38. Ayla

1275 Palavras
Foi como jogar um fósforo numa sala cheia de álcool. Rita arregalou os olhos e deu um grito baixinho, teatral. Josi bateu palma uma vez, como se fosse comemoração. — Misericórdia. — Carla riu, encostando a caixa na mesa. — Pelo VT? Eu fechei os olhos por um segundo, porque ouvir o nome dele na boca das outras deixava tudo mais real. Mais comprometedor. — Sim. — eu admiti, baixinho. — Por ele. Rita colocou a mão no peito. — Meu Deus... ela falou "sim" sem gaguejar. Tá grave. — Não é grave. — eu rebati, defensiva. — Só aconteceu. Josi se apoiou na mesa, me encarando como se eu fosse depoimento de tribunal. — Tá, vamos por partes: tu tá apaixonada ou tu tá encantada? — Qual a diferença? — eu retruquei, já meio irritada. Carla respondeu antes, com a calma de quem tem experiência. — Encantada é quando o homem te dá uma noite boa e tu quer repetir. Apaixonada é quando ele te dá uma noite boa e tu quer ficar. Eu engoli seco. Porque era isso. Eu não queria só repetir. Eu queria caber. Rita apontou pra mim com o dedo, triunfante. — Olha a cara dela! Tá apaixonada mesmo! Eu cobri o rosto com as mãos, completamente sem saber onde enfiar a vergonha. — Para, gente... — Não para, não. — Josi falou, animada. — Agora tu vai falar tudo. Como foi? Foi bonito? Foi romântico? Ele foi respeitoso? Foi safado? Foi os dois? Eu tirei as mãos do rosto e olhei em volta pra ver se tinha criança perto. Tinha. Óbvio. Sempre tinha. — Pelo amor de Deus, abaixa a voz. Rita riu. — Aqui é ONG, minha filha. As crianças já ouviram coisa pior em casa. Fala logo. Eu respirei fundo, tentando manter a voz controlada. — Foi bom. Foi tranquilo. Foi do meu jeito. — Do teu jeito como? — Carla arqueou a sobrancelha. Eu senti o calor subir de novo. — Do meu jeito. Sem pressão. Rita fez um "hm" prolongado, m*****o. — Mas teve... química, né? Eu olhei pra ela com raiva. — Rita. — Teve ou não teve? — ela insistiu. Eu hesitei um segundo e vi as três me encarando como se estivessem assistindo novela. — Teve. — eu admiti. Josi soltou um "eu sabia" baixinho e deu um tapa leve no braço da Rita. — Aí, Rita. Ela tá toda corada. Para de torturar a menina. — Tô torturando nada. — Rita respondeu, com um sorriso que não prestava. — Eu só tô querendo confirmar uma teoria. — Lá vem. — Carla resmungou. Rita encostou o rosto no meu, como se fosse me contar segredo. — Tu se apaixonou por ele, ou tu se apaixonou pelo pacote completo? — Rita! — Eu arregalei os olhos. — Que foi?! — ela abriu os braços, inocente demais pra ser verdade. — Ué, o homem é bonito, é carismático, trata bem, cuida do morro, cuida da tia e ainda tem reputação. A palavra "reputação" veio carregada de intenção. Eu senti meu estômago dar um pulo. Josi riu alto. — Ih, agora tu mexeu com a loira. Carla cruzou os braços. — Reputação ele tem mesmo. As mulheres falam. Meu corpo inteiro ficou em alerta. — Quem... fala? — eu perguntei rápido demais, e as três se olharam como quem pega alguém no flagra. Rita abriu um sorriso enorme, vitoriosa. — AHÁ. Ciúme. — Não é ciúme. — eu falei, imediatamente, mas minha voz saiu aguda. — É sim. — Josi inclinou a cabeça. — Não é. Carla levantou uma mão, calma. — Relaxa, Ayla. Aqui é comunidade, né. Todo mundo sabe de todo mundo. Não é fofoca maldosa, é só fato. — Eu não quero saber. — Eu respirei fundo, tentando parecer indiferente. Rita riu, apontando pra mim de