Os dias começaram a mudar.
Não de uma vez… mas aos poucos.
Cristiano já não conseguia estar tão presente como antes. O morro estava agitado, movimentações estranhas, nomes sendo citados, territórios sendo observados. O nome de Ivandi voltava a circular com mais força, e isso significava problema.
E problema, no mundo dele… nunca vinha pequeno.
Patrícia percebeu primeiro nas pequenas coisas.
As mensagens demoravam mais.
As ligações eram curtas.
Os encontros… cada vez mais raros.
— Tá tudo bem? — ela perguntou em uma ligação, numa noite em que ele parecia distante.
— Tá sim, princesa… só trabalho — respondeu ele, rápido, direto.
Mas ela sentiu.
Sentiu que tinha algo diferente.
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Enquanto isso, no morro, Cristiano já não tinha mais tempo pra pensar com calma.
— Chefe, a movimentação deles aumentou — disse um dos homens.
— Já sei — respondeu ele, sério. — Quero todo mundo atento. Ninguém vacila.
Ele estava mais frio. Mais focado. Mais perigoso.
O tipo de homem que ele sempre foi… mas que Patrícia ainda não conhecia de verdade.
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Naquela mesma noite, Patrícia estava sozinha em casa, sentada no sofá, olhando o celular.
Nenhuma mensagem nova.
Ela suspirou, cruzando os braços, tentando não pensar demais.
— Ele deve estar ocupado… — murmurou pra si mesma.
Mas no fundo, uma inquietação começava a crescer.
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Cristiano, por outro lado, estava em uma reunião tensa com seus homens.
— Se eles tentarem subir de novo, a gente responde — disse ele, com a voz firme e olhar frio.
— E pesado.
O silêncio que se seguiu foi suficiente para todos entenderem.
Aquilo não era mais só vigilância.
Era guerra se aproximando.
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Mais tarde, sozinho, ele pegou o celular.
Abriu a conversa com Patrícia.
Ficou alguns segundos olhando… sem saber o que dizer.
Digitou:
"Tô com saudade."
Apagou.
Digitou de novo:
"Queria estar com você agora."
Apagou de novo.
Soltou um suspiro pesado e travou o celular.
— Eu não posso… — murmurou. — Não agora.
Porque quanto mais perto ele ficasse dela…
mais perto do perigo ela também ficava.
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E assim, sem que Patrícia entendesse o motivo,
o homem que antes estava sempre presente…
começava a se afastar.
Não por falta de sentimento.
Mas porque o mundo dele…
era perigoso demais pra ela.
A noite estava tranquila demais.
Patrícia fechava a loja já cansada, ajeitando a bolsa no ombro. O movimento da rua era normal, algumas pessoas passando, carros indo e vindo, nada que chamasse atenção… pelo menos à primeira vista.
Mas ela não sabia.
Não sabia que, do outro lado da rua, dentro de um carro escuro, dois homens observavam cada passo dela.
— É essa? — perguntou um deles, olhando a foto no celular.
— É… a mesma do baile. A que tava com ele.
— Com o Dogão… — o outro murmurou, soltando um sorriso frio.
Patrícia começou a caminhar, distraída, mexendo no celular.
O carro ligou devagar.
Seguindo.
Sem pressa.
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Enquanto isso, no morro, Cristiano estava em reunião com seus homens quando um deles entrou apressado.
— Chefe… deu r**m.
Cristiano levantou o olhar na mesma hora.
— Fala.
— Os caras do Ivandi… tão levantando informação. E… — ele hesitou por um segundo — viram você com uma mulher no baile.
O silêncio caiu pesado.
O olhar de Cristiano escureceu na hora.
— Quem viu?
— Não sabemos ao certo… mas tão tentando descobrir quem ela é.
O sangue dele gelou por dentro.
Patrícia.
— Merda… — murmurou, passando a mão no rosto. — Eu falei que isso ia acontecer…
Sem pensar duas vezes, ele pegou o celular e ligou.
Chamando.
Chamando.
Nada.
— Atende, Patrícia… — disse baixo, já tenso.
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Na rua, Patrícia começou a sentir algo estranho.
Um arrepio.
Como se estivesse sendo observada.
Ela olhou para trás…
O carro diminuiu a velocidade.
Ela franziu a testa, o coração acelerando levemente.
— Deve ser coisa da minha cabeça…
Mas não era.
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Cristiano já estava fora de si.
— Prepara o carro agora! — gritou para um dos homens. — AGORA!
— Chefe, o que aconteceu?
— Se eles encostarem nela… — ele parou, os olhos carregados de fúria — eu mato todo mundo.
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Patrícia acelerou o passo.
O carro também.
Agora já não era coincidência.
O medo começou a crescer de verdade.
Ela pegou o celular, as mãos tremendo…
E antes mesmo de conseguir pensar, o telefone tocou.
Cristiano.
— Alô? — disse ela, a voz já nervosa.
— Onde você tá?! — a voz dele saiu firme, mas carregada de urgência.
— Tô indo pra casa… por quê?
— Tem alguém te seguindo?
Ela olhou para trás novamente.
O carro estava ali.
Mais perto.
— Cristiano… — a voz dela falhou — tem um carro…
O silêncio do outro lado durou menos de um segundo.
— Escuta o que eu vou te falar agora — disse ele, completamente sério — não para. Não olha pra trás. Entra no primeiro lugar que tiver movimento. AGORA.
O coração dela disparou.
— O que tá acontecendo?
— Só faz o que eu tô mandando! — ele elevou o tom — EU TÔ INDO!
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Patrícia começou a andar mais rápido, quase correndo.
O carro acelerou.
Os homens lá dentro trocaram olhares.
— Vai… encosta nela.
E naquele momento…
ela percebeu.
Aquilo não era coincidência.
Aquilo era perigo de verdade.