A madrugada se estendia pesada sobre os ombros de Isla enquanto seus pés corriam pela estrada de terra que levava à mata. O frio da noite cortava sua pele, e cada estalo de galho parecia gritar aos quatro ventos a sua fuga. Mas ela não olhava para trás. Se hesitasse, se parasse para pensar, seria pega ... e a promessa do Alfa de mandá-la ao exílio se transformaria em algo muito pior.
Sua respiração saía em arfadas, o corpo ainda dolorido das surras daquele dia, mas dentro dela havia uma força que não vinha apenas de sua carne. Era Nathasa.
“Corra, Isla. Não pare. Estamos juntas agora.”
A voz de sua loba ecoava forte, firme, um fio de vida que a mantinha de pé. Isla fechou os olhos por um instante enquanto corria, tentando sentir aquela conexão tão frágil que havia quase desaparecido desde a rejeição.
Eu não teria coragem sem você ...
murmurou, entre lágrimas que se misturavam ao suor. Você é tudo o que me resta.
“E você é tudo o que eu tenho.”
O laço entre elas se estreitou naquele instante. Não era a mesma ligação plena de antes, quando o vínculo com o Alfa ainda existia, mas era suficiente para mantê-los vivos.
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Quando a mata se ergueu diante dela como um muro de sombras e troncos, Isla sentiu o coração acelerar ainda mais. A floresta era proibida por um motivo. Contavam-se histórias de lobos solitários enlouquecidos que vagavam em busca de presas, de feras selvagens e espíritos que castigavam quem ousava atravessar suas trilhas.
Ela respirou fundo. Não tinha escolha.
Avançou.
Os galhos arranharam seus braços, e o chão irregular a fez tropeçar mais de uma vez. Mas a cada queda, ela se levantava, limpava o sangue dos arranhões e seguia. Nathasa sussurrava em sua mente, guiando seus passos.
“Escute os sons, Isla. A floresta fala. A cada estalo, a cada farfalhar, há algo nos observando.”
Isla engoliu em seco. O medo era sufocante, mas não se comparava ao terror de voltar para trás.
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Horas se passaram até que suas pernas fracassaram. Ela encontrou uma clareira estreita, coberta por musgo úmido, e se deixou cair de joelhos. A dor no corpo era insuportável, cada músculo implorando por descanso.
Ajoelhada ali, abraçou o próprio corpo, e finalmente as lágrimas que vinha segurando explodiram. Chorou com tudo o que tinha: a rejeição, o desprezo, as surras, a solidão. Chorou até não restar mais nada além de soluços secos.
“Não chore, pequena.” Nathasa murmurou, doce, mas firme. “Eles não merecem suas lágrimas. Só temos uma à outra agora. E isso será suficiente.”
Isla respirou fundo, tentando acreditar naquelas palavras. Secou os olhos com as costas da mão e levantou o rosto para o céu. As estrelas estavam escondidas por nuvens pesadas, como se até elas se recusasse a testemunhar sua dor.
Eu vou sobreviver ... sussurrou. Nem que seja só para provar que eles não me destruíram.
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No entanto, sobreviver na floresta se mostrou muito mais difícil do que ela imaginava.
No primeiro dia, o pão que trouxe acabou. A água, embora ainda restasse um pouco, já tinha gosto de ferrugem. Isla precisava encontrar um rio, mas cada passo para dentro da mata era uma luta contra a exaustão e o medo.
Seus sentidos, sem a força da transformação, eram limitados. Ela ouvia sons que não conseguia identificar, sentia cheiros que não sabia nomear. A cada ruído de folhas, seu corpo gelava, esperando que um lobo selvagem ou um predador saltasse das sombras.
À noite, o frio era quase insuportável. Tremendo, ela se encolheu contra a raiz de uma árvore imensa, puxando a roupa rasgada contra o corpo. Natasha tentava transmitir calor, mas a ausência da forma lupina a deixava frágil demais.
“Aguente, Isla. O amanhecer sempre chega.”
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No segundo dia, a fome começou a corroer sua sanidade. O estômago roncava alto, e cada arbusto parecia uma promessa de alimento. Isla experimentou raízes amargas que quase a fizeram vomitar e algumas frutas pequenas que lhe causaram dores no estômago.
As pernas vacilavam, mas ela não parava.
Foi nesse dia que escutou uivos ao longe. Longos, melancólicos, carregados de raiva. Isla estremeceu. Não eram uivos da matilha ... reconheceria os tons familiares. Aqueles eram selvagens, lobos sem vínculo, enlouquecidos pela solidão.
Eles também são como eu... sussurrou, o coração apertado.
“Não, Isla.” Nathasa corrigiu, séria. “Eles se perderam de si mesmos. Nós não vamos nos perder. Ainda temos uma à outra.”
Essa promessa foi a única âncora que a manteve firme.
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Na terceira noite, Isla quase sucumbiu ao desespero. Enquanto dormia em um canto escuro da floresta, algo a despertou ... olhos brilhando no escuro. Um par, depois outro, e mais outro. Três lobos solitários, magros e selvagens, a cercavam.
O coração de Isla disparou. Suas mãos tremiam, e ela recuou até sentir as costas baterem contra uma árvore.
“Levante-se, Isla!” Nathasa gritou em sua mente. “Mostre que não é presa!”
Ela se levantou, mesmo com o corpo gritando de dor. Pegou um galho caído e o apontou na direção dos lobos. O coração parecia querer saltar pela boca, mas seus olhos brilhavam com algo novo: determinação.
Não vou cair tão fácil... disse, com a voz embargada, mas firme.
Os lobos rosnaram, avançando alguns passos. Nathasa rugiu dentro dela, tentando se manifestar, mas a rejeição ainda a impedia de se transformar. Isla sentiu a frustração e a raiva explodirem juntas.
Com um grito, ela balançou o galho, batendo contra o chão, fazendo o máximo de barulho que podia. Para sua surpresa, os lobos recuaram, talvez confusos com sua ousadia. Após alguns segundos tensos, desapareceram entre as árvores.
Isla caiu de joelhos, chorando de alívio.
Eu... eu consegui.
“Eu disse, pequena. Você não está sozinha.” Nathasa sussurrou, orgulhosa.
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Quando o sol nasceu no quarto dia, Isla estava exausta, mas algo dentro dela havia mudado. Ainda faminta, ainda frágil, mas já não era mais a mesma jovem que saiu da matilha apenas tentando sobreviver.
Agora havia fogo em seu coração.
Ela olhou para o horizonte, onde a floresta parecia não ter fim, e sentiu a presença de Nathasa vibrando mais forte em sua mente.
Vamos em frente. Isla murmurou. Se o destino quiser me destruir, terá que lutar muito mais.
E, com passos vacilantes, mas determinados, ela avançou mata adentro.