A Cobrança

1174 Palavras
Teteu narrando A noite foi daquelas. Noitada pesada, som alto, bebida rodando solta e mulher pra todo lado. Porr@, tinha put@ de monte. Bonita, arrumada, tudo querendo atenção, querendo colar. Eu fui, fiz o que tinha que fazer, mas no final das contas, saí sozinho. Essas paradas nunca me prenderam. É tudo igual. A gente se envolve ali no momento, descarrega a tensão, resolve o corpo e pronto. Não tem conversa, não tem laço, não tem depois. Terminou, cada um pro seu lado. É simples. É assim que eu vivo. Não misturo as coisas. A madrugada acabou vazia, igual quase todas. Barulho por fora, silêncio por dentro. Voltei pra casa quando o dia já tava clareando, cabeça pesada mais pelo cansaço do que pela bebida. Dormi pouco, daquele jeito que o corpo cai, mas a mente continua ligada. Acordei com vozes na casa. Quando desci, vi minha mãe, sentada com a Ana. As duas conversando sério, falando umas paradas de associação, reunião, morador, essas coisas que minha mãe gosta de se envolver. Débora: A associação tá precisando de apoio, Matheus. Tem umas demandas pra resolver. Ana Vitória: É coisa do bem, mano. Pra ajudar o pessoal. Eu puxei uma cadeira, servi café e ouvi por cima. Já sabia onde aquilo ia parar. Matheus: Qual é a boa aí? Minha já veio com aquele papo que eu conheço bem, todo cheio de cuidado e cobrança disfarçada. Débora: Você podia dar uma força, né. Você tem influência, tem voz. Eu respirei fundo. Papo chato. Sempre o mesmo. Matheus: Essa parada aí você resolve, mãe. Não é comigo. Ela me olhou feio, mas não falou nada. Ana abaixou a cabeça, já acostumada com esse tipo de resposta. Ana Vitória: Você podia ouvir mais, Matheus. Matheus: Eu ouço. Só não entro. Terminei meu café rápido. Não gosto de ficar muito tempo nessas conversas. Me levantei, peguei a arma, ajeitei a roupa e saí. A rua já tava viva. Morro acordado, gente indo trabalhar, criança correndo, som de rádio misturado com moto subindo e descendo. Cumprimentei uns, só com a cabeça, outros com olhar. Aqui todo mundo sabe quem eu sou. Fui direto pra boca. Ali é meu território. Onde tudo acontece. Onde a informação corre, onde o dinheiro gira, onde o respeito é mantido. Os caras já tavam lá, cada um no seu posto, tudo funcionando do jeito certo. Vapor: Salve, chefe. Matheus: Tudo tranquilo? Vapor: Tudo no eixo. Fiquei ali observando, ouvindo, absorvendo. A mente já longe da noitada, focada no que importa. Problema pra resolver, dívida pra cobrar, ordem pra manter. Mandei chamar o Genival. Não foi pedido, foi ordem. Aqui quando eu mando chamar, o corpo vem antes da coragem. Eu já sabia que ele ia aparecer daquele jeito e não deu outra. Ele entrou no espaço da boca com o corpo encolhido, o olhar baixo, mão suando. O cara m*l conseguia falar direito. Gaguejava, tropeçava nas palavras, como quem já sabe que perdeu antes mesmo de sentar. Genival: T-Teteu… eu… eu vim pra acertar… vou arrumar o dinheiro… eu juro… Eu fiquei quieto. Só observando. Deixei ele se afogar no próprio medo por alguns segundos. O silêncio pesa mais que grito. Quando falei, foi calmo. E isso sempre assusta mais. Matheus: Tu tem 24 horas. Ele levantou a cabeça na hora, os olhos arregalados. Genival: Eu arrumo… eu arrumo sim… vendo tudo que eu tenho… dou um jeito… Matheus: Tu me deve trinta mil reais. A palavra caiu pesada. Ele engoliu seco. Deu