Capítulo 10 – A parede

684 Palavras
Capítulo 10 – A parede "Há silêncios que pesam mais do que qualquer verdade." Tomás arrancou sem dizer uma palavra. Margarida entrou no carro ao lado dele ainda sem perceber o que estava a acontecer. Durante os primeiros minutos ninguém falou. O único som era o do motor e das janelas abertas, por onde entrava o cheiro quente do final da tarde. As ruas de Armação de Pêra estavam cheias de turistas. Crianças atravessavam a estrada com bóias coloridas debaixo do braço, casais caminhavam em direção à praia e as esplanadas começavam a encher-se para o jantar. Era estranho. A vida continuava exatamente igual para toda a gente. Menos para eles. Margarida olhou discretamente para Tomás. Tinha as duas mãos firmes no volante. O maxilar contraído. Os olhos fixos na estrada. Nunca o tinha visto tão calado. — Vais dizer-me o que se passa? Nenhuma resposta. Esperou alguns segundos. — Tomás... Ele suspirou. — Primeiro preciso de ver. — Ver o quê? — Confia em mim. Ela soltou uma pequena gargalhada, sem humor. — Essa frase perdeu o efeito há uns dez anos. Pela primeira vez desde que tinham saído, Tomás olhou para ela. Havia culpa naquele olhar. Mas também havia cansaço. — Eu sei. Voltou a concentrar-se na estrada. E não disse mais nada. --- Quando chegaram à casa, a rua estava cheia de carrinhas. Os trabalhadores tinham parado as obras. Dois deles encontravam-se junto ao portão, falando em voz baixa. Assim que viram Tomás aproximar-se, abriram passagem. — Está lá dentro. O empreiteiro apareceu logo a seguir. — Estávamos a remover a parede da antiga despensa quando encontrámos isto. Ninguém lhe tocou. Achámos melhor esperar. Margarida franziu a testa. — Esperar por ele? O homem acenou. — O Tomás pediu-nos, logo no primeiro dia, que se aparecesse alguma coisa antiga, o avisássemos antes de mexer. Ela virou-se imediatamente para ele. — Como sabias que podia haver alguma coisa? Tomás não respondeu. Entrou em casa. Margarida seguiu-o. A antiga despensa parecia outra. Parte da parede tinha sido demolida. No centro, onde antes existia apenas reboco envelhecido, via-se agora um pequeno nicho de pedra cuidadosamente fechado por uma tábua de madeira escura. O pó ainda flutuava no ar. O cheiro a cal misturava-se com o da madeira antiga. Tomás ficou imóvel. Durante vários segundos limitou-se a olhar para aquele espaço. Como se o reconhecesse. Como se já o tivesse visto antes. — Não pode ser... — murmurou. Margarida ouviu-o perfeitamente. — Já sabias. Ele fechou os olhos por um instante. — Suspeitava. Ela aproximou-se. — Explica-me. — Não consigo... — Não consegues ou não queres? O silêncio respondeu por ele. Margarida respirou fundo. Sentia a irritação crescer. — Estou farta de perguntas sem resposta. Toda a gente parece saber alguma coisa. A Dona Celeste. A Inês. Tu. Até o empreiteiro. Menos eu. A casa é minha. A minha avó era minha. E continuo sem perceber porque é que todos agem como se eu fosse a última pessoa a quem se deve contar a verdade. A voz tremia-lhe. Não de raiva. De frustração. Tomás deu um passo na direção dela. — Nunca foi para te proteger de mim. Foi... Interrompeu-se. Baixou o olhar. — Foi para te proteger da verdade. Ela ficou a observá-lo. Queria acreditar nele. Mas confiar era muito mais difícil do que tinha imaginado. O empreiteiro aproximou-se. — Abrimos? Tomás olhou para Margarida. Desta vez não respondeu por ela. Esperou. Era a casa dela. A decisão tinha de ser sua. Margarida aproximou-se lentamente do nicho. Passou a mão pela madeira envelhecida. Respirou fundo. — Abram. O martelo bateu uma única vez. A tábua soltou-se imediatamente, como se tivesse esperado anos por aquele momento. O trabalhador iluminou o interior com uma lanterna. Depois recuou. — Está aqui uma caixa. Pequena. De madeira. Com as iniciais gravadas na tampa. A. M. A casa mergulhou num silêncio absoluto. Margarida estendeu lentamente as mãos para pegar na caixa. No instante em que os seus dedos tocaram na madeira, Tomás fechou os olhos. Como quem já sabia... ...que, depois daquele momento, nada voltaria a ser como antes.
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