Se alguém tivesse me perguntado naquela manhã como terminaria o meu dia, eu jamais teria imaginado aquela noite.
Definitivamente não.
Acordei às seis e meia da manhã com o despertador tocando como se estivesse tentando me punir por todas as escolhas erradas da minha vida universitária.
Estude medicina, diziam.
Vai ser uma carreira bonita, diziam.
Ninguém mencionou o fato de que eu viveria à base de café, noites m*l dormidas e provas capazes de destruir completamente a autoestima de qualquer ser humano.
Abri os olhos com dificuldade.
Meu pequeno quarto estava iluminado por uma luz suave que entrava pela janela do apartamento. As cortinas brancas se moviam levemente com a brisa da manhã.
Nosso apartamento não era grande.
Na verdade, era bem pequeno.
Dois quartos, uma sala modesta, uma cozinha que m*l comportava duas pessoas ao mesmo tempo e um banheiro que sempre parecia ocupado nos momentos mais inconvenientes.
Mas era o que podíamos pagar.
Eu dividia aquele lugar com minha melhor amiga.
E parceira de sobrevivência universitária.
Maya.
Gemendo, rolei na cama e olhei para o teto.
— Eu odeio medicina — murmurei.
Do outro lado da parede, ouvi a voz abafada de Maya.
— Você diz isso toda semana.
Eu ri, ainda deitada.
Levantei-me finalmente e fui até o espelho do meu quarto.
Meu cabelo ruivo estava completamente bagunçado.
Normal.
Era longo, ondulado e quase impossível de controlar pela manhã.
Passei a mão pelos fios tentando domá-los.
Minha pele clara contrastava com as sardas espalhadas pelo nariz e pelas bochechas.
Eu não era uma daquelas mulheres incrivelmente voluptuosas que apareciam nas revistas.
Na verdade, meu corpo sempre foi mais… delicado.
Seios pequenos.
Cintura fina.
Quadris mais largos que davam forma a uma b***a que, segundo Maya, eu deveria valorizar mais.
— Você tem uma b***a que muitas mulheres pagariam para ter — ela sempre dizia.
Eu geralmente revirava os olhos.
Peguei uma camiseta larga e um par de jeans e fui para a cozinha.
Maya já estava lá.
Ela estava sentada na bancada com um livro aberto, cercada por anotações, enquanto segurava uma caneca de café como se fosse uma fonte de vida.
Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque bagunçado.
Ela levantou os olhos quando me viu.
— Dormiu?
— Mais ou menos.
— Nervosa?
— Muito.
Hoje era o dia da prova de anatomia.
A pior matéria do semestre.
Talvez da vida.
Maya fechou o livro dramaticamente.
— Se eu reprovar nessa prova, eu abandono medicina e viro bartender.
— Pelo menos bartender ganha dinheiro rápido.
— Verdade.
Sentamos à mesa improvisada da cozinha e revisamos algumas anotações enquanto comíamos torradas.
Depois de uma hora…
Era hora.
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A prova foi um pesadelo.
Quatro horas de perguntas impossíveis.
Nomes de músculos que pareciam ter sido inventados apenas para torturar estudantes.
Diagramas.
Casos clínicos.
Quando finalmente saímos da sala de exame, eu sentia que meu cérebro tinha sido completamente drenado.
Maya se jogou em um banco do corredor.
— Eu não lembro nem meu nome.
Eu sentei ao lado dela.
— Eu acho que fui bem… nas três primeiras perguntas.
— A prova tinha cinquenta.
— Exato.
Ela passou as mãos pelo rosto.
Depois de alguns segundos de silêncio…
Ela olhou para mim.
E sorriu.
— Precisamos sair hoje.
— Sair?
— Sim.
— Maya, eu só quero dormir por doze horas.
— Negativo.
Ela apontou para mim.
— Nós sobrevivemos à pior prova do semestre.
— Talvez.
— Isso exige comemoração.
— Comemoração de sobrevivência?
