A Promessa de Rycon

1113 Palavras
O cheiro doce do bolo espalhou-se pelo quarto, e Gael não conseguiu esconder a alegria. Mira, sorridente, se abaixou para oferecer-lhe o prato, enquanto César observava a cena com atenção. Ele estava orgulhoso do coração generoso que a sua esposa tinha e, vendo a alegria de Gael, percebia que havia valido a pena cada segundo que Mira tinha passado preparando o bolo. — Devagar, mocinho, senão vai engasgar — advertiu Mira, rindo ao vê-lo atacar a fatia como se fosse um tesouro. Cara relaxou um pouco ao lado da cama, ainda com os olhos cansados, mas feliz em ver o filho tão animado. Rycon, no entanto, não desgrudava o olhar nem de Gael, nem dela. Ele percebia os pequenos detalhes: a forma como Cara acariciava os cabelos do menino sem perceber, como se precisasse sentir constantemente que ele estava ali; a forma como seu corpo ainda estava tenso, mesmo sorrindo. Rycon via que, apesar de Cara ver o filho bem, ela ainda não estava totalmente relaxada ao vê-lo ali naquele lugar. César pigarreou, quebrando o momento. — Rycon, podemos conversar depois? — perguntou em tom sério, mas baixo o suficiente para não alarmar Gael. César sabia que o filho já devia estar planejando algo e queria ter certeza de que tudo fosse feito como se deve. O estômago dele embrulhava apenas por lembrar das coisas que Lúcia tinha dito. Rycon assentiu com um movimento quase imperceptível. Ele já imaginava sobre o que seria a conversa: planos, segurança, até vingança. Ele conhecia o pai que tinha e sabia que César jamais toleraria o que tinha acontecido com Cara. Enquanto isso, Mira se aproximou de Cara e colocou a mão em seu ombro. Ela podia ver a preocupação brilhando nos olhos dela e sabia que era o amor de mãe que falava mais alto naquele momento. — Você também precisa se cuidar, querida — disse suavemente. — O peso que está carregando é demais para uma só pessoa. Cara mordeu o lábio, tentando não chorar diante daquela verdade. Não queria demonstrar fraqueza, principalmente na frente do filho. Mas antes que pudesse responder, Gael levantou os olhos do bolo, com o rosto manchado de chocolate, e falou: — A mamãe é forte, mas... às vezes ela também precisa de alguém pra cuidar dela. Cara olhou para o filho, surpresa com as suas palavras, e a cada dia via o quanto tudo o que tinha acontecido havia afetado Gael. O silêncio tomou conta do quarto por um instante. Cara engoliu em seco, surpresa com a maturidade do filho. Mira sorriu com ternura, enquanto Rycon sentiu um nó na garganta. Ele se aproximou devagar, ajoelhando-se diante de Gael. — E é por isso que eu vou cuidar dela também, Gael — disse firme, encarando o menino e depois voltando os olhos para Cara. — Vocês dois não estão sozinhos. Cara abriu a boca para retrucar, mas fechou novamente. O olhar de Rycon era intenso demais, sincero demais. Seu coração acelerou, e ela desviou o rosto, tentando controlar a emoção que ameaçava transbordar. Nunca o tinha visto daquela forma e não sabia como agir perto dele. Era mais fácil quando os dois estavam brigando e ele estava sendo grosseiro. Cara não sabia como responder às gentilezas de Rycon; há alguns minutos ela nem ao menos sabia que ele conseguia ser gentil. — Vamos falar sobre isso depois — disse rapidamente, tentando se recompor. Gael, no entanto, sorriu satisfeito e abraçou o prato de bolo como se fosse um troféu. — Então tá decidido. O Rycon vai cuidar da gente. Todos no quarto riram, mas por trás da leveza havia uma promessa silenciosa: a partir daquele momento, as coisas não seriam mais como antes, e Cara percebia que, quanto mais tentava afastar Rycon, mais ele se aproximava dela. — Como está o meu paciente? — perguntou o médico, entrando com uma enfermeira. Quando viu Gael agarrado a um prato de bolo, sorriu. — Pelo que vejo, está muito bem. — Você quer, doutor? — perguntou ele, oferecendo o prato ao médico. — Parece ótimo, mas vou ter que recusar — respondeu ele, rindo. — Trouxe o resultado dos exames dele, doutor? — perguntou Cara, apreensiva. — Sim — disse o médico, estendendo a mão para a enfermeira. Ela lhe passou uma pasta, e ele a abriu. — Gael está fisicamente bem, é um menino forte e saudável, mas está com falta de algumas vitaminas importantes para o desenvolvimento. Você pode resolver isso com uma boa alimentação. — Não se preocupe, doutor, vou cuidar disso — disse Rycon, dando um passo à frente e pegando a pasta das mãos do médico. — Mas... — Não se preocupe, querida, temos uma cozinheira muito boa em nossa casa. Vou pedir para ela preparar algumas refeições para o Gael, assim vou ficar mais tranquila sabendo que ele está se cuidando — disse Mira. Ela sabia que Cara não aceitaria a ajuda de Rycon facilmente, então dizer que era seu desejo era a forma mais simples de evitar uma discussão entre os dois. — Mas eu não quero incomodar — disse Cara, constrangida. — Não é incômodo. Eu pago a ela uma pequena fortuna por seus serviços. Fazer as refeições de Gael não será nenhum trabalho — disse ela rapidamente. — Apenas aceite, Cara. Nossa cozinheira também é nutricionista, ela sabe o que está fazendo — disse César. Cara suspirou. Tinha acabado de ser vencida por eles e, depois de toda a ajuda que estavam dando, não queria ser grosseira. — Tudo bem, vou aceitar, mas apenas por um tempo — disse ela, deixando claro que não ficaria recebendo favores para sempre. — Claro, assim que ele refizer os exames e estiver tudo normal, nós paramos — disse Mira, sorrindo. Ela sabia que era apenas uma questão de tempo até que Rycon conquistasse Cara, então não se preocuparia com aquilo. Pensando nisso, Mira deu um pequeno pisão no pé de Rycon. Ele a encarou chateado, mas Mira apontou para Cara. — Doutor, poderia fazer um exame de rotina em Cara também? — perguntou ele. Cara arregalou os olhos ao ouvir aquilo. — Eu não preciso de exame, estou bem — disse. — Mas vai fazer. Quero ter certeza de que tem capacidade física de cuidar do Gael — disse ele, sabendo que ela não recusaria o exame se fosse provocada. — Você... — disse ela, com o maxilar trincado de raiva por Rycon duvidar de sua capacidade. — Vou fazer o exame e fazer você engolir o resultado! — Isso é o que veremos — respondeu ele, rindo, enquanto ela saía com o médico. Para Rycon, estava ficando cada dia mais divertido brincar com Cara.
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