O supermercado estava cheio: carrinhos se cruzando pelos corredores, crianças chorando, caixas piscando preços em vermelho. O ar-condicionado soprava frio demais, e o som dos alto-falantes se misturava às vozes.
Eu tentava manter os olhos em Ítalo o tempo todo, entre prateleiras e gôndolas, enquanto Alex seguia alguns passos à frente, analisando cada movimento ao redor como se estivesse em uma missão.
Ele sempre estava em missão. Mesmo quando não precisava.
Ítalo, animado, empurrava um carrinho pequeno que o mercado disponibilizava para crianças, carregando dentro dele uma caixa de suco, um pacote de biscoito e uma barra de chocolate que Alex tinha deixado passar. O menino ria, correndo à frente de nós, e por um momento eu senti algo que não sentia há muito tempo: normalidade.
Mas normalidade é o tipo de coisa que nunca dura na nossa vida.
Foi rápido. Um segundo. Eu virei pra pegar um pacote de farinha na prateleira. Quando voltei o rosto, o carrinho dele estava vazio.
— Ítalo? — chamei, olhando pro corredor.
Nada.
Olhei pra trás, esperando ver o cabelo bagunçado e o sorriso dele vindo de algum canto, mas não havia ninguém. O coração gelou.
— Alex... — minha voz falhou, o estômago revirando. — Alex, o Ítalo sumiu.
Ele virou imediatamente, o olhar mudando de tédio pra puro instinto em questão de segundos. O corpo dele se enrijeceu.
— Como assim sumiu?
— Ele tava aqui! Ele tava bem aqui, com o carrinho... e agora...
Antes que eu terminasse, ele já tinha largado o nosso carrinho no meio do corredor. O olhar dele varria o ambiente como um scanner, frio, afiado, rápido.
— Fica aqui. — disse, e o tom da voz dele me fez obedecer sem pensar.
Ele desapareceu entre as prateleiras com passos largos, a mão direita já próxima à arma na cintura. A postura mudou: não era mais o homem que estava fazendo compras comigo minutos antes. Era o capitão Buarque, o policial que respirava tática, que enxergava ameaça até na sombra.
Os segundos viraram minutos, e o desespero começou a subir pela garganta. Eu tentava olhar em volta, chamando o nome do meu filho, sentindo as pernas tremerem.
Até que ouvi.
O som seco e autoritário dele cortando o barulho do mercado.
— PARADO!
O grito ecoou. Todo mundo olhou.
Corri na direção do som, o coração batendo descompassado. Vi Alex agarrando um homem perto da porta lateral do depósito, um sujeito magro, encapuzado, que segurava Ítalo pelo braço. O menino chorava, tentando se soltar.
Em um movimento rápido, Alex torceu o pulso do homem, o som do osso estalando seco. O sujeito gritou, e Alex o empurrou contra a parede com força.
— Quem te mandou encostar nele?! — rugiu, o rosto colado no do homem, a voz baixa e mortal.
— Eu... eu só... — o sujeito balbuciou, o olhar aterrorizado.
Alex empurrou mais uma vez, a mão firme contra o peito do homem.
— Eu perguntei quem te mandou!
O segurança do mercado correu, tentando intervir.
— Senhor, calma, aqui tem câmeras, a gente resolve…
Alex se virou com o olhar que bastava pra calar qualquer um.
— Sai da frente.
O segurança recuou sem discutir.
Ítalo correu até mim, soluçando. Eu o abracei com força, tremendo inteira. Ele se agarrou ao meu pescoço, e eu senti o coração dele batendo rápido, o rosto molhado de lágrimas.
Alex respirava fundo, o olhar ainda cravado no homem, o maxilar travado.
— Eu te juro — disse o sujeito, chorando — eu só vi o moleque correndo, achei que era perdido...
— Achou errado. — Alex falou baixo, frio, e soltou o homem com um empurrão. O sujeito caiu no chão, ofegante, e ele se afastou.
O gerente do mercado apareceu, perguntando o que tinha acontecido. Alex nem olhou pra ele.
— Confere as câmeras. Quero ver o que aconteceu, agora!
Pegou o carrinho de Ítalo, empurrou-o pro lado e passou a mão no ombro do menino.
— Tá bem, campeão?
Ítalo assentiu, o rosto ainda vermelho.
— Ele me puxou, capitão... eu não sabia o que fazer...
— Fez certo. — Alex se agachou, o olhar firme, controlado. — Você gritou, e eu te achei. É isso que importa.
Eu ainda estava sem voz. O peito subia e descia rápido, o coração tentando se recompor.
Quando ele se levantou, olhou pra mim. O olhar dele era o mesmo de antes; o olhar de quem comanda, de quem domina, mas agora havia algo mais. Um tipo de raiva contida, protetora, que queimava sob a superfície.
— Isso não vai se repetir. — disse, a voz rouca e tensa. — Nunca mais.
— Alex...
— Eu falei que era pra ficar de olho nele, Manuela. — O tom dele não era um grito, mas o peso das palavras me atravessou. — Um segundo. Foi um segundo.
Engoli em seco, sentindo a culpa subir como um soco.
Ele respirou fundo, passou a mão no rosto, e o tom dele baixou.
— Vem. Vamos acabar isso e ir embora.
Ele já tinha algemado o homem, e enquanto pediu que eu terminasse as compras, ele saiu empurrando o homem pro outro lado.
O supermercado ficou completamente com um clima estranho. Minutos depois chegou três viaturas da BOPE e eu sabia que era amigos do Buarque.
E saber que ele estava assim, porque alguém resolveu achar que poderia fazer m*l ao meu filho, me deixava aliviada. Se fosse em outro tempo, eu não teria esse apoio, sendo uma mulher preta favelada.
Eu terminei as coisas com mais pressa do que realmente esperava. Buarque voltou, ainda com a cara fechada enquanto passava as compras e depois pagava, como se quase três mil reais fossem nada para ele.
Pegou o carrinho com uma das mãos e segurou o ombro de Ítalo com a outra. O menino caminhava calado, o rosto escondido no meu braço.
Saímos do mercado sob o olhar curioso das pessoas, o ar do lado de fora parecendo ainda mais pesado. Alex não disse nada até chegar ao carro. Quando Ítalo entrou e se ajeitou no banco de trás, ele finalmente se virou pra mim.
— Agora entende por que eu não deixo vocês sozinhos? — perguntou, a voz baixa, sem ironia. — Um segundo de descuido. Só um. E o mundo leva tudo que você ama.
Não havia resposta pra aquilo. Só o som do motor ligando, o vento entrando pela janela, e o silêncio carregado entre nós.
E ali, olhando ele dirigir com o olhar fixo na estrada, eu percebi uma coisa que me deu medo e segurança ao mesmo tempo: Alex Buarque não era só um homem protetor. Era um homem que, pra proteger, seria capaz de tudo.
E tudo, no caso dele, era muito mais perigoso do que qualquer bandido. Mas eu realmente estava me sentindo grata e segura.