Conversa Franca

1012 Palavras
Rycon continuava sentado à mesa, girando a xícara de café nas mãos já frias. O silêncio se estendia pesado, mas a mente dele era puro ruído. As palavras de Marta ecoavam, afiadas como facas. Gostava de Cara. Ele odiava admitir, mas parte dele sabia que Marta não estava errada. — Está tudo bem, menino... — disse Marta, rompendo o silêncio. A voz dela, baixa e firme, parecia atravessar a couraça que ele tentava erguer. — Não há vergonha nenhuma em gostar de alguém. Rycon bufou, levando a mão ao rosto, esfregando-o com impaciência. — Eu ainda sou jovem, Marta. Não quero me prender a ninguém agora. — falou, tentando soar convicto, mas a própria voz o denunciava. — E, além disso... não quero ninguém do meu lado por interesse. Você sabe como é. Dinheiro, terras... sempre tem quem se aproxime só por isso. Marta ergueu uma sobrancelha e apoiou o queixo na palma da mão, olhando-o como quem observa uma criança teimosa. — Você vai acabar sozinho se se apegar a esses pensamentos. — respondeu sem rodeios. — E, Rycon, eu não vi nada disso naquela moça. Ele ergueu os olhos para ela, a sombra em seu olhar ainda mais carregada. — Você m*l a conhece. — retrucou. — Como pode ter tanta certeza? Marta inclinou-se para a frente, os olhos firmes nos dele. — Porque eu conheço você. — disse devagar. — E vi a forma como você fica perto dela. Vi como o seu olhar muda, como sua voz muda. Pode fingir o que quiser, mas pra mim é claro como o sol do meio-dia. Rycon desviou o olhar, apertando os punhos sobre a mesa. O orgulho lutava contra o que sabia ser verdade. E ele se repreendia por ter deixado Marta perceber a forma que ele se comportava perto de Cara. — Não quero me perder nisso... — murmurou, quase para si mesmo. — Sempre achei que, se um dia me casasse, seria por conveniência, por manter a família, os negócios... não por... — ele parou, incapaz de terminar. Marta pousou a mão sobre a dele, o gesto firme, mas carinhoso. — O casamento não é negócio, menino. É vida. E a vida não se vive com calculadora na mão. — disse, com um meio sorriso. — Se continuar esperando alguém perfeito, sem risco, vai passar a vida olhando pelos campos e não vai ter ninguém esperando você em casa. Ele respirou fundo, o peito pesado. Aquelas palavras o atingiam mais do que gostaria de admitir. — Não sei lidar com isso, Marta... — confessou por fim, a voz rouca. — Aprende. — respondeu ela com firmeza. — Porque se você deixar passar... vai se arrepender mais do que do que fez com aquela moça. Rycon a fitou, o olhar endurecido por fora, mas dentro dele o coração batia descompassado. Pela primeira vez, permitiu-se considerar a possibilidade de que Marta estava certa. Rycon passou o resto da manhã inquieto. Tentava se concentrar nos afazeres da fazenda, mas a cada instante a voz de Marta surgia em sua mente como um sussurro incômodo: “Você gosta dela... Vai acabar sozinho se se apegar a esses pensamentos...” Bufava, chutava pedras no caminho, dava ordens mais duras do que o necessário aos peões. Estava irritado, mas não sabia com quem: com Marta por ter lhe dito aquelas verdades, ou consigo mesmo por ter encontrado lógica nelas. Ao longe, avistou Cara acompanhando Gael no curral. O menino corria atrás de um bezerro recém-nascido, enquanto ela sorria, os cabelos soltos dançando ao vento. Aquela cena simples foi como um golpe em seu peito. O sorriso dela parecia iluminar um espaço dentro dele que há muito tempo estava em escuridão. Imediatamente desviou o olhar. Não queria ver. Não queria sentir. “Ela me irrita...”, repetiu para si mesmo como um mantra, tentando calar a voz que dizia o contrário. Quando percebeu que ela se aproximava para passar pelo mesmo caminho, mudou bruscamente a direção, fingindo observar os cavalos. Cara o notou, e por um instante os olhares se cruzaram. Ele sustentou o dela apenas por um segundo, antes de apertar os lábios e se afastar com passos largos. Marta, que observava de longe enquanto recolhia ervas no jardim, apenas balançou a cabeça com um sorriso conhecedor. — Foge o quanto quiser, menino... — murmurou para si mesma. — Mas o coração sempre encontra o caminho de volta. Cara observava Rycon sair apresado sem entender o que tinha acontecido, mas quando a sua mente se fixa no que ele tinha feito na escada suas bochechas coram na mesma hora. Ela caminha apreçada pela calçada em direção à casa, quando vê Marta carregando uma cesta, ela corre até ela para a ajudar. — Me deixe ajudá-la. — Pede já retirando a cesta das mãos dela. — Não precisa querida, nem está pesada. — Responde ela. — Mesmo assim, já estava indo por aqui mesmo, te dou uma ajuda. — Responde ela seguindo Marta em direção à cozinha. Marta observava Cara com um sorriso no rosto, ela se perguntava se ela realmente seria aquela que dominaria o coração rebelde de Rycon. Assim que chegam a cozinha Marta chama Cara para tomar um chá com ela, elas sentam na mesa da cozinha e Marta trás duas xícaras de chá para elas. — Eu estava curiosa querida, — começa Marta. — você é casada? Cara sorri com a pergunta da senhora, mas podia ver que ela estava sendo sincera. — Sou divorciada, na verdade. — Responde ela enquanto a sua mão apertava com força a caneca a sua frente. — Entendo, hoje em dia é difícil ter alguém descente ao nosso lado. — Diz ela. — Você esta certa, por isso penso apenas no meu filho e em trabalhar bastante para cuidar bem dele. — Diz ela com um sorriso. A ideia de amor tinha morrido no coração de Cara, não totalmente, mas uma grande parte do que ela acreditava sim. O amor tinha passado a significar um perigo a sua vida e a suas escolhas.
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