A porta havia se fechado há alguns minutos.
Mesmo assim, a presença de Lisbeth ainda parecia presa dentro do quarto.
O perfume dela permanecia no ar — um aroma profundo de jasmim escuro misturado com vinho doce. Era um perfume sofisticado, escolhido com cuidado, exatamente como tudo em Lisbeth.
Ela sempre fora assim.
Elegante.
Calculada.
E perigosamente bela.
Luian continuava parado na varanda, apoiado contra a grade de pedra esculpida. Seus olhos prateados observavam o horizonte noturno enquanto o vento frio da montanha passava por seus cabelos negros, bagunçando algumas mechas que caíam sobre sua testa.
Lá embaixo, o território do reino se espalhava em sombras e luzes suaves.
Florestas antigas.
Caminhos estreitos.
Montanhas cobertas por névoa.
E muito além delas… o mundo mortal.
Um mundo onde ninguém se importava com linhagens antigas, regras vampíricas ou responsabilidades reais.
Luian sempre gostara disso.
Ele respirou fundo.
O cheiro de Lisbeth ainda estava ali.
Ela realmente acreditava que ele se casaria.
Um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca.
Casamento.
Aquilo soava absurdo.
Ele voltou para dentro do quarto.
Os lençóis ainda estavam desarrumados, lembranças silenciosas da intensidade de algumas horas antes. O vestido que Lisbeth usara estava jogado sobre uma cadeira próxima à cama.
Era longo.
Negro.
De seda macia.
O tipo de vestido que parecia ter sido desenhado apenas para o corpo dela.
Lisbeth sempre soubera usar sua beleza como arma.
Alta, de postura elegante, com a pele pálida quase translúcida e cabelos negros longos que caíam até a cintura como um rio de tinta.
Quando caminhava por um salão, parecia que o mundo inteiro desacelerava.
E ainda assim… aquilo não fora suficiente para fazê-lo querer ficar.
Luian pegou a calça escura que estava no chão e a vestiu sem pressa.
Seu corpo era atlético, definido de forma natural — músculos marcados sem exagero, ombros largos, abdômen firme. Ele se movia com a confiança de alguém que sempre soube exatamente quem era.
Metade vampiro.
Metade humano.
Totalmente livre.
Ele caminhou até o pequeno bar de cristal no canto do quarto.
Serviu vinho em uma taça alta e observou o líquido vermelho girar lentamente.
Então bebeu.
O sabor forte aqueceu sua garganta.
— Casamento… — murmurou.
A palavra parecia estranha.
Pesada.
Definitiva demais.
Luian terminou o vinho e colocou a taça sobre a mesa.
Foi então que ouviu vozes no corredor.
Passos também.
Mais de um par.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Claro… — murmurou.
A porta se abriu sem aviso.
Três homens entraram no quarto com a familiar falta de cerimônia de quem já estava acostumado a fazer aquilo.
Os três eram amigos de Luian desde a adolescência.
E também eram as únicas pessoas no castelo que pareciam se divertir tanto quanto ele.
O primeiro a entrar foi Darius.
Alto, de ombros largos e cabelos escuros presos em um pequeno r**o de cavalo na nuca. Seus olhos tinham um tom âmbar incomum, e seu sorriso sempre parecia carregar algum tipo de provocação.
Logo atrás dele veio Kael.
Kael era mais magro, mas igualmente imponente. Seus cabelos loiros caíam até o queixo, e seus olhos cinzentos pareciam sempre analisar tudo ao redor.
O último a entrar foi Marek.
Marek era o mais silencioso dos três, mas também o mais imprevisível. Seus cabelos negros eram curtos, e seu olhar escuro parecia sempre esconder algum pensamento perigoso.
Darius foi o primeiro a falar.
— Então era verdade.
Luian cruzou os braços.
— O que exatamente?
Darius apontou para o quarto.
— A discussão.
Kael entrou e olhou para os lençóis bagunçados.
— Parecia intensa.
Marek pegou a garrafa de vinho sobre a mesa.
— Muito intensa.
Ele serviu vinho em outra taça.
— Onde está Lisbeth?
Luian deu de ombros.
— Foi embora.
Os três amigos trocaram olhares.
Então Darius começou a rir.
— Não acredito.
Kael também sorriu.
— Dois anos.
Marek tomou um gole do vinho.
— Achei que ela fosse a sobrevivente.
Luian revirou os olhos.
— Muito engraçado.
Darius caminhou até a cadeira onde o vestido n***o estava.
Ele o levantou com dois dedos.
— Bela peça.
Luian apenas o observou.
— Discussão sobre casamento? — perguntou Kael.
Luian suspirou.
— Sim.
Darius colocou o vestido de volta na cadeira.
— Sempre termina assim.
— Não começou assim — respondeu Luian.
Marek inclinou a cabeça.
— Elas sempre começam acreditando que vão te mudar.
Luian pegou outra taça e serviu mais vinho.
— Eu nunca pedi isso.
Kael se encostou na parede.
— Você nunca pede nada.
— Exatamente.
Darius cruzou os braços.
— Então acabou mesmo?
— Acabou.
Marek ergueu a taça em um pequeno brinde.
— À liberdade.
Luian levantou a sua.
— À liberdade.
Eles beberam.
O clima no quarto mudou imediatamente.
A tensão da discussão havia desaparecido.
Agora havia apenas a familiar sensação de cumplicidade que sempre existira entre os quatro.
Darius se sentou na borda da cama.
— Bem… — disse ele — isso significa que precisamos comemorar.
Luian arqueou uma sobrancelha.
— Comemorar o quê?
Kael respondeu.
— Seu retorno oficial à vida irresponsável.
Marek sorriu de leve.
— Já estávamos esperando por isso.
Luian balançou a cabeça.
— Vocês são insuportáveis.
Darius abriu um sorriso largo.
— E você nos adora.
Luian tomou mais um gole do vinho.
— Qual é o plano?
Kael empurrou-se da parede.
— O mundo mortal.
Luian inclinou a cabeça.
— Hoje?
Marek respondeu calmamente:
— Sempre há festas acontecendo.
Darius acrescentou:
— Música.
Kael completou:
— Bebida.
Marek terminou:
— E mulheres.
Luian observou os três amigos por alguns segundos.
A proposta era tentadora.
O mundo mortal sempre fora o lugar perfeito para desaparecer das expectativas do castelo.
Lá ele não era príncipe.
Não era herdeiro.
Era apenas… Luian.
E isso era libertador.
Ele colocou a taça sobre a mesa.
— Em quanto tempo saímos?
Darius sorriu.
— Uma hora.
Kael caminhou até a porta.
— Vista algo que impressione.
Marek terminou o vinho.
— Humanos gostam de homens perigosos.
Luian riu.
— Então estou perfeitamente vestido.
Darius abriu a porta.
— Nos encontramos no pátio.
Os três começaram a sair.
Mas antes de desaparecer no corredor, Darius virou-se.
— Ah… e Luian?
— Sim?
Darius sorriu maliciosamente.
— Tente não destruir o coração de ninguém esta noite.
Luian apoiou-se novamente na mesa.
Um sorriso lento apareceu em seu rosto.
— Sem promessas.
A porta se fechou.
O quarto ficou silencioso outra vez.
Mas dessa vez…