A madrugada no asfalto carioca tem cheiro de coisa queimada e promessa não cumprida. A viatura cortava as ruas vazias da zona norte, eu no volante, Caveira escorado no banco com a boina enterrada na testa. — Três dias sem dormir direito — ele resmungou, bocejando. — Minha coluna já pede aposentadoria. — Com dez anos de frente, tua coluna aguenta. — Dez anos de frente e um tiroteio por semana. Não é a mesma coisa. Deixei ele reclamar. Caveira reclamava até de sol em dia nublado. Mas quando o bicho pegava, era o primeiro a entrar no fogo sem perguntar quantos tinham do outro lado. O rádio chiou. "— Apoio no bairro vizinho. Código vermelho. Repito, código vermelho. Criança desaparecida no Morro do Juramento. Possível sequestro em andamento." Caveira endireitou na hora. Criança desapar

