A noite caiu, e o bar de sempre estava movimentado.
As luzes amareladas, o som de conversas misturado à música ambiente e o cheiro familiar de comida frita fizeram Henrique e Rafael trocarem um olhar silencioso antes de entrar.
Caio já estava lá.
Quando os viu, abriu um sorriso enorme.
— Aí, p***a! — levantou-se imediatamente. — Vocês vieram!
Ele abraçou Rafael primeiro e depois Henrique, como fazia desde os tempos da escola.
— Tava com saudade de vocês, c*****o!
Henrique retribuiu o abraço, mas sem o entusiasmo de antes.
Rafael deu alguns tapinhas nas costas do amigo.
— E aí, cara.
Caio sentou-se novamente.
— E aí? O que vocês querem beber? Hoje eu pago. Tô feliz pra c****e!
Rafael puxou a cadeira devagar.
— Feliz, é?
Caio abriu um sorriso despreocupado.
— Tô, p***a.
O garçom se aproximou.
— Três cervejas — pediu Caio.
Assim que ficaram sozinhos novamente, ele recostou na cadeira.
— Cara... vocês não têm noção da sensação de liberdade.
Henrique ficou olhando para ele.
— Liberdade?
— Sim! — respondeu Caio, animado. — Tô solteiro. Bora beber!
Rafael apertou a mandíbula.
— Então é isso?
Caio deu de ombros.
— O quê?
— Você terminou um relacionamento longo, descobriu que vai ser pai e está comemorando porque está solteiro?
O sorriso de Caio diminuiu um pouco.
— Não é assim.
— Então explica — disse Henrique, calmo.
Caio passou a mão pelos cabelos.
— Vocês não entendem. Eu tava me sentindo sufocado. Eu tinha uma vida planejada. Queria viajar, crescer profissionalmente, fazer especialização... de repente aparece uma gravidez.
— "Aparece"? — repetiu Rafael.
— Vocês sabem o que eu quero dizer.
— Não, Caio — respondeu Rafael. — Explica direito.
Caio suspirou.
— Eu não queria ser pai. Nunca quis. Sempre falei isso.
Henrique apoiou os cotovelos na mesa.
— E vocês se protegiam?
Caio desviou o olhar.
— Às vezes.
Rafael o encarou.
— Às vezes?
— Ela tomava remédio.
— Ela tomava porque queria ou porque você insistia para não usar preservativo? — perguntou Henrique.
Caio ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu não gostava de camisinha.
Rafael soltou uma risada sem humor.
— Você não gostava.
— Não é tão simples!
— É simples, sim! — respondeu Rafael, pela primeira vez elevando a voz. — Você não queria filho, mas não se protegia adequadamente. Agora age como se alguém tivesse feito isso sozinho com você.
As cervejas chegaram à mesa.
Ninguém tocou nelas.
Caio ficou sério.
— Vocês estão me julgando.
Henrique respondeu:
— Estamos tentando entender.
— Eu entrei em pânico.
— Pânico faz alguém terminar? Sim — disse Henrique. — Faz alguém dizer coisas horríveis? Às vezes. Mas me responde uma coisa.
Ele olhou diretamente para o amigo.
— Você deixou a Milena sozinha durante uma semana?
Caio engoliu em seco.
— Eu precisava pensar.
— Tinha comida em casa?
O silêncio durou alguns segundos.
— Não sei.
Rafael fechou os olhos por um instante.
— Você sabe que não tinha.
— Eu não pensei nisso.
— Ela tinha dinheiro? — perguntou Henrique.
Caio não respondeu.
Rafael bateu a mão na mesa.
— Ela tinha, Caio?
— Não!
A resposta saiu mais alta do que ele pretendia.
Os três ficaram em silêncio.
Rafael olhou para o amigo que conhecia desde os treze anos.
— Então você sabia que ela estava grávida, sozinha, sem comida... e mesmo assim foi embora?
Caio parecia menor na cadeira.
— Eu... eu só queria fugir daquilo tudo por alguns dias.
Henrique falou com tristeza, não com raiva.
— E enquanto você fugia, quem cuidava dela?
Caio abriu a boca para responder.
Mas não havia resposta.
Porque ele nunca tinha pensado nisso.
O sorriso de homem "livre" desapareceu completamente.
Rafael encarou o amigo.
— Você sabe qual é a pior parte?
Caio ergueu os olhos.
— Não é o fato de você não querer continuar com a Milena. Ninguém é obrigado a permanecer em um relacionamento. Nem mesmo a desejar a paternidade. Mas abandonar uma pessoa vulnerável, sem o básico, é uma escolha. E essa escolha machuca.
