32. Manuela

1298 Palavras
A cozinha dele parecia coisa de revista. Toda branca, brilhando, silenciosa. Geladeira de duas portas, fogão de cinco bocas, micro-ondas embutido e uma cafeteira que parecia uma nave espacial. Eu me sentia deslocada ali, como se tivesse invadido o cenário de outra vida, uma vida que não era minha. O chão gelado sob meus pés fazia contraste com o calor do fogão. A panela já chiava, o cheiro de alho dourando no azeite subindo rápido, espalhando-se pelo ambiente. Era o mesmo cheiro de casa, de morro, de vida simples. Um cheiro que não combinava com aquele lugar silencioso demais, arrumado demais. Olhei em volta e ri sozinha. Naquela cozinha enorme, tudo era caro, moderno, mas... vazio. Sem cor, sem bagunça, sem alma. Abri a geladeira e encarei o interior reluzente: duas garrafas d'água, meia dúzia de ovos, um pote de proteína, algumas latinhas de energético e uma carne congelada que parecia estar ali há meses. — Homem vive de vento, é? — murmurei, balançando a cabeça. Peguei os ovos e um resto de arroz que encontrei numa vasilha de vidro. Ia sair um mexido digno de almoço de sábado no morro. Nada chique, mas comida de verdade. Enquanto cortava cebola, o som da faca batendo na tábua quebrava o silêncio. Era estranho. Fazia tanto tempo que eu não cozinhava com calma. No morro, era sempre correndo, ou com medo do barulho de tiro, ou do gás acabar. Ali, o gás não ia faltar. A luz não ia cair. O teto não ia vazar. E mesmo assim, faltava alguma coisa. A cada movimento, a cozinha refletia meu rosto nos azulejos brilhantes, e o pensamento vinha inevitável: essa não sou eu. Mas, ao mesmo tempo, meu corpo parecia grato. O chão limpo, a pia sem goteira, o chuveiro quente, o cheiro de conforto... era impossível não gostar. Olhei de novo a geladeira aberta, o contraste entre o luxo e a falta de vida. Ele tinha tudo, menos presença. Um homem que comanda um batalhão, mas não tem o que comer na própria casa. — Tu vive de bala e café, né, capitão? — falei sozinha, mexendo o arroz na panela. — Aposto que o fogão só serve de decoração. O barulho da comida dourando encheu o ambiente, e por um instante, senti paz. Era bizarro, mas real. Eu, ali, no apartamento de um policial do BOPE, cozinhando arroz com ovo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O cheiro começou a se espalhar. Ítalo apareceu no corredor, coçando os olhos, com o cabelo bagunçado. — Mãe, tá fazendo almoço? Sorri. — Tô, amor. Mas é simples, viu? — Tá com cheiro bom. — Melhor do que só café e pão de ontem, né? Ele riu, e naquele riso eu percebi o quanto aquele menino era minha razão pra continuar. Enquanto arrumava os pratos na mesa de vidro grandes demais pra nós dois, pensei em Alex. Onde ele estaria agora? Provavelmente na delegacia, com aquela cara séria, mandando e desmandando no mundo. E eu ali, ocupando o espaço dele, usando o fogão dele, alimentando o filho que ele jurava proteger. Era engraçado, no fim das contas. Ele me tirou do morro achando que tava me salvando, mas o que ele não sabia era que, sem querer, me deu o que eu mais sentia falta: um pedaço de normalidade. Mesmo que fosse uma normalidade emprestada. O apartamento estava silencioso depois do almoço. O cheiro de alho e arroz ainda pairava no ar, misturado com o perfume leve do amaciante das roupas estendidas na área de serviço. A janela aberta deixava o vento quente entrar, fazendo as cortinas balançarem devagar. Ítalo adormeceu primeiro, de barriga cheia, o rosto colado no meu braço. Eu fiquei ali, no sofá, ajeitando o travesseiro embaixo da cabeça dele e deixando