Rycon continuava sentado à mesa, girando a xícara de café nas mãos já frias. O silêncio se estendia pesado, mas a mente dele era puro ruído. As palavras de Marta ecoavam, afiadas como facas. Gostava de Cara. Ele odiava admitir, mas parte dele sabia que Marta não estava errada.
— Está tudo bem, menino... — disse Marta, rompendo o silêncio. A voz dela, baixa e firme, parecia atravessar a couraça que ele tentava erguer. — Não há vergonha nenhuma em gostar de alguém.
Rycon bufou, levando a mão ao rosto, esfregando-o com impaciência.
— Eu ainda sou jovem, Marta. Não quero me prender a ninguém agora. — falou, tentando soar convicto, mas a própria voz o denunciava. — E, além disso... não quero ninguém do meu lado por interesse. Você sabe como é. Dinheiro, terras... sempre tem quem se aproxime só por isso.
Marta ergueu uma sobrancelha e apoiou o queixo na palma da mão, olhando-o como quem observa uma criança teimosa.
— Você vai acabar sozinho se se apegar a esses pensamentos. — respondeu sem rodeios. — E, Rycon, eu não vi nada disso naquela moça.
Ele ergueu os olhos para ela, a sombra em seu olhar ainda mais carregada.
— Você m*l a conhece. — retrucou. — Como pode ter tanta certeza?
Marta inclinou-se para a frente, os olhos firmes nos dele.
— Porque eu conheço você. — disse devagar. — E vi a forma como você fica perto dela. Vi como o seu olhar muda, como sua voz muda. Pode fingir o que quiser, mas pra mim é claro como o sol do meio-dia.
Rycon desviou o olhar, apertando os punhos sobre a mesa. O orgulho lutava contra o que sabia ser verdade. E ele se repreendia por ter deixado Marta perceber a forma que ele se comportava perto de Cara.
— Não quero me perder nisso... — murmurou, quase para si mesmo. — Sempre achei que, se um dia me casasse, seria por conveniência, por manter a família, os negócios... não por... — ele parou, incapaz de terminar.
Marta pousou a mão sobre a dele, o gesto firme, mas carinhoso.
— O casamento não é negócio, menino. É vida. E a vida não se vive com calculadora na mão. — disse, com um meio sorriso. — Se continuar esperando alguém perfeito, sem risco, vai passar a vida olhando pelos campos e não vai ter ninguém esperando você em casa.
Ele respirou fundo, o peito pesado. Aquelas palavras o atingiam mais do que gostaria de admitir.
— Não sei lidar com isso, Marta... — confessou por fim, a voz rouca.
— Aprende. — respondeu ela com firmeza. — Porque se você deixar passar... vai se arrepender mais do que do que fez com aquela moça.
Rycon a fitou, o olhar endurecido por fora, mas dentro dele o coração batia descompassado. Pela primeira vez, permitiu-se considerar a possibilidade de que Marta estava certa.
Rycon passou o resto da manhã inquieto. Tentava se concentrar nos afazeres da fazenda, mas a cada instante a voz de Marta surgia em sua mente como um sussurro incômodo: “Você gosta dela... Vai acabar sozinho se se apegar a esses pensamentos...”
Bufava, chutava pedras no caminho, dava ordens mais duras do que o necessário aos peões. Estava irritado, mas não sabia com quem: com Marta por ter lhe dito aquelas verdades, ou consigo mesmo por ter encontrado lógica nelas.
Ao longe, avistou Cara acompanhando Gael no curral. O menino corria atrás de um bezerro recém-nascido, enquanto ela sorria, os cabelos soltos dançando ao vento. Aquela cena simples foi como um golpe em seu peito. O sorriso dela parecia iluminar um espaço dentro dele que há muito tempo estava em escuridão.
Imediatamente desviou o olhar. Não queria ver. Não queria sentir.
“Ela me irrita...”, repetiu para si mesmo como um mantra, tentando calar a voz que dizia o contrário.
Quando percebeu que ela se aproximava para passar pelo mesmo caminho, mudou bruscamente a direção, fingindo observar os cavalos. Cara o notou, e por um instante os olhares se cruzaram. Ele sustentou o dela apenas por um segundo, antes de apertar os lábios e se afastar com passos largos.
Marta, que observava de longe enquanto recolhia ervas no jardim, apenas balançou a cabeça com um sorriso conhecedor.
— Foge o quanto quiser, menino... — murmurou para si mesma. — Mas o coração sempre encontra o caminho de volta.
Cara observava Rycon sair apresado sem entender o que tinha acontecido, mas quando a sua mente se fixa no que ele tinha feito na escada suas bochechas coram na mesma hora.
Ela caminha apreçada pela calçada em direção à casa, quando vê Marta carregando uma cesta, ela corre até ela para a ajudar.
— Me deixe ajudá-la. — Pede já retirando a cesta das mãos dela.
— Não precisa querida, nem está pesada. — Responde ela.
— Mesmo assim, já estava indo por aqui mesmo, te dou uma ajuda. — Responde ela seguindo Marta em direção à cozinha.
Marta observava Cara com um sorriso no rosto, ela se perguntava se ela realmente seria aquela que dominaria o coração rebelde de Rycon. Assim que chegam a cozinha Marta chama Cara para tomar um chá com ela, elas sentam na mesa da cozinha e Marta trás duas xícaras de chá para elas.
— Eu estava curiosa querida, — começa Marta. — você é casada?
Cara sorri com a pergunta da senhora, mas podia ver que ela estava sendo sincera.
— Sou divorciada, na verdade. — Responde ela enquanto a sua mão apertava com força a caneca a sua frente.
— Entendo, hoje em dia é difícil ter alguém descente ao nosso lado. — Diz ela.
— Você esta certa, por isso penso apenas no meu filho e em trabalhar bastante para cuidar bem dele. — Diz ela com um sorriso.
A ideia de amor tinha morrido no coração de Cara, não totalmente, mas uma grande parte do que ela acreditava sim. O amor tinha passado a significar um perigo a sua vida e a suas escolhas.