. Voltou rápido, mas diferente.
— Medo eu tenho é de tu achar que isso aqui foi pouco. — ele soltou, tentando desviar.
Eu dei um passo mais perto.
— Victor.
Ele me encarou. O olhar dele tava mais escuro agora. Mais real.
— Tu tá feliz? — ele perguntou, do nada.
A pergunta me pegou desprevenida. Eu demorei um segundo pra responder, porque "feliz" era uma palavra grande demais.
— Eu... tô bem. — eu falei, e dessa vez eu não menti. — Eu tô... aqui.
Ele soltou o ar devagar, como se isso fosse suficiente pra justificar qualquer loucura.
— Então pronto.
E antes que eu pudesse pensar muito, ele puxou minha cintura e me beijou ali mesmo, com o mar perto e a cidade brilhando como se ninguém tivesse direito de ser triste naquele lugar.
O beijo foi quente. Urgente. Familiar de um jeito novo. A mão dele subiu pelas minhas costas, me trazendo pra perto, e eu senti o corpo dele tenso e desejando ao mesmo tempo.
Eu beijei de volta com fome, porque eu não tava mais tentando controlar tudo. Eu só queria sentir. Quando a gente se afastou, eu fiquei olhando a boca dele, respirando forte.
— A gente tá fazendo besteira? — eu perguntei, sem saber exatamente do quê eu tava falando.
Victor sorriu de canto, mas os olhos dele não riram.
— Tu tá comigo. — ele respondeu. — Isso nunca vai ser besteira.
Antes que eu pudesse derreter com isso, o celular dele vibrou. Victor pegou e olhou a tela rápido demais. O corpo dele endureceu na hora.
Eu senti.
— O que foi? — eu perguntei.
Ele guardou o celular como se fosse nada.
— Nada. — ele respondeu, rápido demais.
Meu estômago apertou.
— Victor.
Ele passou a mão na nuca, e por um segundo, eu vi o Victor "dono do morro", o Victor que carrega coisa demais.
— A gente precisa voltar. — disse, num tom que não admitia discussão.
Eu franzi a testa.
— Mas... por quê? A noite nem acabou.
Ele chegou perto de mim, encostou a testa na minha por um segundo, como se precisasse de força.
— Porque eu vou te levar de volta inteira. — ele murmurou. — E porque eu prometi pra mim mesmo que hoje eu não ia pagar caro demais.
Meu coração acelerou.
— Depois eu te explico, Loirinha. — ele disse, e a voz veio mais baixa. — Só confia em mim agora.
A palavra "confia" me deu um frio no estômago, porque eu não confiava em quase ninguém. Mas... nele eu tinha começado a confiar sem perceber.
Eu assenti.