– O Sussurro do Destino

830 Palavras
Os dias haviam se transformado em uma tortura constante. A floresta não foi o fim de Isla ... mas a volta forçada à matilha a transformou em algo pior que uma exilada: uma prisioneira. Arrastada de volta após ser capturada por patrulheiros, ela não foi executada como esperava. O Alfa decidiu que uma morte rápida seria misericórdia demais. Em vez disso, ela tomou uma surra e foi para um lugar ainda mais c***l: o porão. Ali, não havia janelas, apenas pedras frias e úmidas. O ar cheirava a mofo e ferro, e correntes presas às paredes eram um lembrete constante de sua nova condição. Isla não era mais apenas uma rejeitada. Era uma escrava. --- Os dias se confundiam. Luz e escuridão não faziam diferença ali embaixo. Isla comia restos frios, quando comia, e seu corpo emagreceu rapidamente, as marcas das surras ainda vivas em sua pele. Sua loba, Nathasa, permanecia dentro dela, silenciosa na maior parte do tempo. Mas, em noites em que o choro ameaçava sufocá-la, Nathasa se manifestava em sussurros suaves: “Não desista. Se eu ainda estou aqui, é porque há algo além dessa escuridão.” Isla se agarrava a essas palavras como quem segura a última tábua em alto-mar. --- Foi em uma manhã abafada que os guardas desceram apressados, empurrando-a contra as correntes. O choque do ferro frio nos pulsos trouxe de volta lembranças de cada humilhação. Isla não perguntou nada. Já aprendera que perguntas rendiam apenas mais dor. Fique quieta, rejeitada ... rosnou um deles. O Rei Alfa está de passagem. As palavras ecoaram pelo porão como um trovão distante. Isla sentiu o coração acelerar, mas não ousou reagir. Rei Alfa. O nome sozinho carregava peso suficiente para dobrar qualquer matilha. Ele era o soberano das terras, o mais forte entre todos, o que nenhuma rejeição poderia manchar. E ela, a quem ninguém ousava chamar pelo nome, estava sendo escondida como um segredo vergonhoso. --- Acima de sua prisão, os sons da movimentação ressoavam como tambores. O barulho das botas, a reverência dos guerreiros, a melodia das vozes femininas que suspiravam pelo visitante.Afinl todos sabiam de sua imponência e beleza. Isla fechou os olhos, sentindo o coração pulsar forte demais no peito. Não sabia por que a simples menção dele fazia seus ossos tremerem. Nathasa, até então silenciosa, sussurrou com intensidade em sua mente: “Ele está perto...” — Quem? ... Isla sussurrou de volta, quase sem ar. — O Rei? “Sim. Eu sinto a presença dele... como se fosse uma chama tentando atravessar as paredes.” Isla mordeu o lábio. Não podia entender aquilo. O vínculo com seu Alfa original havia sido quebrado, destruindo também sua conexão lupina. Ela não era mais nada além de uma ômega humana. Sem força, sem poder. Por que, então, Nathasa se agitava tanto? --- Do outro lado do teto, passos pesados se aproximaram. Isla prendeu a respiração. Cada instinto gritava para se encolher ainda mais, para desaparecer. O silêncio caiu por alguns segundos. Então, uma voz profunda, carregada de autoridade, ecoou. Esta matilha parece... inquieta. Era o Rei Alfa. O som de sua voz fez o corpo de Isla estremecer. Não era medo, não exatamente. Era como se cada célula reconhecesse algo que sua mente não conseguia nomear. O Alfa da matilha, o homem que a havia marcado com dor e rejeição, apressou-se em responder: Estamos honrados com sua visita, Majestade. Tudo está sob controle. O Rei Alfa pareceu não se convencer. Houve outro silêncio. Passos lentos, calculados, percorreram o andar acima. Isla podia jurar que ele estava parado exatamente sobre sua cela, como se pudesse sentir sua presença. Nathasa rugiu dentro dela, não de fúria, mas de alerta. “Ele nos sente, Isla. Ele não sabe, mas sente.” Isla mordeu os lábios até sangrarem. Se ele descobrisse sua existência... não sabia se seria salvação ou mais uma condenação. --- O momento passou. O Rei seguiu adiante, sua presença poderosa se afastando aos poucos, mas deixando atrás de si um rastro invisível. Isla caiu de joelhos, o corpo inteiro tremendo. Nathasa... o que foi isso? ... sussurrou. A loba respirava fundo, como se também estivesse tentando se recompor. “O destino. Ele roçou em nós, mas ainda não nos tocou. Há algo ali, algo que nem ele compreende.” Isla abraçou os próprios braços, tentando aquecer-se contra o frio que parecia vir de dentro dela mesma. . Eu não posso me iludir. Ele é um rei. Eu sou... nada. “Nada? Não, pequena. Você é minha. E o que é nosso nunca será nada.” Isla fechou os olhos. Pela primeira vez, uma centelha de esperança queimava dentro da escuridão de sua prisão. Ela ainda não entendia o que havia entre ela e aquele Alfa distante. Mas sabia, no fundo da alma, que o fio invisível que se estendera naquela manhã ainda voltaria a puxá-la. E, quando isso acontecesse, nem a matilha, nem o passado, nem mesmo suas correntes seriam capazes de impedi-la.
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