Naquela noite, já em casa, Maria ainda sentia o coração pesado. A lembrança de Guilherme descendo a rua sozinho não saía da sua mente. Quando entrou no quarto, encontrou Milena a esperando, sentada na poltrona perto da janela, um copo de vinho na mão, os olhos brilhando mais de cansaço do que de raiva.
— Fecha a porta, Maria. — disse a Soberana, com uma calma que assustava mais do que qualquer grito.
Maria obedeceu, sem coragem de encarar a mãe.
— Você acha que eu não sei o que você sente? — continuou Milena, se levantando devagar.
— Eu também já tive a sua idade. Eu sei como é quando o coração bate mais rápido, quando a gente acha que encontrou alguém que vai mudar tudo. Mas a diferença, filha… — ela se aproximou, tocando de leve o rosto de Maria — …é que eu sei o preço que isso cobra.
Maria engoliu em seco, os olhos marejados.
— Você me prende aqui, mãe. Me prende em tudo… eu só queria… — tentou falar, mas Milena a interrompeu com firmeza.
— Você só queria se perder. E eu não vou deixar. — o tom era frio, duro, mas os olhos da Soberana tremiam de emoção.
— Prefiro que você me odeie, que pense que eu sou um monstro, do que ver você enterrada como tantas meninas que se achavam donas de si.
Maria não tinha argumentos. O nó na garganta crescia, porque parte dela sabia que havia verdade naquilo, mas outra parte sentia-se sufocada.
— Eu só quero viver… — sussurrou, quase implorando.
Milena então mudou o tom. Deixou a dureza de lado, puxou a filha para um abraço apertado, quase sufocante.
— E é por isso que eu luto todos os dias. Para que você viva. Para que você não precise passar o que eu passei. Você é a única coisa pura que eu ainda tenho, Maria. — a voz falhou, carregada de dor e obsessão. — Não me faça perder você.
Maria chorou, confusa, sem saber se abraçava a mãe de volta ou se se afastava. Mas o aperto era forte demais, quase como se Milena estivesse selando uma prisão invisível, feita de amor, dor e controle.
Três dias haviam se passado desde a noite do barraco. Maria não saiu de casa nenhuma vez.
No quarto, a música alta nos fones abafava qualquer som do mundo exterior. Sentada em seu puff, os olhos fixos na tela, os dedos acelerados no controle do videogame. Ao redor, o cenário denunciava seu estado: bandejas de comida ainda intactas sobre a mesa, folhas de papel rabiscadas com desenhos espalhados pelo chão — retratos, formas distorcidas, emoções jogadas no papel como se fossem gritos silenciosos.
Quando Letícia entrou no quarto, parou por um instante, observando a cena. Soltou um suspiro baixo. Sabia que a amiga tinha o hábito de se fechar no próprio mundo quando estava machucada, mas daquela vez parecia mais fundo.
Maria já tinha notado a presença da amiga pelo reflexo da TV, mas não se moveu. Continuou jogando, como se ignorar fosse mais fácil que falar.
Letícia caminhou devagar até a estante, e foi aí que seus olhos caíram sobre um porta-retrato. Nele, um homem loiro, de olhos verdes intensos, sorria para a câmera. Era um rosto bonito, marcante, diferente de qualquer outro que Letícia já tivesse visto naquela casa.
Curiosa, ela pegou o porta-retrato nas mãos, levantando a foto.
— Quem é ele? — perguntou, com a voz firme, porém suave.
Maria pausou o jogo. Tirou os fones devagar, pousando-os sobre os ombros. Ficou alguns segundos em silêncio, apenas olhando para a tela apagada da TV, como se buscasse coragem. Depois virou o rosto para Letícia.
— Esse é o Fabio… meu pai biológico.
Letícia piscou, surpresa.
— Como assim? Eu sempre pensei que o Bruno…
— O Bruno é meu pai, sim. — cortou Maria, quase automática, como se defendesse um sentimento profundo.
— Ele me criou desde que eu nasci. Eu amo ele como se fosse de sangue. Mas… quem me colocou no mundo foi o Fabio.
Letícia se aproximou mais, abaixando-se ao lado da amiga, ainda com a foto nas mãos.
— E… o que aconteceu com ele?
Maria mordeu o lábio, desviando o olhar.
— Ele morreu antes mesmo de saber que minha mãe estava grávida. Nunca me conheceu. Nunca soube de mim. — os olhos marejaram, mas ela tentou manter a voz firme.
— A mãe diz que ele teria sido um homem bom, mas… eu só tenho essas histórias. Nada mais.
Letícia olhou de novo para a foto, depois para a amiga.
— Então você nunca falou isso pra ninguém?
— Nunca. — respondeu Maria, engolindo em seco. — Nem pra você. Eu sempre guardei. Porque… sei lá. O Bruno é meu pai. Não quero que pareça que eu diminuo ele. Só que às vezes… às vezes eu fico imaginando se tudo teria sido diferente. Se minha mãe não tivesse vivido tanta coisa, se eu não tivesse nascido nesse mundo… se ela tivesse escolhido outro caminho.
Letícia colocou o porta-retrato de volta, com cuidado. Depois pegou as mãos de Maria, apertando firme.
— Olha pra mim, Ma — disse, séria. — Você não precisa carregar isso sozinha. Eu tô aqui. Amiga é pra dividir esse peso também, entendeu?
As palavras acertaram Maria em cheio. Ela tentou sorrir, mas as lágrimas escorreram antes. Letícia puxou-a para um abraço forte, sem cerimonia. Maria escondeu o rosto no ombro dela, chorando baixinho, permitindo-se fraquejar pela primeira vez em dias.
No fundo, no entanto, algo latejava em sua mente. O rosto de Fábio na foto, a lembrança do vazio que nunca foi preenchido, e a obsessão da mãe em controlar cada aspecto da sua vida. Aos poucos, Maria começava a ligar os pontos: talvez o medo de Milena, sua necessidade sufocante de proteger, tivesse nascido justamente dessa perda.
E perceber isso a deixava ainda mais confusa — entre o amor, a culpa e a raiva