Guilherme

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Meu nome é Guilherme, tenho 17 anos, mas a vida já me fez crescer rápido demais. Repeti uns anos na escola e, por dois anos, parei completamente. Não foi preguiça, não. Foi pra cuidar da minha mãe. Meu pai morreu num confronto, e minha mãe… se afundou nas drogas depois da morte dele. Dois anos tentando manter ela viva, dois anos tentando cuidar de tudo, e mesmo assim… dois anos depois, ela teve uma overdose. Morreu sozinha, e eu fiquei sozinho com minha avó. A vida não foi fácil. Meu corpo carrega cicatrizes das surras que eu levava do meu pai bêbado, espalhadas pelos braços, peito e costas. Minha avó sempre brigava comigo, mas pelo menos ela me mantinha na linha. Ainda assim, precisei começar a fazer uns “corres” pra ajudar na renda de casa uns b***s na boca do morro, uns trabalhos mais arriscados, mas necessários. Sou alto, forte, moreno claro, com olhos castanhos que todo mundo diz que intimidam, mas não é por m*l. É que aprendi cedo a me proteger. Eu nunca fui de me impressionar com ninguém. Mas teve um dia, no primeiro dia de aula dela, que tudo mudou. Ela entrou na sala e… m***a. Não tinha como não notar. Pele branca, olhos verdes que pareciam brilhar, cabelo n***o caindo solto nos ombros, lábios rosados e carnudos… e aquele jeito de tentar passar despercebida, mas que, mesmo assim, fazia todos os olhares se voltarem pra ela. Eu fiquei parado por um segundo, tentando processar. Nunca tinha visto alguém assim, tão… diferente. A beleza dela não era só física, era algo no jeito, no olhar, na postura mesmo sem querer. E eu sabia, no mesmo instante, que ela não era só mais uma aluna do colégio. Ela se sentou num canto, sozinha, tentando se misturar, mas impossível. A energia dela ocupava a sala inteira, mesmo sem falar nada. Eu observei de longe, sem querer chamar atenção, só pra ver como ela reagia àquele novo ambiente. E percebi que tinha algo nela medo, sim, mas também coragem. Algo que dizia: “Eu posso estar fora do lugar, mas não sou fraca.” Não demorou muito pra que eu percebesse que ela precisava de um nome. “Branca de Neves” pensei na hora. Pele branca como neve, lábios delicados, olhar verde intenso. O apelido veio sozinho, natural. E, sem perceber, comecei a chamá-la assim, baixinho, apenas para mim. A partir daquele momento, comecei a prestar atenção nela. Não de um jeito invasivo, mas curioso. Queria ver como ela se virava, como lidava com os olhares curiosos, com a tensão de ser a filha da patroa do morro. E, confesso, cada vez que nossos olhares se cruzavam, algo dentro de mim acelerava. Não era só a beleza dela que me chamava atenção. Era a força que eu via escondida atrás do medo. Eu sabia que ela estava aprendendo a se impor, mesmo sem perceber. E eu queria estar perto, não pra bancar o herói, mas pra entender alguém que parecia tão fora do lugar, mas que, de algum jeito, já mostrava que não se perderia fácil. Aquele primeiro dia de aula mudou tudo. Eu já não conseguia ignorá-la. Branca de Neves o apelido grudou. E com ele veio a certeza de que eu precisava acompanhar de perto aquela garota, que tinha entrado no meu mundo sem nem perceber. A vida me ensinou a desconfiar de tudo e de todos, mas com ela foi diferente. Maria não era só uma aluna nova; era alguém que despertou algo que eu não esperava. E naquele instante, soube que, mesmo com toda tensão do morro, dos corres e da minha vida dura, eu ia fazer de tudo pra estar por perto, sem que ela percebesse que eu estava observando. Porque, no fundo, eu sabia: ela era Branca de Neves, e eu nunca mais esqueceria aquele olhar no primeiro dia de aula.
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