— Exatamente.
Suspirei.
— O que você tem em mente?
Ela sorriu com aquele olhar perigoso que sempre aparecia antes de suas ideias questionáveis.
— Uma boate.
— Claro que sim.
— Música.
— Hm.
— Bebida.
— Hm…
— Homens bonitos.
Eu ri.
— Você não desiste nunca.
— Jamais.
Pensei por alguns segundos.
A verdade era que eu realmente precisava esquecer aquela prova.
— Tudo bem.
Maya abriu um sorriso enorme.
— Sabia!
— Mas só por algumas horas.
— Perfeito.
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Algumas horas depois…
Nosso pequeno apartamento parecia um campo de batalha de roupas.
Vestidos espalhados pela cama.
Sapatos no chão.
Maquiagem aberta sobre a cômoda.
Maya estava diante do espelho passando delineador enquanto dançava ao som de uma música pop que tocava no celular.
Eu estava sentada na cama tentando decidir entre dois vestidos.
— Esse — disse Maya apontando.
— O vermelho?
— Sim.
— Não é muito chamativo?
— Zuri.
Ela virou-se para mim com expressão séria.
— Você é ruiva.
— E?
— Ruivas nasceram para usar vermelho.
Ela não estava errada.
O vestido vermelho era simples, mas elegante. Marcava minha cintura e caía suavemente sobre os quadris.
Não era exagerado.
Mas valorizava o corpo.
Coloquei o vestido e me olhei no espelho.
Maya apareceu atrás de mim.
— Perfeito.
— Você acha?
— Sim.
Ela apontou para meu reflexo.
— Altura perfeita, cintura linda, cabelo incrível…
Ela fez uma pausa dramática.
— …e aquela b***a.
— Maya!
Ela começou a rir.
— Só estou dizendo a verdade.
Terminei de arrumar o cabelo, deixando os fios ruivos caírem soltos pelos ombros.
Passei uma maquiagem leve.
Nada exagerado.
Quando terminamos, Maya pegou a bolsa e apontou para a porta.
— Hora de esquecer a medicina por algumas horas.
Eu respirei fundo.
— Vamos.
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A boate estava cheia.
Luzes coloridas iluminavam a pista de dança.
A música eletrônica vibrava tão forte que era possível senti-la no peito.
Pessoas dançavam.
Riam.
Conversavam.
Era um ambiente completamente diferente da biblioteca silenciosa onde eu havia passado as últimas semanas estudando.
Maya parecia completamente em casa.
Ela pegou minha mão e me puxou para o bar.
— Primeiro bebida.
— Claro.
Pedimos dois drinks.
O álcool queimou levemente na garganta.
Depois de alguns minutos…
Maya inclinou-se perto de mim e disse:
— Hora de dançar.
— Você não perde tempo.
— Nunca.
Fomos para a pista.
A música era intensa.
Corpos se moviam próximos.
O ambiente estava quente.
Eu estava começando a relaxar.
Pela primeira vez no dia, não pensava em anatomia.
Nem em provas.
Nem em medicina.
Apenas na música.
Então Maya tocou meu braço.
— Zuri.
— O quê?
— Olhe para a entrada.
Eu virei a cabeça.
E foi naquele momento…
Que eu o vi.
Um grupo de quatro homens havia acabado de entrar na boate.
Eles chamavam atenção imediatamente.
Não apenas porque eram bonitos.
Mas porque havia algo… diferente neles.
Algo impossível de explicar.
Um deles estava no centro.
Cabelos negros.
Olhos claros que pareciam brilhar sob as luzes do clube.
Postura confiante.
Perigosa.
Meu coração bateu um pouco mais forte sem motivo aparente.
Maya sussurrou:
— Aquele de preto…
Eu não conseguia tirar os olhos dele.
— Eu sei.
Ela sorriu.
— Boa noite para esquecer a medicina, hein?
Eu não fazia ideia…
De quão certa ela estava.