28. Manuela

1168 Palavras
A noite desceu lenta, carregada de um silêncio que não combinava com a cidade lá fora. O apartamento era grande demais, frio demais. Cada som, o estalar do piso, o barulho distante do trânsito, o tic-tac do relógio, parecia me lembrar que eu estava num lugar que não era meu. Ítalo dormia no quarto, o corpo pequeno encolhido debaixo do cobertor que o Buarque tinha deixado dobrado em cima da cama. Dormia tranquilo, como se nada tivesse acontecido, como se o mundo não tivesse virado de cabeça pra baixo de novo. Eu, por outro lado, sentia o coração batendo no peito como se ainda estivesse fugindo. A imagem dele me perseguia. O jeito que ele me olhou no carro, o olhar cheio de raiva e de uma coisa que doía ver, preocupação, medo, talvez até carinho. Mas tudo distorcido, atravessado pela forma errada com que ele amava: controlando. Andei pela sala, observando o espaço. Tudo era organizado, limpo, milimetricamente no lugar. O sofá alinhado, o copo na mesa, os quadros retos na parede. Um lar sem alma, como se ninguém morasse ali de verdade. Um esconderijo de um homem que não sabia descansar. Passei a mão sobre o tampo da mesa, sentindo o frio do vidro. Era estranho estar ali. Estranho e errado. Eu devia estar na minha casa, mesmo que fosse pequena, mesmo que tivesse goteira, mesmo que o vento entrasse pelas frestas. Pelo menos lá, eu podia respirar. Aqui, era como se o ar fosse dele também. Abri a janela devagar, deixando o vento entrar. O barulho distante das motos subindo o morro me atingiu como uma lembrança viva. O morro era barulhento, sujo, perigoso. Mas era casa. Era o lugar onde o cheiro de comida misturava com o de pólvora, onde todo mundo conhecia todo mundo, onde eu ainda tinha nome. Encostei a testa no vidro e fechei os olhos, sentindo a raiva subir junto com a culpa. Eu devia odiar o que ele fazia comigo, o jeito que invadia, o jeito que mandava. E, ao mesmo tempo, parte de mim ainda se lembrava de quando ele me segurou e disse que eu tava segura. Eu não ouvia isso há anos. E talvez fosse esse o problema. Fiquei ali por um tempo, até o vento esfriar o suor do pescoço. Quando voltei pro quarto, olhei o Ítalo dormindo e ajeitei o cobertor. Deitei ao lado dele, mas o sono não veio. O apartamento cheirava a café e a arma. O cheiro dele. E mesmo longe, mesmo ausente, era como se ele ainda estivesse ali: me vigiando, me prendendo, me querendo. O relógio marcava duas da manhã quando o som da fechadura girou. A respiração falhou por um instante. Eu não sabia se queria que fosse ele, ou se estava apavorada com a ideia de que fosse. A chave girou devagar. O som seco do trinco ecoou pela sala como um aviso. Meu corpo inteiro enrijeceu na mesma hora. Fiquei parada, de pé ao lado da cama, os olhos fixos na porta do quarto. O coração batia alto, rápido, como se pudesse acordar o Ítalo. O barulho dos passos veio logo em seguida, firmes, pesados, ritmados. Era ele. Não precisava ver. O som dele era inconfundível. A forma como andava, o peso da bota no chão, a respiração controlada, o estalar dos ombros como se carregasse o mundo nas costas. Por um segundo, quis fingir que dormia. Que não ouvia. Que ele não estava ali. Mas não deu tempo. A luz da sala se acendeu, e a sombra dele se projetou no corredor. — Achei que tava dormindo. — A voz veio baixa, rouca, misturada com o cansaço e o cheiro de rua. Fiquei em silêncio, parada. Ele entrou na sala, a farda ainda meio aberta, o colete pendurado em um dos ombros. O rosto estava marcado, suado, os olhos fundos, escuros, mas ainda com aquele brilho que me deixava sem ar. — Não consegui. — Foi tudo o que consegui dizer. — Não conseguiu o quê? — Fingir que essa vida aqui serve pra mim. Ele me olhou por alguns segundos. O olhar que antes era só raiva agora tinha outra coisa: exaustão, preocupação, e algo que eu odiava admitir que parecia ternura. — Vai servir — disse por fim, tirando o colete e jogando sobre o sofá. — Você só precisa de tempo. — Tempo? — dei uma risada curta, sem humor. — Tempo pra me acostumar a ser mandada de novo? Pra esquecer que você me tirou da minha casa como se eu fosse coisa sua? — Não começa, Manuela. — Ele passou a mão no cabelo, irritado. — Eu passei o dia inteiro ouvindo político, imprensa, e agora você? — Eu não sou o seu problema, Alex. Ele me encarou, sério. — Você é exatamente o meu problema. Aquela frase me atravessou como uma pancada. Eu abri a boca pra responder, mas ele já se aproximava. Um passo. Dois. Parou perto o bastante pra que eu sentisse o cheiro dele: suor, pólvora, cigarro e o sabonete do banho rápido que ele devia ter tomado antes de voltar. — Você devia me odiar — murmurei. — Eu tento. As palavras dele vieram baixas, sinceras demais. O silêncio que se seguiu foi pesado, denso. Ele desviou o olhar por um segundo, como se precisasse se recompor. — A gente vai ficar aqui por enquanto. — A voz dele voltou mais firme. — Eu não vou arriscar. — Não tem ninguém me procurando, Alex. — Não quero saber. — Você não confia em mim, né? — Não. — A resposta foi direta, sem hesitação. — Eu não confio em ninguém. E se depender de mim, você também não vai mais precisar. — Isso não é proteção — falei, o tom baixo, mas firme. — É prisão. Ele se aproximou mais um passo. — E se for o único jeito de manter você viva, eu aceito o título de carcereiro. Eu o encarei, a garganta apertada. Ele não falava com crueldade, falava com certeza. E talvez isso fosse o mais perigoso nele: ele acreditava que estava certo. — Você vai acabar me quebrando — murmurei, sentindo a voz falhar. — Ou te consertando — respondeu, sem desviar o olhar. — Depende do que você me deixar fazer. Por um instante, não havia mais som nenhum. Nem o vento da janela, nem o barulho da rua. Só o som da nossa respiração: tensa, pesada, sincronizada demais. Então ele passou por mim, foi até a cozinha e abriu a geladeira como se o assunto estivesse encerrado. Pegou uma garrafa d'água, bebeu direto no gargalo e soltou um suspiro longo. — Tenta dormir. — A voz dele veio mais baixa, cansada. — Amanhã a gente conversa direito. E foi só isso. Nada mais. Mas, quando ele passou de volta pelo corredor, o olhar dele cruzou o meu de novo, naquele instante, mesmo sem tocar, eu soube: ele podia ter dito pra eu dormir, mas nenhum dos dois ia conseguir.
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