o corpo se render ao cansaço. O som da televisão ligada baixinho servia de pano de fundo, e pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não parecia ameaçador. Era calmo. Quase confortável. Fechei os olhos e deixei o sono vir. Nem percebi quando dormi de verdade. O tempo passou sem pressa, e o sol da tarde foi mudando de posição, até deixar o apartamento coberto por uma luz dourada, bonita, quente. O relógio na parede marcava pouco mais de cinco quando a fechadura girou. O som foi discreto, mas suficiente pra me fazer despertar. Demorei um segundo pra entender onde estava, o sofá macio, o ar-condicionado ligado, o barulho da porta se abrindo. Então o cheiro familiar me atingiu antes mesmo de eu abrir os olhos: sabonete misturado com pólvora e cigarro. Era ele. Buarque entrou devagar, os passos pesados, o corpo ainda na farda. O olhar percorreu o ambiente antes de parar em mim e no Ítalo dormindo. Eu não disse nada. Fingi que continuava dormindo. Ele ficou parado um instante, só observando. Depois se aproximou, o som das botas abafado pelo tapete. Parou atrás do sofá, e por um momento, não se moveu. Eu podia sentir o olhar dele sobre mim. O tipo de olhar que não pesa, vigia. O ar pareceu esquentar de novo. — Fez comida. — a voz dele quebrou o silêncio, rouca, baixa. — O cheiro ainda tá no ar. Abri os olhos, devagar. — Fiz com o que tinha. Ele deu um meio sorriso, cansado, mas sincero. — Aposto que ficou melhor do que tudo que eu já comi aqui. — Não é difícil, com o tanto de coisa que você não tem na geladeira. Ele soltou uma risada leve e se abaixou pra tirar as botas. — Eu não sou de parar muito em casa. — Percebi. Por um instante, ficou só o som do fecho de metal e da respiração de Ítalo, tranquila, entre nós. Ele se levantou, passou a mão nos cabelos e se encostou na parede. O sol da tarde batia no rosto dele, e por um segundo, ele parecia outro homem; menos capitão, mais humano. — Ele tá dormindo pesado, hein? — Comeu bem. — Respondi, ajeitando o lençol sobre o menino. — Acho que fazia tempo que ele não dormia assim, sem barulho de moto ou tiro na rua. A expressão dele mudou, ficando séria. — Aqui ninguém vai mexer com vocês. — Eu sei. — olhei pra ele, firme. — Mas não é só de segurança que a gente precisa, Alex. Ele arqueou uma sobrancelha, curioso. — E do que mais? — De paz. O olhar dele se fixou em mim. Por um instante, parecia que ele ia responder, mas ficou quieto. Em vez disso, se aproximou mais. Se abaixou ao lado do sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos, e olhou o menino dormindo. O rosto dele amoleceu de um jeito que eu nunca tinha visto antes. — Ele parece contigo. Sorri, cansada. — Todo mundo diz. Só o temperamento que é meu. Ele assentiu, ainda olhando Ítalo. — Sorte a dele. Ele olhou pra mim de novo, e naquele olhar havia tudo o que ele não sabia dizer. Ficamos em silêncio, e por um momento, o apartamento pareceu um refúgio. O som distante da cidade lá fora, a respiração calma de Ítalo e o sol já quase se pondo criavam uma paz estranha; uma paz que eu sabia que não duraria muito, mas que, ainda assim, me fez querer ficar. Buarque se levantou, foi até a cozinha e olhou a panela ainda no fogão. — Arroz com ovo? — E tomate. Ele olhou por cima do ombro, um sorriso de canto no rosto. — Tá melhorando. — Pode comer, se quiser. — Não. — Ele voltou o olhar pra mim, sério. — Já comi o suficiente hoje. Não respondeu o que. E eu também não perguntei. Porque às vezes, o silêncio entre nós dizia mais do que qualquer palavra.
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