Acordei com o barulho dos tiros ao longe. No começo, achei que era sonho, o mesmo pesadelo que me acorda de vez em quando, com o som seco dos disparos misturado ao choro do Ítalo. Mas não era. O som vinha de verdade, abafado, lá do fim da rua, e o eco subia pelo morro como se o medo tivesse voz.
Olhei pro relógio. Quase seis da manhã. O corpo doía, as pernas pesadas. Acordei antes do sol, antes do barulho das motos e dos gritos das vizinhas chamando as crianças. Me levantei devagar, tentando não acordar o Ítalo, ele dormia encolhido, abraçado ao travesseiro. Tão pequeno, tão inocente no meio desse lugar que nunca dorme de verdade.
Vesti a roupa simples de sempre, calça jeans desbotada, camiseta branca, chinelo velho e prendi o cabelo num coque apressado. Lavei o rosto com água fria, respirei fundo e olhei pro espelho rachado da pia. As olheiras eram o lembrete de que dormir é luxo.
Peguei a bolsa com o dinheiro que sobrou do trabalho de ontem, cinquenta e dois reais, contadinhos, fruto da unha da mulher do chefe e de mais um cabelo que escovei ontem à noite pra vizinha da esquina. Hoje tinha outro bico cedo, limpar uma casa lá no asfalto. Era longe, mas pagava. E no fim do mês, tudo conta.
Acordei o Ítalo com carinho.
— Filho, levanta, meu amor. Mamãe vai te deixar na creche e vai trabalhar, tá?
Ele se mexeu, ainda meio dormindo, e abriu os olhos devagar.
— Hoje cê vai estudar, mãe?
— Não, hoje não. Hoje mamãe tem que trabalhar.
Ele assentiu, coçando os olhos, e se levantou. Vesti a roupinha da creche nele, ajeitei os cachinhos rebeldes e passei um pouco de perfume baratinho, ele gostava de se sentir "cheiroso pra professora".
A rua já estava viva quando saímos. O cheiro de pão quente vindo da padaria lá embaixo, o som das motos subindo, o funk tocando baixo num rádio velho. A vida no morro é assim: barulhenta, cansada, mas viva.
Deixei o Ítalo na creche com o coração apertado, como sempre. Ele correu direto pra sala, e eu fiquei ali por um instante, vendo ele sumir entre as outras crianças. A professora me sorriu com aquele olhar cansado de quem também carrega o mundo nas costas.
— Fica tranquila, Manu. Ele vai ficar bem.
— Eu sei — respondi, tentando acreditar nisso.
Peguei o caminho pra casa da patroa, já lá no asfalto. Desci o morro a pé, com o sol nascendo por trás dos telhados, pintando o céu de rosa e laranja. O ar estava pesado, abafado, e o coração acelerado, não sei se pelo cansaço ou pelo pressentimento que sempre me acompanha.
A casa era grande, cheia de vidro e silêncio. Limpei tudo como pediram, o chão, o banheiro, as janelas. Trabalhei rápido, pensando no almoço, no leite, no gás. No que ainda dava pra segurar até o fim do mês. Quando a patroa me pagou, sorri educada e enfiei o dinheiro no sutiã.
Na volta, parei no mercadinho da ladeira e fiz uma comprimha basica: arroz, feijão, um pacote de macarrão, oléo, sabão em pó, maça e banana pro Italo e um pedacinho de carne moída. Coisa pouca, mas pra quem tem fome, é banquete.
O sol já tava queimando quando comecei a subir de volta o morro. O plástico da sacola esquentava na mão e cortava os dedos, mas eu não ligava. A cabeça tava cheia, o corpo pedindo cama, e o coração querendo chegar logo pra buscar o Ítalo.
Foi aí que ouvi.
O barulho do helicóptero primeiro, aquele zunido distante que faz o chão tremer. Depois, os gritos.
— Sobe, sobe! Corre!
— Fecha o portão, p***a!
— É o BOPE!
O sangue gelou. O coração disparou tanto que doeu.
Corri pro primeiro beco que vi aberto, com a sacola batendo na perna e o som dos tiros crescendo. O helicóptero já tava sobrevoando o alto do morro, jogando luz sobre os telhados. A voz dos comandos ecoava entre as vielas.
— Ninguém sobe, ninguém desce!
Me encostei na parede fria, respirando rápido, o peito subindo e descendo. O barulho era ensurdecedor: os tiros, os gritos, o bater das botas. Vi gente correndo, mulher chorando, criança sendo puxada pra dentro das casas.
As sacolas escorregaram da minha mão. A carne caiu no chão, o arroz rolou pro canto da viela. Eu fiquei parada, tremendo, o corpo travado.
E no meio do caos, um pensamento só: meu filho.
O Ítalo ainda tava na creche.
Segurei o choro com força. Olhei pra cima e vi o helicóptero girando como um abutre, cuspindo luz e medo sobre a favela.
Foi ali, com o cheiro de pólvora e poeira misturado ao suor, que entendi o que é estar viva e impotente ao mesmo tempo. O morro todo parou pra não morrer. E eu só conseguia pensar em correr, mas não sabia pra onde.
Porque aqui, quando o BOPE sobe, ninguém sabe quem vai voltar.