pra ver o nó descendo pela garganta. Genival: Trinta mil? Matheus: Quatorze da primeira vez. Quatro depois. Mas oito, Juros. Tempo. Ajuda. Proteção. Tudo entra na conta. Ele começou a tremer. Literalmente. Genival: Eu vendo tudo, a geladeira, o fogão, faço o que for preciso. Eu não aguentei. Ri. Não foi riso de humor, foi riso de desprezo. Um riso curto, seco, cheio de deboche. Matheus: Vender o quê, mano? A geladeira? O fogão? Umas peças caindo aos pedaço? Tu acha mesmo que isso paga trinta mil? Ele ficou em silêncio. O rosto vermelho, os olhos marejados. O homem tava quebrado por dentro. Matheus: Tu não tem nada, Genival. Nunca teve. Ele respirava rápido, desesperado. Genival: Então… então o que o senhor quer? Eu me levantei devagar. Dei um trago fundo, sentindo a fumaça queimar o peito. Soltei pra cima, sem pressa, vendo ela subir e sumir no ar. Cada segundo era calculado. Poder é isso: controlar o tempo enquanto o outro perde o chão. Matheus: Eu não quero tua grana. Ele franziu a testa, confuso, quase esperançoso. Genival: N-não? Eu dei dois passos na direção dele. Falei baixo. Direto. Matheus: Eu quero a Milena. O mundo dele acabou ali. Genival: Não… não… por favor… não faz isso comigo… Ele caiu de joelhos. Literalmente. As mãos tremendo, o rosto molhado de lágrima. Genival: Minha filha não… a Milena não… ela não tem nada a ver com isso… Eu senti a raiva subir, não contra ele, mas contra a situação inteira. Contra a vida que faz homem vender até a própria alma quando não tem escolha. Matheus: Tem sim. Tudo tem a ver comigo agora. Ele começou a chorar de verdade. Um choro feio, desesperado, de pai que sabe que perdeu tudo. Genival: Ela é só uma menina… trabalha, nunca deu trabalho… pelo amor de Deus… Eu me aproximei mais. Olhei bem no fundo do olho dele. Frio. Sem piscar. Matheus: Qual vai ser, Genival? Ele levantou a cabeça, os olhos cheios de pânico. Matheus: Minha grana agora, ou a tua filha na minha mão. Ele balançava a cabeça, em negação, como se aquilo fosse um pesadelo. Genival: Não tem outro jeito? Matheus: Não. Minha voz saiu dura. Final. Matheus: Não tem terceira opção. O silêncio que veio depois foi pesado. Só dava pra ouvir a respiração dele falhando, o som seco do choro contido, o medo tomando conta de tudo. Genival: Você vai destruir minha família. Matheus: Não. Quem destruiu foi a dívida. Eu só tô cobrando. Ele fechou os olhos, derrotado. Ali não tinha mais força, nem esperança. Só desespero. Esse é o preço de pedir ajuda pra quem manda. Dei as costas e voltei pro meu lugar. Matheus: Tu tem 24 horas pra me dar a resposta. Depois disso, eu resolvo do meu jeito. Ele saiu cambaleando, como um homem morto andando. E eu fiquei ali, sentindo o poder pulsar no peito. Não era prazer. Era controle. Aqui ninguém pega comigo sem pagar. E a cobrança sempre chega. O que ele e ninguém sabe é que eu só faço de caso pensado. E eu não vejo a hora de ter Milena, meu pagamento. Aquela mina é minha fissura tá ligado, sou louco nela. Vapor : Patrão, Geral tá falando da parada do Genival, ele contou aí, que o Senhor quer pegar a Milena de pagamento. Matheus: Isso não é da tua conta, e Genival vai se arrepender de ter soltado a língua. Aviso. As atualizações diárias, vão começar dia 01/03. quando acabo O traficante e a Filha do delegado.
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