O relógio marcava quase três da manhã. Eu estava acordada, encostada na cabeceira da cama, com o corpo cansado, mas a mente em alerta. A luz fraca do abajur deixava o quarto em tons dourados, e Ítalo dormia ao meu lado, encolhido no lençol, respirando tranquilo: alheio ao mundo que eu sabia que ainda queimava lá fora.
Ouvir um barulho no elevador e por um segundo, achei que fosse coisa da minha cabeça, que eu estava imaginando, esperando demais. Mas então veio o som que eu já reconhecia: passos firmes, medidos, o peso do coturno sobre o chão liso do corredor do hotel. Cada passo dele parecia ecoar direto dentro de mim.
A porta bateu duas vezes, secas. Eu sabia que era ele antes mesmo de abrir. Levantei devagar, ajeitei a coberta sobre o Ítalo e fui até a porta. A mão tremia um pouco quando girei a maçaneta. Ele estava lá.
Fardado ainda. O rosto suado, o olhar cansado, os ombros largos demais pra parecerem humanos.
Mas o que me pegou não foi o tamanho, foi o silêncio. Aquele tipo de silêncio que vem depois do inferno, quando o corpo volta inteiro, mas a mente ainda tá no fogo.
— Você demorou — falei, baixo, pra não acordar o menino.
— Tive que limpar o chão antes de sair. — A voz dele veio rouca, mais grave do que de costume. — O morro tava um caos.
Dei um passo pra trás, abrindo espaço pra ele entrar. Ele passou por mim devagar, o cheiro de fumaça, suor e pólvora preenchendo o ar. Fechei a porta, e por um instante, só o som do zíper do colete que ele tirava quebrou o silêncio.
— Te vi na TV — falei, sem pensar.
Ele parou, olhou pra mim, e um meio sorriso apareceu no canto da boca.
— Ficou com saudade?
— Fiquei com raiva. — Revirei os olhos.
— O que mais você sentiria, né? — Ele largou o colete sobre a poltrona e passou as mãos no rosto. — Mas você viu, deu certo.
— "Deu certo" é o nome bonito que vocês dão quando metade do morro vira fumaça?
— Não fala do que não entende. — Ele suspirou.
— Eu entendo mais do que você pensa.
Ele me olhou. Longo, direto. E naquele olhar tinha um tipo de cansaço que eu nunca tinha visto antes e uma tensão que o disfarce dele não segurava. Ele se aproximou um pouco, devagar, até o cheiro dele ficar mais forte, até o ar parecer quente demais entre nós.
— Você tá viva. O garoto tá bem. Eu fiz o que tinha que fazer.
— E acha que isso apaga o resto?
— Não apaga nada. — Ele disse, a voz quase num sussurro. — Mas te mantém respirando.
O silêncio voltou, denso. Ele passou uma das mãos na nuca, o olhar caindo sobre o menino dormindo na cama. Por um segundo, a rigidez dele sumiu, ficou só o homem, não o soldado.
— Ele é parecido contigo.
— Eu sei.
Ele assentiu, e por um instante parecia que ia dizer algo, mas ficou quieto. A tensão entre nós cresceu no espaço pequeno. Não era medo, nem raiva. Era outra coisa, uma mistura de tudo que eu não queria sentir.
— Por que voltou? — perguntei, num tom mais baixo. — Achei que não apareceria mais.
— Eu disse que voltava, não disse?
— Você também disse que não machuca mulher.
Ele inclinou a cabeça, o olhar preso em mim.
— E te machuquei?
— Ainda não.
— Então talvez eu esteja cumprindo promessa demais.
O jeito sarcástico dele me irritava, mas tinha algo ali, no fundo da voz, que doía mais do que provocava. Ele parecia à beira de alguma coisa que não sabia nomear, e eu também.
Ele deu mais um passo, e eu senti o corpo reagir antes da mente. Ele tava perto, quente, exausto, com o olhar sombrio de quem carrega peso demais. O tipo de homem que o mundo ensinou a não sentir, mas que mesmo assim deixava escapar rachaduras nas bordas.
— Não devia ter voltado — murmurei, tentando desviar. — Você traz o inferno junto.
Ele se inclinou um pouco, até a voz dele roçar meu ouvido.
