O sol batia forte no morro, e Maria descia devagar a viela que levava até a vendinha da esquina. A desculpa era comprar refrigerante pra casa, mas a verdade é que precisava esfriar a cabeça. A noite tinha sido longa demais, virando de um lado pro outro, pensando em Luan, no que ele disse, e inevitavelmente em Guilherme.
E como se o destino resolvesse brincar com ela, lá estava ele. Encostado no muro, camiseta pendurada no ombro, rindo de alguma coisa que um dos moleques falava. O suor escorria pelo peito marcado por cicatrizes, mas o sorriso era o de sempre, provocador. Quando os olhos dele bateram nela, o riso cessou.
— Olha só, a Branca de Neve tá diferente hoje… — disse, com aquele tom debochado. — Tá com a cara de quem sonhou a noite inteira. Sonhou comigo, foi?
Maria bufou, revirando os olhos, tentando passar direto.
— Não enche, Guilherme.
Ele largou o muro e deu dois passos pra frente, cortando o caminho dela. Não era agressivo, mas tinha aquela presença que deixava tudo pesado.
— Ihh, calma aí, princesa. Só perguntei. Mas olha… — ele inclinou a cabeça, encarando — Teu olhar tá entregando que tem coisa aí dentro da tua cabeça. Não sabe mentir, não.
Maria cruzou os braços, tentando disfarçar o nervosismo.
— Eu só não dormi direito. É só isso.
Guilherme riu baixo, um riso curto, quase irônico.
— Sei… tu acha que engana quem? Eu já vi muito olhar perdido por aí, Maria. Gente que carrega coisa que não fala pra ninguém. — Ele chegou um pouco mais perto, baixando a voz. — Cê pode até não me contar, mas eu sei que tem alguma parada te consumindo.
Maria respirou fundo, desviando os olhos. O coração batia rápido, não só pelo que ele dizia, mas pela proximidade, pelo cheiro de suor misturado com perfume barato, pela sensação de estar sendo lida por inteiro.
— Não é da sua conta. — Ela tentou soar firme, mas a voz saiu quase um sussurro.
Ele sorriu de canto, satisfeito com a reação.
Maria girava o canudinho dentro do copo de suco, sem realmente beber. Estavam na padaria da esquina, ela e Letícia, tentando m***r o tempo no fim da tarde. O barulho da rua, as motos subindo e descendo o morro, os gritos ao longe, tudo parecia distante demais para a confusão que ela carregava dentro da cabeça.
— Tá calada demais hoje — Letícia comentou, mastigando uma coxinha. — Que que foi?
Maria suspirou, mordendo o lábio.
— É o Guilherme.
Letícia ergueu as sobrancelhas, já interessada.
— Ahhh, eu sabia. O que ele aprontou agora?
— Não é que ele aprontou… é o jeito dele. Hoje, quando eu tava descendo a viela, ele apareceu. Ficou me olhando daquele jeito, sabe? Como se… como se ele conseguisse ler tudo que eu penso.
Letícia soltou uma risadinha debochada.
— Esse é o jeitão dele, Mari. Misterioso, cheio de pose. Mas eu sei que mexe, né?
Maria baixou os olhos, sem conseguir esconder o rubor nas bochechas.
— Mexe, Lê… mexe demais. Eu não sei explicar. Com ele é diferente. Não é como foi com o Matheus, aquilo era só um namoro bobo, sabe? Guilherme me olha e parece que enxerga partes de mim que nem eu conheço.
Letícia apoiou o queixo na mão, analisando a amiga.
— Você tá caidinha, Maria. Tá estampado.
— Não fala assim… — Maria tentou protestar, mas a voz saiu fraca. — Eu só… não sei lidar. Ontem ainda falei com a Renata, o Luan apareceu do nada na chamada, e aí hoje vem o Guilherme me deixar toda confusa. Eu não sei mais o que eu sinto.
Letícia deu um gole no refrigerante e sorriu, meio maliciosa.
— Vou te falar uma coisa: Luan é história antiga, Matheus já era, e Guilherme tá aí, de frente contigo. Forte, bonito, cheio de cicatriz de vida. Esse cara não é igual aos outros, não. Ele carrega dor, Maria. Talvez seja isso que te puxa tanto pra ele.
Maria a olhou em silêncio, digerindo cada palavra. Era verdade: Guilherme não era leve. Estar perto dele era sentir um peso, uma intensidade que ao mesmo tempo assustava e atraía.
— Você acha que eu devo… me aproximar? — perguntou, hesitante.
Letícia deu de ombros, mas o olhar era cúmplice.
— Eu acho que você já tá próxima. Só não percebeu ainda.
Maria sentiu um arrepio percorrer o corpo. A amiga estava certa, por mais que tentasse negar, por mais que inventasse desculpas, Guilherme já estava dentro dela de um jeito que era impossível ignorar.