Geovani conduziu Lúcia até uma das poltronas no final do corredor. O ambiente, apesar de silencioso, parecia carregar o peso de todas as dores e segredos que aquelas paredes guardavam. Ele a fez sentar-se devagar, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, Lúcia desabou em seus braços, soluçando.
— Ei, calma... — murmurou Geovani, envolvendo-a num abraço firme. A sua voz era baixa, quase um sussurro. — Está tudo bem, eu estou aqui. Respira fundo...
Lúcia levou alguns segundos para controlar o choro, mas ainda tremia. Os seus olhos marejados encontraram os dele, cheios de receio. Ela só desejava que a sua família encontrasse paz, e recomeçasse, mas parecia que o passado insistia em os perseguir por onde eles fossem.
— Geovani... eu... eu não sei o que fazer.
— Então deixa eu te ajudar. — disse ele, passando a mão suavemente por suas costas, num gesto protetor. — O que está acontecendo? Por que Cara não quer contar nada ao senhor Vásquez?
Lúcia hesitou. Os seus lábios se moveram sem emitir som, como se cada palavra fosse uma ferida que não queria abrir. Ela sabia o quanto Cara odiava ter aquele assunto a tona.
— Eu não devia falar... — murmurou, desviando o olhar.
— Você pode confiar em mim. — insistiu Geovani, firme, mas gentil. — É importante, Lúcia. Se o senhor Vásquez não souber, não vai poder protegê-la.
Ela fechou os olhos, respirou fundo e, num fio de voz, deixou escapar a verdade:
— Cara... Cara sofreu violência doméstica durante o casamento. E... e Gael... ele também foi espancado pelo próprio pai.
O silêncio que se seguiu foi interrompido por um suspiro alto, que ecoou no corredor. Lúcia se virou bruscamente, assustada. Atrás deles estavam Mira e César. O rosto de Mira estava pálido, as mãos pressionadas contra a boca para conter a surpresa. César, ao lado dela, mantinha uma expressão grave, os olhos pesados pela revelação inesperada.
— Não... — Lúcia se levantou de imediato, em pânico. — Por favor, não digam nada a Cara! Ela não quer que ninguém saiba... ela não suportaria...
Mira aproximou-se devagar, estendendo a mão como quem tenta acalmar um animal ferido. Ela podia ver o pavor que crescia nos olhos de Lúcia enquanto ela implorava.
— Lúcia, calma... — disse com doçura. — Nós não vamos contar nada. Eu prometo. Mas você precisa nos ajudar a entender... Conte o que realmente aconteceu.
Mira estava chocada com o que tinha ouvido, ela jamais poderia imaginar que era aquilo que Cara escondia deles e agora podia entender bem o motivo, provavelmente ela estava com medo do julgamento das pessoas.
Lúcia tremia, o coração disparado entre medo e culpa. Olhou para Geovani, procurando apoio.
— Eu não sei se devo...
Geovani segurou-lhe a mão com firmeza, encarando-a com seriedade, os seus olhos castanhos transmitindo toda a paz que ela precisava naquele momento.
— Pode confiar neles. — afirmou. — César e Mira são pessoas de confiança. Eles querem ajudar, Lúcia.
Houve um silêncio carregado antes que Lúcia, finalmente, cedesse. A suas palavras saíram em soluços, mas cada frase trazia mais peso do que a anterior.
— O meu irmão... o meu irmão... ele batia em Cara. Sempre. Eu vi tantas vezes... Ela tentava esconder, mas era impossível. Na última vez... — sua voz embargou, as lágrimas voltaram a rolar. — Na última vez, ela quase morreu. Ficou semanas internada por causa da gravidade dos ferimentos.
Mira levou as mãos ao peito, sentindo o coração apertar. César cerrou os punhos, a raiva visível em seu semblante.
— E Gael? — perguntou César, com a voz controlada, mas carregada de tensão. Ele se recusava a acreditar que um homem que deveria proteger a sua família abusava dela daquela forma.
— Ele também apanhava... — Lúcia respondeu, quase sem conseguir terminar. — Uma vez... uma vez ele tentou defender a mãe. E... e o pai quebrou o dedo dele. Ele era só uma criança! — desatou a chorar de novo, o corpo sacudindo de dor pelas lembranças.
Mira deixou escapar um soluço, lágrimas descendo por seu rosto. Aproximou-se ainda mais, ajoelhando-se diante de Lúcia.
— Meu Deus... — murmurou, com a voz embargada. — Ninguém deveria passar por isso... muito menos uma criança.
Lúcia enxugou as lágrimas com a manga da blusa, mas sua voz continuava fraca:
— Foi por isso que nós fugimos... mudamos de cidade com medo de que ele os encontrasse. Cara nunca quis que Rycon soubesse. Ela... ela nunca quis que ninguém soubesse, só queria colocar uma pedra no seu passado e recomeçar.
O silêncio que caiu sobre o grupo foi pesado. César respirava fundo, tentando controlar a fúria que queimava dentro dele. Mira, por sua vez, enxugava as próprias lágrimas, mas seu olhar carregava uma determinação silenciosa.
— Nós não vamos deixar que isso continue. — disse ela, firme, mas ainda emocionada. — Cara e Gael estão seguros agora. E juntos, vamos garantir que eles nunca mais passem por isso.
Geovani apenas assentiu, apertando a mão de Lúcia com mais força, como se prometesse silenciosamente que jamais a deixaria enfrentar aquilo sozinha de novo.
— Ela tem uma medida protetiva contra ele. Meu irmão não pode se aproximar. — explica ela.
— Ele ainda está solto! — Pergunta César sem conseguir esconder a sua fúria ao saber daquilo.
— Sim. Na ultima vez ele fugiu e a polícia não conseguiu o encontrar, esse também foi um dos motivos pelos quais nos mudamos. — Explica ela.
Geovani puxa Lúcia mais para seus braços a confortando. Ele sempre tinha visto o lado animado da mulher nos seus braços e admirava a ousadia dela, e ver Lúcia naquela situação era algo que ele nunca mais desejava ver.
— Não se preocupe, vou ver com alguns amigos se conseguimos descobrir por onde esse canalha anda, não posso permitir que ele continue fazendo essas atrocidades. — Diz César com olhos escuros. Naquele momento ele estava longe de ser a pessoa gentil e carinhosa que todos conheciam, ele queria vingança.