Henrique assentiu devagar.
— Você pode estar com medo, Caio. Pode se sentir despreparado. Só não use isso para fingir que não teve responsabilidade na situação.
Caio ficou olhando para a cerveja intacta à sua frente.
A felicidade exagerada com que chegara ao bar já não existia.
O silêncio tomou conta da mesa depois das perguntas de Henrique e Rafael.
Caio passou a mão no rosto, claramente desconfortável.
Pegou a cerveja e tomou um gole longo antes de olhar para os dois amigos.
— Será que a gente pode não falar dela hoje?
Rafael o encarou sem dizer nada.
Caio tentou forçar um sorriso.
— Eu quero só beber com meus irmãos, p***a.
A voz dele saiu cansada dessa vez.
— Senti falta de vocês.
Henrique ficou observando o amigo.
Não havia a animação exagerada de antes.
Parecia apenas um homem tentando desesperadamente fugir de uma conversa que não queria ter.
— Você sabe para onde ela foi? — perguntou Henrique.
Caio deu de ombros.
— Não.
Rafael franziu a testa.
— Você não sabe?
— Talvez tenha voltado pra roça, pra família dela. Sei lá. Depois eu vejo isso.
Ele tomou outro gole.
— Caras... deixa isso quieto um pouco.
Henrique e Rafael trocaram um olhar.
Porque, pela primeira vez naquela noite, eles não enxergaram maldade no rosto de Caio.
Viram negação.
Uma negação tão profunda que chegava a assustar.
— Depois eu vejo isso — repetiu Rafael devagar. — É assim que você tá pensando?
Caio apoiou os cotovelos na mesa.
— Eu não sei o que vocês querem que eu faça.
— Pensar nela seria um começo — respondeu Rafael.
Caio fechou os olhos.
— Eu tô tentando não pensar nisso.
— E está funcionando? — perguntou Henrique, em voz baixa.
Caio demorou alguns segundos para responder.
— Não.
Ele encarou a própria cerveja.
— Eu acordo pensando nisso. Vou dormir pensando nisso. Fico imaginando se minha vida acabou. Se vou odiar ser pai. Se vou estragar a vida de uma criança porque nunca quis uma.
Rafael o observou em silêncio.
— Aí eu tento parar de pensar.
— E por isso você veio beber — comentou Henrique.
Caio deu uma risada amarga.
— É.
Ele olhou para os dois.
— Eu só queria uma noite com vocês. Como antigamente. Sem gravidez, sem responsabilidade, sem essa merda toda.
Henrique sentiu o peito apertar.
Porque aquele era o Caio que conheciam: assustado, confuso, tentando fazer piada quando estava perdido.
Mas também era o mesmo Caio que tinha deixado Milena sozinha.
— A vida não volta a ser como antigamente — disse Henrique com sinceridade. — Não depois de certas escolhas.
Caio abaixou a cabeça.
— Eu sei.
Rafael ficou em silêncio por alguns instantes antes de perguntar:
— Se ela ligasse agora dizendo que precisa de ajuda... você iria?
Caio não respondeu imediatamente.
Os segundos pareceram longos demais.
Ele apertou a garrafa entre os dedos.
— Eu...
A voz falhou.
— Eu não sei.
A honestidade da resposta atingiu Henrique e Rafael de maneiras diferentes.
Rafael sentiu raiva.
Henrique sentiu tristeza.
Porque ambos perceberam a mesma coisa:
Caio não era um vilão frio que não se importava com nada.
Mas também não estava pronto para assumir o tamanho das consequências dos próprios atos.
Ele estava paralisado pelo medo.
E, enquanto tentava fugir dele, quem carregava o peso maior era Milena.
Caio respirou fundo.
— Me odeiam agora?
Henrique olhou para o amigo de infância.
— Não.
Rafael demorou um pouco mais para responder.
— Mas estou decepcionado.
Caio abaixou os olhos.
— Justo.
O silêncio voltou à mesa.
Depois de alguns segundos, Caio ergueu a garrafa.
Os olhos estavam mais vermelhos do que antes.
— Então... só por hoje... será que eu posso ter meus irmãos de volta por algumas horas?
Henrique ergueu a própria garrafa devagar.
Rafael hesitou, mas acabou fazendo o mesmo.
Não porque tudo estivesse perdoado.
Não porque concordassem com o que ele tinha feito.
Mas porque amizades longas às vezes atravessavam momentos difíceis assim: com amor suficiente para permanecer, e honestidade suficiente para não fingir que estava tudo bem.
E, naquela mesa, os três sabiam que a conversa sobre Milena ainda estava longe de terminar.