— Eu sou o inferno, Manuela. E ainda assim, você abriu a porta.
O ar travou nos meus pulmões. Ele se afastou logo depois, o mesmo jeito frio de sempre voltando ao rosto.
— Vou tomar um banho. Depois eu durmo no sofá.
— Não precisa fingir que é cavalheiro.
— Não tô fingindo nada. — respondeu, pegando a toalha. — Tô tentando não esquecer quem eu sou.
E foi pro banheiro, deixando o cheiro de pólvora e o peso das palavras no ar. Eu fiquei ali, parada, olhando a porta se fechar e pensando que talvez o perigo não fosse ele.
Talvez fosse o que ele começava a despertar em mim, algo que nem o medo conseguia conter.
Mas isso se chama carência, sim! É apenas isso.
Me sentei na cama e fiquei parada vendo o tempo passar, com as mãos no colo. Até que a água parou de correr.
— Manuela.
A voz dele, veio mais suave agora, mas ainda com aquele resquício de autoridade, cortou o silêncio do quarto.
— O quê? — respondi, ainda parada onde ele me deixara.
— Esqueci a toalha. Joga uma aí.
Respirei fundo, virando-me para a cômoda onde as toalhas limpas estavam dobradas. Peguei uma, branca e macia, e caminhei até a porta do banheiro. Estava entreaberta, uma fresta por onde o vapor escapava, carregando o calor úmido para o quarto frio.
— Toma. — Estiquei o braço, virando o rosto para o lado, focando na figura tranquila de Ítalo dormindo.
A porta abriu um pouco mais. Ele não pegou a toalha.
— Você precisa entregar na mão. Não sou um fantasma.
Soltei um suspiro de exasperação e empurrei a porta, decidida a deixar a toalha na pia e sair dali imediatamente.
Mas ele não estava atrás da porta. Estava em pé, no meio da pequena área enevoada, completamente nu.
O vapor enrolava em torno dele, suavizando os contornos duros de seu corpo, mas não havia suavidade que pudesse esconder a verdade crua da sua forma.
Era um corpo de guerra, marcado por cicatrizes antigas e novas, músculos tensos e definidos pela tensão constante. E no centro dessa paisagem de força brutal, pendia seu m****o.
Era... avassaladoramente enorme. Grossa, parecia pesada, repousando em um denso emaranhado de pelos escuros contra a pele clara da coxa. Mesmo em estado de repouso, parecia uma afirmação de poder, uma ameaça silenciosa e primordial.
Meus olhos me traíram, percorrendo o caminho desde seus pés descalços no piso molhado, subindo pelas pernas musculosas, até pousar, inevitavelmente, naquilo.
Um calor intenso e repentino lavou meu rosto e meu pescoço. A vergonha foi rápida e aguda, seguida por uma pontada de algo muito mais profundo e perigoso no meu baixo-ventre.
Ele não fez movimento para se cobrir. Apenas ficou ali, seu olhar cansado agora fixo em mim, avaliando minha reação. A água escorria de seus cabelos mais curtos, pelas têmporas, pelo peito largo, seguindo o caminho dos sulcos abdominais até desaparecer na escuridão da sua virilha.
— A toalha. — ele disse, a voz um rosnado baixo no ambiente úmido.
Eu me mexi, quebrando o transe, e estiquei o braço, jogando o pano branco contra seu peito. Ele pegou no ar, com um reflexo rápido, mas não a usou imediatamente.
— Tá com medo de olhar? — perguntou, e o tom não era de provocação, mas de genuína curiosidade.
— Não. — menti, minha voz saindo como um fio. — Só não tava esperando... um... te ver pelado.
Um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios. Ele finalmente enrolou a toalha em torno da cintura, escondendo a visão que já estava queimada na minha retina.
— Às vezes o tamanho importa, Manuela. Principalmente quando é a única coisa que o inimigo enxerga antes de cair.
Ele passou por mim, seu corpo quente e limpo roçando no meu braço, e saiu do banheiro, deixando-me sozinha no vapor, com o coração batendo descompassado e a imagem do seu corpo estampada na minha mente.
O perigo, eu percebi com um frio na espinha, não era apenas o que ele despertava em mim. Era a parte de mim que ansiava por se render a ele.