O acordo nupcial

932 Palavras
Eu observava a cidade da janela do meu escritório.As luzes da Sicília brilhavam no horizonte, mas minha mente estava em outro lugar.Em Nielly.Ela estava na minha casa há semanas.E desde o dia em que descobriu quem eu era…Ela nunca mais sorriu. Eu passo a mão pelo rosto.Cansado.Porque havia algo que ninguém sabia.Nem meus homens.Nem o conselho da família.Nem mesmo Nielly.O ataque no restaurante…Nunca foi real.Eu e meu conselheiro havíamos planejado aquilo.Não para machucá-la.Mas para trazê-la para perto. Naquela noite, antes de ir ao restaurante, eu havia chamado dois homens de confiança. — Quero um pequeno caos — digo calmamente. — Sem feridos. Atirem,para o teto,poucas vezes para causar mais pânico.— Apenas assustem as pessoas. Um dos homens franziu o cenho. — Don… o restaurante? — Sim. — E a garota? Eu fico em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu: — Eu cuido dela.—E foi exatamente o que aconteceu.Agora ela estava ali.Sob o mesmo teto que eu.E eu não pretendia deixá-la ir tão facilmente.Mas isso não significava que aquilo era fácil.Muito pelo contrário.Nas últimas semanas, eu tentei de tudo. Mandei trazer roupas.Vestidos caros.Sapatos italianos.Perfumes raros.Joias.Mas ela é teimosa e recusou tudo. — Não quero isso. Mandou preparar o jantar favorito dela. — Não estou com fome. Trouxe flores.Ela apenas agradeceu.Sem emoção.Sem sorriso.Sem olhar.Aquilo estava lentamente me destruindo.Porque eu,Lorenzo De Santis,estava acostumado a muitas coisas. Poder.Respeito.Medo.Mas nunca…Indiferença.Eu suspirou.Então volto a se sentar à mesa de reunião. Os membros do conselho estavam ali.Homens antigos.Leais.Respeitados.O subchefe da organização falou primeiro. — Don, temos boas notícias sobre os negócios do norte. Eu assento distraído.Outro homem comentou: — Os acordos com Palermo também estão estabilizados. Mas então Lorenzo disse algo inesperado. — Eu escolhi minha Donna. A sala inteira ficou em silêncio por um segundo.Depois… Sorrisos surgiram. — Finalmente! — disse um dos conselheiros. — Era hora, Don. Outro completou: — A família precisa de uma Donna forte. Lorenzo apenas assentiu. — Em breve vocês irão conhecê-la. Eles ficaram satisfeitos.Mas eu sabia…Que aquilo ainda estava longe de ser resolvido.Porque naquela mesma noite eu caminhava pelos corredores da mansão segurando um pequeno buquê de flores. Talvez fosse ridículo.Talvez inútil. Mas eu precisava tentar mais uma vez. Eu bato na porta do quarto dela. — Entre — a voz dela respondeu. Quando ele entrou, Nielly estava na sacada. Os cabelos ainda molhados.O cheiro suave de sabonete no ar.Ela havia acabado de tomar banho.Ela se virou quando ouviu a porta.Os olhos dela foram diretamente para as flores.Por um momento, algo passou pelo olhar dela.Mas desapareceu rápido. — Flores de novo? Ele colocou o buquê sobre a mesa. — Eu achei que você poderia gostar. Ela não respondeu.O silêncio entre nós já era algo familiar.Aquilo apertou o meu peito. — Faz semanas que você não sorri para mim. Ela olhou para a cidade. — Não tenho muitos motivos. Aquilo doeu mais do que eu imaginava.Então eu respiro fundo. — Eu quero fazer um acordo com você. Ela virou lentamente. — Um acordo? — Sim. — Que tipo de acordo? Ele se aproximou. — Eu deixo você sair desta casa. Ela ficou imóvel. — Sair…? — Sim. Os olhos dela se arregalaram levemente. — Mas existem duas condições. O coração dela acelerou. — Quais? Eu respondo calmamente. — Primeira. Ele continuou: — Você terá escolta vinte e quatro horas por dia.Todos os dias da semana.Domingo a domingo.— Ela franziu o cenho. — E a segunda? Eu fico em silêncio por um segundo. Então digo: — Eu nunca mais vou prender você aqui novamente…—Eu olho diretamente nos olhos dela. — Se você aceitar se casar comigo. O mundo pareceu parar.Nielly piscou lentamente. — O quê? — Casa comigo. Ela deu um passo para trás. — Isso é… isso é loucura. Lorenzo caminhou até a sacada. O vento noturno movia levemente os cabelos dela.Nós estavam próximos agora.Muito próximos.Os corpos quase se tocando.Eu inclino levemente o rosto.Queria ver os olhos dela.Sentir o perfume dela. — Eu gosto de você, Nielly. ***** Eu respiro fundo.O meu coração estava completamente confuso.Porque eu também gostava dele.Muito.Mais do que deveria.Mas aquela proposta…Era pesada demais. — Não. A palavra saiu baixa.Mas firme.Lorenzo ficou imóvel. — Não? Eu balanço a cabeça. — Eu não posso casar com você. Ele franziu o cenho. — Por quê? Eu viro o rosto. — Porque eu não gosto disso. — Disso o quê? — Dessa sensação. Eu começo a falar mais rápido agora.Como se tudo estivesse preso dentro de mim. — Eu não gosto de viver sendo observada.Não gosto de sentir que estou sendo controlada o tempo todo.Não gosto de regras.De discussões.De viver presa. Ele responde imediatamente. — Você não ficará presa. Eu olho diretamente para ele. — Ficarei sim. Ele ficou em silêncio. — Eu lutei muito para ter uma vida normal,lutei para ser assim,meus pais eram muito rigorosos…— eu continuo.— Eu não quero viver cercada por violência. O olhar dele ficou mais frio. — Eu posso proteger você. — Eu não quero precisar de proteção. Aquilo irritou Lorenzo. — Você acha que o mundo lá fora é seguro? — Pelo menos é meu.—Eu respiro fundo.— Eu não vou aceitar. O silêncio caiu pesado entre nós.Lorenzo apertou a mandíbula. — Então você prefere continuar assim? — Sim. A resposta veio rápida.Aquilo foi a gota final.Ele virou de repente.Caminhou até a porta.Abriu com força. — Lorenzo… ******** Mas ele já estava saindo.A porta bateu forte atrás dele.Deixando Nielly sozinha na sacada.Com o coração acelerado.E uma sensação terrível no peito. Porque no fundo… Negar aquele homem tinha doído muito mais nela do que ela jamais admitiria.
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