novo. — Quer sim. Tu tá se mordendo. Eu fechei a cara. — Rita... — Tá, tá. — ela fingiu rendição. — Mas olha só: tu tá pronta pra uma informação que tu vai odiar? Meu coração apertou. — Que informação? Josi soltou uma risada curta. — A de que ele já ficou com outras, ué. Eu fiquei imóvel por um segundo. Eu sabia. Eu não era ingênua. Um homem como Victor, com aquele magnetismo, aquele poder, aquele jeito... não tinha como ser "só meu". Eu nem tinha direito de pensar isso. A gente não tinha combinado nada. Não tinha promessa. Mas saber na teoria e ouvir em voz alta eram coisas diferentes. — Eu sei. — eu falei, tentando manter o tom neutro. — A gente não tem nada sério. Carla me olhou com pena disfarçada. — Mas tu tá querendo ter. Eu engoli seco. Rita apoiou o cotovelo na mesa e falou num tom mais baixo, mais venenoso, como se entregasse a bomba devagar. — E tem mulher que quando fala dele, fala com detalhes. Eu senti meu rosto ficar quente de novo, mas agora era raiva e vergonha misturadas. — Que detalhes? Rita levantou as duas mãos, teatral. — Não vou falar nada impróprio. Tem criança aqui. — e aí ela sorriu com maldade. — Só vou dizer que o VT tem fama de ser bem servido. Josi soltou um som de riso e cobriu a boca. Carla balançou a cabeça, como quem confirma sem querer. — É. Eu senti meu corpo reagir com uma lembrança involuntária, uma lembrança que me fez engolir em seco e desviar o olhar. E isso foi a pior parte, porque elas perceberam na hora. Rita arregalou os olhos. — NÃO! — ela gritou baixinho. — Não me diz que tu já sabe? — Rita... — eu tentei, mas minha voz falhou. Josi bateu palma de novo, rindo. — Ai, meu Deus, ela tá vermelha! Ela sabe! Carla soltou uma gargalhada baixa. — Então confirma. A fama não é exagero? Eu quis morrer. Honestamente. Eu queria evaporar, virar poeira, sumir no chão da ONG. — Vocês são horríveis. — eu murmurei, e minhas bochechas estavam pegando fogo. Rita se abanou com a prancheta. — Gente, ela tá mais vermelha que pimenta. A loira foi pro céu e voltou. — Rita! — eu falei mais alto do que devia. Uma criança olhou pra gente. Eu congelei. Rita, sem a menor vergonha, só acenou sorrindo como se nada tivesse acontecido. — Tá vendo? — Josi falou, se aproximando e cutucando meu ombro. — Agora aguenta. Porque quando tu gosta de homem assim, tu vai ter que lidar com as histórias. Meu peito apertou. — Eu não quero lidar com nada. Eu só... — eu respirei fundo, tentando achar chão. — Eu só quero ficar em paz. Carla suavizou o rosto e falou num tom mais sério. — Então conversa com ele, Ayla. Não pra cobrar. Mas pra entender onde tu tá se enfiando. Rita ainda tava rindo, mas o olhar dela ficou um pouco mais carinhoso. — E outra: tu não precisa competir com ninguém. Tu tá mexendo com ele diferente. Até Dona Tereza tá te defendendo. Agora... — ela completou, com sorriso travesso — ...tu vai sentir ciúme mesmo. Normal. Só não vai fazer papelão. — Eu não vou fazer papelão. — Vai sim. Uma hora vai. E a gente vai rir muito. - Rita riu. — Rita! — eu ameacei, mas minha voz já tinha riso no meio. Carla pegou a caixa de novo, voltando ao trabalho. — Tá. Agora chega de novela. Vamos arrumar isso aqui, que daqui a pouco as crianças voltam pra sala. Eu voltei a separar material com as mãos ainda meio tremendo. Não de ansiedade r**m, de alguma coisa mais viva, mais humana.
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