9. Buarque

909 Palavras
Camila bateu a porta com força assim que a menina saiu, o barulho ecoando pela sala limpa demais pra tanto peso. Eu continuei de pé, no mesmo lugar, com os braços cruzados e o olhar fixo na janela. Lá fora, o sol batia nas grades e a rua brilhava como se nada tivesse acontecido. Mas o silêncio da casa não durou. — Cê tá maluco, Alex? — a voz dela veio cortante, furiosa. — O que foi aquilo? Demorei uns segundos pra responder. — Aquilo foi precaução. — Precaução? — ela bufou, incrédula. — Você humilhou a menina! Uma garota pobre, sozinha, só tentando trabalhar! Me virei devagar. Camila tava de braços abertos, o rosto vermelho de raiva, o cabelo despenteado. O olhar dela - igual ao da nossa mãe - vinha afiado, e por um instante, me lembrei de quando éramos crianças e ela me enfrentava sem medo, mesmo sabendo que eu sempre ganhava no final. — Tu não entende, Camila. — falei, calmo, baixo. — Esse tipo de gente não aparece do nada. Morro é território podre. Cheira crime, fede perigo. — Esse tipo de gente? — ela repetiu, incrédula. — Cê escuta o que tá falando? É exatamente esse pensamento que transforma vocês em monstros de farda! — Monstro é quem sobe o morro pra matar criança, não quem tenta evitar que cheguem perto da minha casa. — Soltei um meio sorriso. — Ela é uma faxineira, Alex! — Camila gritou, e a voz dela ecoou pelo corredor. — Uma mãe! Você viu o estado da menina? Magra, cansada, com as mãos cortadas de produto de limpeza! E você teve coragem de acusar ela de ser espiã? — Cê não sabe quem entra e quem sai do morro, irmã. Eu sei. — caminhei até a mesa, apoiando as mãos nela. — Já vi muita mulher "inocente" levar recado de bandido. Já vi criança carregar arma dentro de mochila escolar. Lá em cima, ninguém é cem por cento limpo. — E você acha que é? — ela devolveu, rápida. — Tu se olha no espelho, Alex? Parei. A frase veio seca, certeira. Camila sempre soube onde acertar. — Tu vende arma, tu cobra propina, tu faz acordo com os mesmos caras que finge combater! E vem aqui bancar o protetor da moral? — Cuidado com o que fala. — Não tô com medo, não. — Ela se aproximou, o rosto a centímetros do meu. — Cê é meu irmão, e eu te amo, mas tá se perdendo nessa tua arrogância de achar que todo mundo é inimigo. — Todo mundo é. — Não, não é. — Ela respirou fundo, tentando se acalmar. — O mundo não é dividido entre bandido e policial, Alex. E aquela menina não devia ter sido tratada como ameaça. Fiquei quieto por alguns segundos. Acendi um cigarro, mesmo ela odiando o cheiro. O som do isqueiro quebrou o silêncio. — Eu fiz o que precisava. — Não. Tu fez o que aprendeu a fazer. — E o que aprendi me mantém vivo. — Traguei devagar. Camila cruzou os braços, respirando fundo, tentando conter o choro que começava a encher os olhos. — Um dia, essa tua frieza vai te matar, sabia? — Já tô morto faz tempo, irmã. Só esqueceram de enterrar. Ela me olhou como se não me reconhecesse mais. E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo me incomodou. — Sabe o que é pior, Alex? — ela disse, a voz embargada. — É que tu ainda acha que tá certo. Joguei a bituca no chão e esmaguei com a bota. — Certo e errado não existem pra mim, Camila. Só existe o que precisa ser feito. Ela virou o rosto, enxugando as lágrimas rápido, sem querer me dar o gosto de ver. — Se o pai visse o que você virou... — O pai morreu acreditando que o mundo tinha salvação. Eu cresci e vi que não tem. Camila ficou em silêncio. Pegou o celular, como se aquilo fosse uma forma de me apagar da frente dela. A casa cheirava a lavanda, mas o ar tava irrespirável. Antes de sair, parei na porta e falei, sem olhar pra trás: — Não quero mais essa menina aqui. Nem ela, nem ninguém do morro. — Tu não manda em mim, Alex. — Mando, sim. — minha voz saiu fria, sem esforço. — Porque enquanto eu tiver farda, meu nome protege o teu. E se eu disser que ela é risco, é risco. Ela não respondeu. Só ficou ali, parada, os olhos marejados, os punhos fechados. Eu saí, batendo a porta devagar, o som seco se misturando ao barulho do motor do carro que me esperava lá fora. Dentro do veículo, Caveira olhou pra mim pelo retrovisor. — Cara de quem arrumou problema em casa. — História antiga. — A Camila? — É. — E o motivo? Olhei pela janela, o sol refletindo no vidro, o morro ainda visível lá no fundo. — Gente demais tentando entrar onde não devia. Caveira riu, sem entender. Mas eu entendi. No fundo, não era sobre a menina. Era sobre o que ela lembrava, o tipo de pobreza que me fez quem eu sou. O tipo que eu jurei nunca mais ser. E talvez fosse por isso que a presença dela me incomodava tanto. Porque, por trás da sujeira nas mãos dela, eu via a sombra do garoto que um dia também pediu esmola pra poder comer.
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