45. Ayla

1109 Palavras
O filme era apenas uma trilha sonora distante, uma sucessão de luzes e diálogos que não chegavam a formar sentido. Meus sentidos estavam sintonizados em outra frequência. O ritmo lento da respiração de Victor. A subida e descida de seu peito sob minha bochecha. O peso sólido de seu braço ao redor de meus ombros, um porto seguro de carne e osso. A paz era um animal estranho e dócil no meu colo. Eu a acariciava, com medo de assustá-la. Meu dedo começou a desenhar círculos lentos, quase imperceptíveis, na camiseta dele, sobre o músculo peitoral. Não era um gesto provocante. Era reconhecimento. Uma forma muda de dizer estou aqui, estou acordada, e isso é real. Ele captou o movimento. Sua mão, que estava repousada no meu braço, começou a responder. Seus dedos subiram e desceram pela minha pele, do ombro ao cotovelo, em um vai-e-vem hipnótico. Era um diálogo silencioso. Tátil. — Tu tá pensando demais — ele murmurou, sua voz um baixo grave que vibrou em seu peito e chegou até mim. — Não estou — protestei, suave. Mas era mentira. Pensava. Pensava na estranheza boa de estar ali. Na simplicidade monumental daquilo tudo. — Tá. Sinto pela respiração. — disse, e sua mão subiu para o meu pescoço, os dedos se enterrando de leve na nuca, massageando a tensão que eu nem sabia que carregava. — Relaxa. O filme é r**m mesmo. Eu soltei uma risadinha abafada contra ele. — Nem sei o que está passando. — Nem eu. — ele admitiu. — Só queria uma desculpa pra te ter aqui. A simplicidade da confissão me atingiu em cheio. Eu levantei a cabeça para olhar. Seu rosto estava em semi-sombra, iluminado apenas pelo brilho azulado da TV. Seus olhos, no entanto, captavam toda a luz disponível, fixos em mim, sem pressa, sem demanda. Baixei a cabeça novamente e, dessa vez, beijei o ponto onde minha bochecha estivera. A pele dele era quente, ligeiramente salgada. Beijei de novo, um pouco mais acima, perto da clavícula. Senti seu corpo dar um leve estremecimento, uma reação involuntária. E então, movida por uma coragem tranquila, sem a fúria do desejo anterior, apenas pela vontade de explorar aquele território de paz, comecei a descer. Meus beijos foram se tornando uma peregrinação lenta pelo torso dele. Passei os lábios pelo esterno, senti o contorno de suas costelas sob a camiseta de algodão fino. Minhas mãos ajudavam, levantando a barra da camiseta, revelando a pele morena e marcada. Vi as cicatrizes, antigas, já incorporadas à sua história. Inclinei e beijei uma delas, um traço pálido sobre as costelas. Ele prendeu a respiração. — Ayla... — disse meu nome, um aviso, um pedido. — Shhh, — repeti o que ele me dissera antes. — Deixa. Continuei descendo. Passei pela barriga tensa, sentindo os músculos se contraírem sob meus lábios. Quando minha boca encontrou a linha do quadril, por cima do tecido da bermuda, ele emitiu um som rouco. Minhas mãos encontraram o elástico. Olhei para cima, buscando seus olhos. Ele estava me observando, completamente imóvel, a expressão uma mistura de incredulidade e desejo contido. Ele assentiu, quase imperceptivelmente. Com movimentos deliberadamente lentos, puxei a bermuda e a cueca para baixo, libertando-o. Ele estava semi-ereto, mas crescia visivelmente sob meu olhar. Não era a imponência ameaçadora das vezes anteriores. Era algo mais... vulnerável. Oferecido. Eu o envolvi com a mão, sentindo o peso, a textura aveludada, o pulso de vida. Ele gemeu, um som profundo que parecia vir das entranhas. E então, mantendo o contato visual, aquela âncora que tornava tudo tão intensamente pessoal, inclinei a cabeça e o levei à boca. O sabor era dele. Puro, salgado, íntimo. Ele soltou um suspiro tremendo, suas mãos voaram para minha cabeça, mas não para pressionar. Seus dedos se enterraram em meus cabelos com uma reverência desesperada, como se eu fosse algo precioso que poderia desaparecer. Eu comecei devagar. Aprendendo. Lamber a parte inferior, os lados, a cabeça sensível. Sentir as reações dele, os estremecimentos, os músculos da coxa que se tensionavam. Era um poder diferente. Silencioso. Profundo. Eu tinha o controle do prazer dele nas minhas mãos, na minha boca, e usava esse poder com uma ternura implacável. Quando ele estava completamente duro, pulsando contra minha língua, intensifiquei o ritmo. Mãos e boca trabalhando em conjunto, sugando, massageando a base. Seus gemidos se tornaram contínuos, quebrados, palavras perdidas em português e em sons que não eram linguagem, mas pura emoção. — Para... para, ou eu vou... — ele tentou avisar, sua voz esticada como um fio prestes a romper. Eu não parei. Apertei os lábios ao redor dele, aprofundei o movimento e olhei para cima. Nossos olhos se encontraram no momento exato em que ele perdeu o controle. Um tremor violento percorreu seu corpo todo. Seus quadros se ergueram da cama, seus dedos se contraíram em meus cabelos, e um grito abafado, rouco, rasgou-se de sua garganta enquanto ele explodia na minha boca. Eu continuei, suave agora, bebendo cada espasmo, cada pulso, até ele desabar de volta no colchão, ofegante, completamente desfeito. Eu subi pelo corpo dele, devagar, beijando o caminho de volta, o abdômen, o peito, o pescoço até encontrar seus lábios. Beijei profundamente, deixando sentir o seu próprio gosto, a sua própria entrega. Seus braços me envolveram, me puxando para cima dele, num abraço tão apertado que quase doía. Ele estava tremendo. Levemente. E eu também. Passado um longo minuto, ele virou-nos de lado, sem nunca soltar o abraço. Seu rosto estava enterrado no meu cabelo, sua respiração ainda ofegante. — c*****o, Ayla — sussurrou, a voz arrastada, maravilhada. — Tu me desmonta. Eu sorri contra seu peito, sentindo uma onda de poder tranquilo, doce. — É justo — murmurei. — Você me desmonta o tempo todo. Ele riu, um som abafado e feliz. — Então tá igual. Ficamos em silêncio novamente. O filme havia acabado, a TV agora mostrava apenas a tela azul de seleção. O único som era nossa respiração se acalmando, se sincronizando. E então, enrolada nele, no escuro quente do quarto, com o gosto dele ainda na minha boca e a paz do mundo nos meus ossos, eu entendi. Isso não era fuga. Não era rebeldia. Não era uma tentativa de preencher um vazio. Era construção. Tijolo por tijolo, toque por toque, verdade por verdade. Era levantar um refúgio dentro do caos, juntos. Era, simplesmente, ficar. Ele já estava adormecendo, a respiração ficando profunda e regular. Antes de me deixar levar também, sussurrei, tão baixo que talvez fosse apenas um pensamento compartilhado com a escuridão: — É isso. E, pela primeira vez, "isso" era mais do que suficiente. Era tudo.
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